Fonte: [+] [-]
 

Toni Venturi e Pablo Georgieff falam sobre “Dia de Festa”


















No dia 20 de abril, o Cinesesc em São Paulo foi ocupado por um público que raramente vai ao cinema ou melhor que nunca vai ao cinema: os integrantes do Movimento dos Sem Teto do Centro que ali estavam para ver e se ver no documentário “Dia de Festa” de Toni Venturi e Pablo Georgieff. Os editores do cinequanon, Cesar Zamberlan, Érico Fuks e Fábio Yamaji estiveram lá, viram o filme (leia a crítica na coluna estréia/em cartaz) e conversaram com os diretores do filme. Abaixo a entrevista:



Cinequanon – A primeira pergunta é quando surgiu o projeto?

Toni Venturi – Quem pode responder melhor essa pergunta é o Pablo porque foi ele que trouxe a idéia.

Pablo Georgieff – Bem, a idéia do projeto surge com o meu trabalho coletivo com o Coloco que trabalha com questão das ocupações de prédios, com propostas e alternativas para essas micro-sociedades. Nos tivemos um contato com o movimento dos sem teto aqui de São Paulo, ficamos sabendo das ocupações e depois disso tivemos um segundo encontro importante que foi com o Toni quando falamos para ele que procurávamos alguém para fazer um filme, alguém que tivesse mais experiência e que pudesse levar para o cinema essa história. Feito os contatos, começamos a preparar o filme rápido para acompanhar as ocupações, trabalhamos 10 a 15 dias 24 horas na expectativa do que ia acontecer, contando muito com a intuição e tentamos fazer o melhor possível.


Cinequanon – Pablo, o que é o Coloco?

Pablo – É um coletivo de arquitetos e artistas que trabalham em vários projetos, instalações, pesquisas sobre a questão urbana, eu passei dois meses vivendo com os sem teto de São Paulo e daí surgiu a idéia do filme.


Cinequanon – Toni, como você entrou nessa história?

Toni – Foi através de uma amiga produtora francesa e brasileira, a Samantha Longoni que me apresentou em 2003 uns projetos e isso me interessou muito porque tinha muito a ver com o universo dos meus trabalhos, relacionado a questões sociais e políticas. Mas, ficou um pouco naquelas conversas iniciais porque eles voltaram para a França atrás do financiamento necessário e não conseguiram. Esse é um dado interessante porque eu achei que esse seria mais um daqueles projetos porque você sabe... cineasta é assim tem sempre uma gaveta imensa cheia de projetos e eu achei que com esse ia acontecer isso, mas em agosto o Pablo e a Samantha aterrisam em São Paulo sem claquete e dizem: “olha a coisa vai acontecer, nós não sabemos ainda a data porque as ocupações são hiper sigilosas, vai ser uma grande ação e mesmo sem dinheiro, a gente vai ter que fazer”.Eu senti que aquilo era um chamamento do Pablo para mim. Eu pensei e falei: “então, vamos”. Acabei me tornando um co-produtor e eu que pensei que eu ia ser só um diretor contratado, ia ganhar eu euro (risos), mas não tive que batalhar, correr atrás, mas não existe essa coisa de entrar pela metade no projeto, ou você entra por inteiro ou não entra.


Cinequanon – Foi quanto tempo de captação?

Toni – Captando todo o material foram 3 meses, só mais tarde que nos conseguimos o dinheiro para finalizar o filme.


Cinequanon - O filme começou a ser preparado então em 2004?

Toni – O nosso primeiro encontro foi em 2003, mas foi em agosto de 2004 que nós começamos a prepará-lo que culmina agora com o lançamento em 2006.


Cinequanon – E como vai ser esse lançamento? Quantas cópias?

