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Zakir: do Cine Luz ao Cinesesc, uma paixão pelo cinema












Além de gerenciar o cinema mais simpático de São Paulo, o Cinesesc, Luiz Alberto Zakir ou simplesmente Zakir é também um cinéfilo de primeira, daqueles que não vêem a hora da Mostra chegar para rever os amigos e passar horas e horas discutindo e vendo filmes.

Advogado e Sociólogo, Zakir está no Sesc há mais de 30 anos e 13 a frente do Cinesesc. Nesta entrevista, Zakir fala sobre a sua paixão pelo cinema - do Cine Luz ao Cinesesc; dos filmes de antigamente e da relação profunda entre política e cinema; fala sobre sua trajetória no Sesc e dirigindo o Cinesesc e, é óbvio, sobre cinema e filmes, muitos filmes.



Cinequanon: Como nasceu essa paixão pelo cinema?
Zakir
- A minha paixão pelo cinema vem da infância, vem do Cine Luz de Porecatu no Paraná. Essa cidade viveu a época áurea do café. E existia lá uma sociedade de certa forma sofisticada, mas a cidade tinha barro, norte do Paraná, terra vermelha, imagine. Uma cidade nova. Eu nasci lá em 1948 e na década seguinte surgiu o cinema, o Cine Luz. Que esta lá até hoje, não mudou de nome, não funciona regularmente e tem dificuldades terríveis para funcionar. Estive lá recentemente. E o quê que eu vi lá? As mesmas poltronas maravilhosas, a mesma tela. É uma sala de cinema espetacular. E nessa sala, comecei a ver aqueles seriados etc. Depois me mudei para uma cidade maior, Londrina e também acompanhava cinema. Quando vim para São Paulo em 1969, comecinho de 1969, o cinema tinha uma importância muito grande do ponto de vista político. Havia uma censura férrea e a gente conseguia ver algumas coisas. Eu, por exemplo, vi pré-estréia no Cine Maracha do “Sacco e Vanzetti”. Então, o cinema passou a ter uma conotação política e além dessa conotação política, havia também a conotação existencial que começava a ser bastante relacionada ao cinema, Bergman era um cineasta obrigatório para todos nós. Imagine, eu estudava sociologia na Escola de Sociologia e Política de São Paulo. A partir disso, foi um passo para eu conhecer Fellini, o neo-realismo italiano. O cinema italiano na época era fortíssimo tinha toda aquela escola: Antonioni, Fellini, Visconti etc. Logo em seguida, apareceram os alemães, o Wenders, o Herzog e o Fassbinder, o mais importante deles todos. Evidentemente, a gente via esses diretores e fazia um processo de reflexão. Comecei a ver também os clássicos norte-americanos, comecei a freqüentar também a Cinemateca, acompanhei o surgimento das videolocadoras que ajudou muito porque você podia rever aquilo que fazia tempo que você não via e ver coisas que não passavam no cinema. Acompanhei também muito o cinema brasileiro, todo o cinema novo, a Embrafilme. Vivi aquilo in loco. “Deus e o Diabo na Terra do Sol” é uma bandeira política, toda a clássica trilogia do sertão de “Deus e o Diabo”, “Vidas Secas” e “Os Fuzis”. “Terra em Transe” também. Havia toda aquela luta com a censura, era tudo cortado. Também surgiu o Festival Internacional do Cakoff, a Mostra.

Você veio para São Paulo para estudar?
Zakir -
Eu estudava Bioquímica no Paraná e ou eu ficava lá e me tornava um bioquímico ou vinha para São Paulo descobrir o mundo. Eu abandonei o curso em maio e vim para cá. 1964 eu passei lá, tinha uma participação política grande dentro dos limites do interior. Existia um jornal no interior chamado “Brasil Urgente”, eu ainda era um menino, mas já me ligava em política. Lia esse jornal que era um jornal aguerrido, engajado, o Brasil inteiro lia. E a indignação com a situação, com a ditadura me fez vir para São Paulo porque eu achava que aqui era um lugar mais propício para você se expressar, se informar e se formar do ponto de vista acadêmico.

Que cinema você freqüentava aqui em São Paulo?
Zakir -
A gente freqüentava o Maracha, era num cinema aqui na Augusta, do lado esquerdo, pra baixo do Unibanco. Esse era o cinema que a gente mais freqüentava e havia também o Bijou. Não tinha muito mais do que isso também. Outro cinema era o Belas Artes. Basicamente a gente freqüentava esses três cinemas.

Você falou que o cinema antes era muito ligado à política, fale mais sobre isso?
Zakir -
Existiam filmes, principalmente italianos, extremamente engajados. “Os Companheiros”, “Sacco e Vanzetti”, os filmes do Gillo Pontecorvo: “Batalha de Argel”, “Queimada”. Esses filmes todos eram daquela época. Eram filmes que promoviam uma reflexão política contemporânea. Tinha também os filmes do Elio Petri, do Germi, do Monicelli que dirigiu os “Companheiros”. Quer mais que “Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita”, “Classe Operária vai ao Paraíso” ou “Caso Mattei” do Francesco Rossi. Todos esses filmes promoviam uma profunda reflexão política, discutindo as contradições daquele tempo, questões relacionadas a uma temática conjuntural.

