Amors, Plástico e Barulho:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Renata Pinheiro
Elenco: Nash Laila, Maeve Jinkings, Samuel Vieira, Leo Pyrata,
Duração: 86 min.
Estréia: 22/01/2015
Ano: 2013


Vital!


Autor: Cid Nader

Não tem como escapar do delírio visual que Renata Pinheiro cria e “estica” por todo o processo de apresentação, vida e fim – que não se contenta com “um final”, extrapolando suas funções e indo aos créditos com esquetes até mais densamente elaborados do que o filme – de Amor, Plástico e Barulho: inclusive quando se vai embora da sala de cinema e a retina fica espocando internamente (talvez os outros reparem, sabe-se lá) luzes coloridas, brilhos de artifício... Não há como escapar do ouvido repercutindo para dentro (e que se possa talvez até notar alguém dançando inesperadamente do seu lado, com o que teria razão real para tal) horas após terminado o filme, porque “espocam” também nos tímpanos os acordes emanados por todo o tempo, por um trabalho de som quase incrível de tão perfeito, das músicas ditas bregas que são executadas pela banda que abriga a novata e ambiciosa Shelly (Nash Laila), e também a estupenda/entediada Jacqueline (Maeve Jinkings).

O olhar da diretora para esse mundo de tanto sucesso nas ruas e programas dos mais populares de sua Recife é amplo, generoso, indo muito além do que já seria genial se “somente” justo para tentar fazer com que se note com mais atenção os personagens que o tocam em frente. O olhar da diretora atenta a uma construção fílmica dinâmica e extremamente variada, que diversifica as captações “comuns” de suas lentes para valer-se também de outros modos de captação (mais sujos, amadores, pobres, com suas razões específicas, e que cria em tela contraste genial – pela falta de pixels – quando comparado ao que as “câmeras profissionais” fizeram); que insere brilhos artificiais nas cenas (por vezes processos mecânicos, por outras com aparência de obtidos na “mesa de edição”) noturnas e internas, fazendo do ato exemplo cinematográfico (sempre bom lembrar e repetir que o cinema se explica por - e vive das – imagens) para a “explicação” de uma palavra do título do filme, que é “Plástico”; “olhar”, que faz da banda sonora algo raro e hipnotizante, capturando pela audição, ao presentear o espectador com sequências das tais músicas bregas, também pela explosão de sons que inundam a sala de exibição (fica óbvio que aumentar o som da projeção foi uma tática usada, tanto quanto perceptível notar isso como justo e necessário para o alcance desejado: “Barulho”); que é concreto e absolutamente consciente na perseguição aos personagens (com câmeras que até poderiam incomodar pelo fato de serem urgentes e ariscas na necessidade de estarem próximas demais das pessoas, mas dão a volta por cima quando resultam momentos tão necessários à observação deles), na compreensão obtida dos ambientes rastreados e esquadrinhados de forma inquestionável (a partir de quadros fortes e complexos visualmente, cenas de resultado bem avesso ao comum, variações ambientais contrastantes para representar com certezas as especificidades das situações – os momentos no programa humilhante da TV são de tal percepção, os da praia num sonho/noite de outra totalmente diversa, os dos locais dos shows mais antagônica ainda...); e na utilização “veloz” de luzes e som, que emprestam ao filme tudo que foi desejado abordar desde o início.

O olhar da diretora para esse mundo de tanto sucesso enxerga diversos seres, mas é amplo e generoso às suas duas protagonistas, focando atenção rara e cuidadosa nelas, concorrentes ao “cargo” de musa e líder de sua banda: com certeza, fato que Renata conseguiu muito por conta, também, de atuações extremamente dedicadas. Por um lado, o filme tem nelas explosões de cargas de sexualidade (isso é latente, pulsa), incitando desejos e fazendo entender como se é possível progredir ou cair por conta da transformação da carnalidade em amor ou interesse: Jaqueline é potência máxima com seu corpo e modos, Shelly do tipo desejada por ter um tanto de ingenuidade mesclada – todas e mais um tanto, preenchendo a tela com atenção das mais raramente bem completadas por diretores ultimamente. Também tem nelas representação máxima de anseios, de medos, de fins e inícios, de inveja e necessidade de cumplicidade, de necessidade, também, de “Amor”. Se as notamos cada uma em seu mundo, que num certo momento (mesmo que já fora do filme, mesmo após o encerramento) confluirá, e provavelmente quando uma já não estiver mais na banda: se nota que elas fazem parte de um mundo musical idealizado e cultuado pelos “mais simples”, o que talvez possa fazer entendê-las mais ainda como gente do mundo comum, e que sofre pelos amores – “coisas do povo”.

A especulação imobiliária, o aburguesamento estranho de Recife estão lá novamente, por todo o tempo: visão dos prédios em construção, som do anúncio de um novo Shopping que “inaugurará breve”, na corrida insana por uma liquidação “indispensável”. Isso que faz notar quase todos os diretores pernambucanos com consciência rara e insistente em defesa do que é seu.

E Renata consegue demais nesse seu longa: demais mesmo. Lembro agora do trecho/sonho onde Shelly despeja purpurina (ou pó dos “plásticos”, da artificialidade) num ônibus, se movimentando com ritmo e trejeitos de dança da banda – com direito a coreografia e tudo -, talvez como o resumo mais perfeito para tudo que foi contado durante o trajeto em tela: que é o da quase certa desilusão após sucessos tão fugazes como os que são proporcionados pela fama breve de modismos, ou pela falta de empenho dos setores imperantes da divulgação das artes (mesmo os mais populares), quando tudo, se nota, desmoronará diante de um almejado reconhecimento que extrapole o proporcionado pelas camadas mais simples: sempre a velha busca do mais, mesmo quando afirmando que seu público alvo é o mais simples. E tal cena, com cores, brilhos, luzes e atenção danada da câmera, inicia à sonho de David Lynch, para desembocar em coreografia que remete a pensar em Tsai Ming LIang (aliás, diretor que também trata das desilusões e medos da solidão).


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