A História da Eternidade:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Camilo Cavalcante
Elenco: Irandhir Santos, Claudio Jaborandy, Leonardo França, Marcélia Cartaxo, Zezita Matos.
Duração: 120
Estréia: 26/02/2015
Ano: 2014


Dos caminhar: do curta ao longa; entre a cidade e o sertão


Autor: Cid Nader

Camilo Cavalcante, de trajetória já até razoavelmente longa no cinema (com ligação principalmente aos curtas-metragens), por vezes se faz representante bastante ligado à mais recente trajetória dos pernambucanos (fortes nesses últimos tempos – façamos disso coisa de uma dúzia de anos -, mas que por vezes andam se fazendo repetidores de fórmula... isso é história para outra hora), mas também aparece como realizador que é mais nordestino num geral, quando, ainda utilizando algo de mecanismos de procedimentos ou “vícios”, ultrapassa as modernas e urgentes fronteiras recifenses, para adentrar sertão adentro, resgatando (e recriando) muito do que são as tradições base, a alma e DNA desse trecho do país,,, Quando relembro, já algumas boas horas depois, de um curta seu pouco conhecido – tanto quanto bom -, Ave Maria ou Mãe dos Sertanejos, talvez perceba mais nitidamente o quanto isso de idas e voltas, do mar ao interior, da transformação de ambientes e almas em algo que deveria ser um ponto central de mesma origem e anseios, representa sua maneira de construir arte, em meio a muitos outros que se assemelham mas também são distantes. Porque Camilo visita esse sertão de forma muito atenta ao que foi berço e constituição de um povo, mas permite que os respingos da urbanidade, por violência ou desejos, invadindo com corpo real ou na imagem de um desenho na TV (como era o Pica-Pau no curta-metragem), deixem umidade evidente, tão rara e ansiada que é.

Ter visto seu mais recente trabalho, A História da Eternidade, e poder escrever sobre as sensações uma noite de sono após, lhe fez mais bem, permitindo mais sensações positivas do que o “logo após” insinuou. Porque, muito do que é a simbologia despejada em tela, representante do que é bastante icônico do sertão, retornou à mente muito mais fortemente do que os maneirismos que poluíram trechos mais marcantes dentro do desenvolvimento da trama. Porque, se toda aquelas situações de descalabro familiar reforçado com tintas fortes marcou demais as últimas impressões - e com jeito do que é um certo “vício” que por vezes tem feito dessas necessidades de “marcação” campo para alguns exercícios de estilo, acima do que deveriam ser basicamente mecanismos para a fluidez da obra -, os momentos desses reforços icônicos foram os que mais voltaram à mente: e aí “sonhei” com a constituição dos lares das três histórias femininas que foram os eixos de ligação das coisas, repletas daquelas imagens e fotos típicas em quadros pendurados nas paredes,como era o casarão de certa decadência com seus móveis antigos, ou como era o casebre com utensílios de cozinha antigos e de mateiros que tem no bode servindo a comida de sobrevivência, nas figuras dos cavalos e esses trabalhadores com suas roupas típicas, no acordeão empunhado e tocado, e relembrando o início, com o enterro do menino em seu caixãozinho branco, fato tão marcante na história das pobrezas nordestinas...

Tais situações, que revelaram evidente esforço de Camilo para fazer-se novamente um tanto diverso de seus pares regionais, revelaram também um trabalho atento e justo, que teve em sua composição de cenografia por vezes, ou em atos resgatados de antiguidade e sofrimento, forte quinhão de importância para escapar do que poderia ser desastre. Desastre que se insinuou, principalmente pelo decorrer, no avançar dos fatos e das situações, aquilo a que chamo de exercício estético, paralelizado por situações de comportamentos humanos estranhos (que até são da espécie, sim, mas que tem forte carga de utilização como muleta esperta num certo trecho de nosso cinema) num crescente que passam a buscar certa cooptação na marra: e ainda colam, pela reação da plateia de Paulínia diante deles. Pareceu-me ao final da noite que isso pesaria demais negativamente na hora do texto – isso ainda cutuca e impede pensar no filme como uma grande obra – mas,imagens, signos, e essas situações da observação do interior já tão complexo por si só no contraste o mundo atual vingaram mais.

Em meio à chuva ou situações que antigamente estariam em tela cercadas pela solidão de humanos, todos eles (os de violência – vinda em forma de vingança de fora, de urbes, ou por atos familiares -; os do acordeonista cego, numa sequência linda, esperando a decisão de seu amor sob tempestade; por exemplo) estiveram no filme com gente “estranha” aos momentos andando, ou passando, ou observando: o diretor marcou seu filme com os signos que retomam o sertão lá de nossa imemória, que está lá como local de vida, sofrimento e solidão, nos instantes mais trágicos ou de felicidade forte, mas que aqui ganharam companhia de humanos estranhos aos momentos, como se fossem algo que se passa numa rua de Recife (ou outra urbe qualquer): onde as tragédias e felicidades continuam acontecendo, e com a solidão persistindo, como costuma ser na vida. Vale lembra que essa tempestade pareceu simbólica, o palco para os atos e decisivos de desfechos, como faria Gabriel Garcia Marques em sua Macondo, com a percepção de que ela destrói mais para limpar, para continuar a vida após tudo. Vale pensar que essas pessoas que andam em paralelo aos personagens principais, são a ligação (de carne e osso) dos dois nordestes.



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