No Meio do Rio Entre As Árvore:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Jorge Bodanzky
Elenco: Documentário.
Duração: 70 min.
Estréia: 26/03/2015
Ano: 2010


Nem sempre há um Bodanzky à disposição.


Autor: Cid Nader

Não resta dúvida a respeito do amor de Jorge Bodanzky pela região amazônica. Diretor (junto com Orlando Sena) do grandíssimo Iracema, Uma Transamazônica, rodado por ali num período bastante “interessante” de nossa conjuntura política (vale lembrar, também, do ótimo “Terceiro Milênio” – mais um produto com o cheiro da grande floresta), suas ligações ao local e às questões de “desenvolvimento” da vida – num local bastante complexo, de natureza rica, autêntico e não tão merecedor das atenções gerais (mesmo as de pendor piedoso, como acontece com o Nordeste) – dos habitantes parecem ser as maiores motivações que o fazem retomar a jornada como diretor.

Nesse filme de belo título No Meio do Rio Entre as Árvores, o que se percebe de cara é que a simplicidade se fará a maior arma de compilação dos assuntos que, acumulados, comporão um documentário. Documentário que resultou bastante simples, singelo, de forma mais “abrandada” do que “Iracema”, mas tão importante quanto, quando colocado como um eixo de observação atenta que pouca gente dirige à região. Tal singeleza e simplicidade parece casar demais com o modo de ser, e até com os modos de reivindicações dos habitantes (quando as proferem, é com segurança e oratória inusual a muitos outros rincões do país), e quando se conversa um pouco que seja com o diretor, percebe-se que seu próprio jeito talvez tenha sido talhado para tratar dos assuntos de lá como nenhum outro faria.

Jorge e equipe embarcaram numa jornada de possibilitação de “visita” ao local e ao que sucede no cotidiano de uma comunidade (na realidade, um trabalho que faz parte de projeto televisivo, que tinha como intenção maior essa possibilidade de entregar as ferramentas aos locais para que eles mesmos falassem de si), revelando os momentos de início de contato deles com pequenas câmeras digitais e perseguindo-os, paralelamente, com aquela inequívoca veia de cineasta que jamais deixaria as coisas fluírem somente pelos olhares alheios (mesmo que essa fosse a intenção pilar da questão). A alternância entre um “tomado” e outro, acabam por constituir boa parte da trajetória do filme, e se não revelaram o trabalho com o potencial inovador dos filmes que citei no início, me pareceram de importância hiperjusta ante a proposta inicial.

Há cobranças sobre tal falta de “ousadia”, sobre uma simplificação de modos de diferenciação entre o que é cinema de verdade e o que são imagens captadas por uma handcam (sobre o conceito da diferença entre televisão e cinema citados de modo “inocente” por um instrutor de São Paulo que se apresenta como o “técnico” que ensinará os de lá a manipularem as camerazinhas), e até sobre algumas imagens poderosas da natureza “agindo” (trovões, nuvens carregadas sobre o horizonte fluvial, por exemplo)... Na realidade, alguns não percebem que a questão maior recai na facilidade de trânsito para a comunicação de um povo que tinha nas suas mãos uma ferramenta nova para tal: e isso foi o obtido. Mas, muito longe de ser simples por desleixo: muito mais como representação do modo de ser e entender a vida deles transformados em imagens, e com a sabedoria de alguém que conhece e admira a região procurando não interferir, na hora da montagem, da transformação do trabalho conjunto em uma peça única – há unidade. E há beleza.


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