Toni – Vai ser um lançamento fechado, uma cópia em São Paulo e uma cópia no Rio. Depois, nós fazemos as outras capitais. A gente não quer abrir muito o lançamento, primeiro porque é um documentário, depois porque é um documentário com temática social, as pessoas que procuram esse filme mais comercial têm uma outra expectativa, então, vamos estrear com poucas cópias e ver se conseguimos ficar mais tempo em cartaz. Vai ter um seminário no dia 2 de junho, ou seja, tem um processo com umas atividades relacionadas para discutir essa questão dos sem teto. A gente quer que o filme seja um pouco mais que um filme, não que a gente ache que vai mudar alguma coisa, a gente sabe, a gente não tem mais esse romantismo, mas se ele contribuir para que as pessoas pensem um pouco - e hoje em dia, as pessoas não querem pensar - , ele já cumpriu seu papel.


Cinequanon – O filme vai ser exibido também em sessões populares para pessoas que não tem teto ou vivem em condições desumanas em favelas e cortiços ou nas ruas?

Pablo – Vão ser feitas sim, assim como a projeção de hoje aqui no Cinesesc que para a gente era uma projeção muito importante porque são essas pessoas que foram retratadas no filme. Essa projeção para a gente é mais importante que a projeção em qualquer festival. Eles gostaram muito do filme e querem usá-lo para divulgar o movimento, a problemática da moradia, da miséria, de toda essa desigualdade que o filme retrata. Já tivemos a oportunidade de exibir o filme na França, na Holanda, o filme interessa bastante as pessoas que estão nessa luta.


Cinequanon – O filme tem um olhar muito generoso com o movimento, com as pessoas que integram o movimento e quando aparece a polícia, a tropa de choque, personagens que poderiam sugerir uma resposta violenta, o que não acontece explicitamente, fica em aberto a possibilidade de um confronto, mas quando você fecha no soldado, no tenente, não acontece a vilanização dessas figuras, ou seja, o filme não coloca o problema nas pessoas e a pergunta em cima disso é onde está o problema na lei, no estatuto, na classe política, no Estado?

Toni – A pergunta é muito abrangente, eu nem vou conseguir te responder, vou fazer apenas um recorte. Até porque cinema é também um recorte, uma escola. E a sua pergunta é a minha resposta. E eu e o Pablo fizemos escolhas, a gente poderia ter trabalhado com outros personagens, poderíamos ter trabalhado com outras coordenadoras, mas nos achamos que com essas quatro nos conseguiríamos construir uma trajetória e a gente estava interessado em mostrar uma trajetória, um percurso. Nós nos envolvemos muito com o movimento, mas não queríamos cair em nenhum tipo de caricatura, queríamos fazer uma coisa mais ampla, não queríamos fazer uma coisa explicadinha, com narrador, usamos os letterings para passar algumas informações mais para passar o contexto, porque existe esse problema e porque estamos falando dele. Mas, quem sou eu para vilanizar a polícia, eles estavam lá cumprindo seu papel, como eu com a minha câmera e eles estavam tão a favor do movimento como eu e o Pablo. Eles também têm seus problemas, estão um pouco acima, vivem um pouco melhor dentro dessa sociedade tão estratificada que é a nossa, eles têm casa, abaixo deles não. O problema é estrutural. A gente só vai resolver quando entender a questão da injustiça social no Brasil. Eu não tenho a solução. Acho que a gente caminha, à medida que vão surgindo filmes, pesquisas, teses, seminários para uma discussão mais ampla, isso vai melhorando um pouquinho, mas ainda é muito pouco.

Pablo – Eu queria incluir nessa questão que o filme não discute uma questão política, o que se apresenta aqui é uma proposta, o movimento tem uma proposta: encontram o local, o transformam juntos esse lugar, melhorando a vida de todos. É uma proposta muito interessante, viável. Eu acho que é importante ajudar essa experiência a existir, entender como essas experiências funcionam, observá-las. Eu acho que é uma coisa muito contemporânea, das micro-experiências contra as grandes teorias, as grandes explicações do mundo. Temos ali pessoas tentando fazer alguma coisa, tentando mudar uma situação por meio da ação e do diálogo. Eu acho isso muito importante. E eu acho que é isso que o filme retrata.


Cinequanon - Qual a expectativa em relação ao filme?

Toni – Sinceramente não sei, vamos esperar e ver o que acontece.