Boa Sorte:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Carolina Jabor
Elenco: Deborah Secco, João Pedro Zappa, Pablo Sanábio
Duração: 90 min.
Estréia: 25/11/2014
Ano: 2014


Ah, a intenção...


Autor: Cid Nader

Como pode ser grande a distância entre a intenção e o que resulta de algo que poderia servir de ponto deflagrador– pode ser um filme de cinema -, quando usada para definir um novo ponto de partida, ou de autoafirmação. A atriz Deborah Secco - quando da primeira exibição ao público - subiu ao palco de Paulínia, juntamente com a diretora de Boa Sorte, Carolina Jabor, e toda a equipe, e declarou em alto e bom tom, que “...este é sem dúvida o trabalho mais importante da minha vida, para o qual eu mais me dediquei...de um ano... Judite é meu primeiro passo rumo à artista que eu quero ser para sempre; espero que vocês gostem desse primeiro passo...”. Declaração forte, até, e que coloca muito mais peso ainda em um trabalho, antes mesmo de ele ser projetado na telona: azar da diretora que, já não bastasse ver um filme seu representado-se como uma obra de cinema bastante deficiente, ainda teve de carregar a expectativa – que para os fãs tem mais peso (e desconfio que tenham gostado do que viram) – gerada pelo depoimento de uma daquelas estrelas que conseguem arrastar séquitos para uma sala de cinema, ao “melhor” modelo do que acontece com astros estrelas pelo ponto de vista de importância e admiração gerado à modelo Hollywood.

Obviamente, para a observação crítica de uma obra que será analisada, todo esse tipo de “aparato de atração” não pode contar: mas é bem sintomático notar que, quanto mais existe esse modelo de entrega e busca para fazer razão, mais distante a obra gerada se revela distante de um mínimo ideal, débil pelos parâmetros que deveriam fazer ser destaque à apreciação. Carolina Jabor, a diretora, afinal, a que deveria manter seu trabalho por prumos razoáveis – nas questões estéticas, nas execuções técnicas, inclusive na escolha de atores e na história/mote que viria a sustentar animicamente a empreitada -, não conegue manter padrões razoáveis de construção, pois, já de cara, entrega algumas opções de angulações das lentes que pensou serem boas sacadas, mas que na realidade revelaram mesmo grande maltrato ao plano, ao quadro (o que será que queria mesmo com aquelas tomadas enviesadas que usou em momentos de “relax”? o que teria pretendido na observação das situações de escape da realidade. geradas pelos agentes químicos, pensando similarizar as sensações pela atuação dos remédios ou drogas? como pode ter pensado que alguns modos de corte e junção de boa parte do filme viriam a contribuir para o fluxo da narrativa?). Sim, há dois bons instantes de plano-sequência, de boa concretização, mas que renderam inacreditavelmente a aparência de estarem ali de modo artificial demais, como que inseridos fora do padrão comum adotado, para representar algo como exercício de estilo, e não em contribuição coma fluidez...

As atuações seguem padrões que revelam-se um tanto mais distantes do que caberia melhor a um certo padrão de cinema, mas que com certeza deve emocionar a algum público mais afeito ao que se vê em novelas: não basta emagrecer na marra para representar figura soropositivo, por exemplo, ou fazer cara de desligado, na tentativa de caracterização de alguém que “mereça” internação compulsória. Como não basta num dado momento, próximo do final, inserir algumas ilustrações animadas como tentativa de mudança no rumo comum de até então. Num instante, a personagem de Deborah tem uma situação que prometia ser estendida, abreviada (com três ou quatro quadros, sobrepondo-se, e revelando mudança ambiental determinante: por câmera postada na mesma posição, mas rendendo passagem do tempo) de modo a fazer-nos pensar que tal instante, que chegaria a qualquer momento, recebeu solução mais digna do que o texto de Jorge Furtado sugeria (aliás, o texto de Jorge que rendeu o filme parece ser de pouquíssima monta dramática ou alguma riqueza minimamente atraente): mas nada não. Ao final, na penúltima sequência, o dramalhão intuído volta com toda a carga para reforçar o que o trajeto do filme visto – por quase todo o tempo todo – ameaçava.



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