Hoje é raro ver filmes tão engajados politicamente.
Zakir -
Nós temos um pouquinho, Ken Loach, talvez. Temos algumas coisas engajadas, mas pontuais. A relação da política com o cinema já não é mais a mesma. Eu precisaria ver como os universitários hoje estão entendendo o cinema, mas é diferente. Na época, tínhamos também muitos filmes sobre o Vietnã, “Corações e Mentes”, o “Apocalipse Now” que tem um viés um pouquinho diferente, mas traz a denúncia. Filmes muito críticos a algo que a gente conhece bem hoje que é a dominação oligárquica e hegemônica. Outros filmes ótimos eram os cubanos - quando chegavam. Era muito difícil, mas até víamos um ou outro filme cubano como “Memórias do Subdesenvolvimento” do Alea. Eles abriam uma discussão sobre algo que estava ocorrendo. “Terra em Transe” é um discurso político, “Deus e o Diabo” era e continua sendo um filme que reflete de maneira muito fiel toda uma configuração, uma estrutura de classes sociais lá do nordeste: o vaqueiro, o coronel, a injustiça contra o vaqueiro, a família dele, a questão do messianismo, a relação do vaqueiro com a igreja, com a política, com o cangaço. Aquilo, pra nós que estudávamos antropologia, sociologia e ciências políticas era uma coisa. “Terra em transe” então nem se diga.

Que filme te marcou mais nessa época?
Zakir -
A gente tinha uma admiração brutal pelo Glauber Rocha. E na época, a gente era mais pró “Terra em Transe” que “Deus e o Diabo”. Até por causa da visão mais ideológica. Era mais uma discussão política. Hoje a gente tem uma posição mais poética, é a poética do cinema. Isso existia antes também, mas a gente estava brigando politicamente e existia uma repressão terrível. Então, por causa disso, o filme que mais me marcou naquela época de formação, além dos do Glauber, foram os italianos. “Os Companheiros” do Mário Monicelli me marcou profundamente. Outro filme foi “Sacco e Vanzetti”. Na verdade, eram filmes que falava bem da opressão, das classes dominadas pelas classes dominantes e da questão do sindicalismo, caso de “Sacco e Vanzetti”. Outro filme importante para mim foi “Tempos Modernos” do Carlitos.

E como você veio parar no Sesc?
Zakir -
Eu me formei em 1974 e entrei no Sesc por concurso em 1975. Antes eu trabalhei no Diário de São Paulo que era na Sete de Abril. Trabalhava na central informativa associada, ficava ouvindo rádios para passar para a redação, era rádio-escuta. Daí, entrei no Sesc para ser o que chamam hoje de animador cultural, ou seja, para criar programas e atividades para o tempo livre do usuário. O Sesc tem e sempre teve uma atuação forte na difusão cultural, na busca do lazer, do aproveitamento do tempo livre. O Sesc na época já desenvolvia esse trabalho, havia uma ideologia da instituição que era pensar o lazer como categoria sociológica no sentido de oferecer ao usuário, que era basicamente o comerciário e hoje é a população em geral, uma atividade inteligente e saudável no seu tempo livre. Quando eu entrei no Sesc, fazíamos um trabalho de ação comunitária. Existiam bem menos sescs que hoje e nos íamos para varias cidades para estimular a moçada da cidade a desenvolver atividades na área de teatro, cinema, literatura. A gente propunha atividades, facilitava a realização de um evento que se chamava “Feira de Cultura”, “Feira de lazer”, alguma coisa assim. Gerava um grande movimento, era bem legal. Nós chegávamos a montar cerca de quatro ou cinco grupos de teatro numa cidade. A gente chamava de feira porque o pessoal apresentava o produto que a gente vinha estimulando nesses três, quatro meses nesse evento. Foi uma época muito boa.

E como surgiu a oportunidade de vir para o Cinesesc?
Zakir -
Eu vim pro Cinesesc há 13 anos, em 1992. O Cinesesc é de 1979. Eu vim parar no Cinesesc porque todo mundo sabia que eu gostava de cinema. Apesar de não ser formado em cinema, todo mundo sabia que cinema era a minha paixão e que eu conhecia muito cinema. Eu via tudo e não só cinema, muito teatro também. Quando apareceu uma vaga aqui, o Danilo Santos Miranda me chamou. Eu já tinha passado pelo Sesc Interlagos e pelo Sesc Consolação. Fiquei sete anos em cada um. Trabalhei na administração central na Paulista, fiz esse projeto de ação comunitário, quando apareceu esse convite, ele me chamou e falou: “Olha Zaquir, tem essa possibilidade, todo mundo fala que você gosta e entende de cinema, aceita o desafio de tocar o Cinesesc”. Era um desafio mesmo, mas eu dei um pouco de sorte porque estava começando a aparecer esse pessoal novo, o pessoal da Pandora, o André Sturm; a Lumiére do Rio de Janeiro; o Jean Thomas com a Imovision. Enfim, distribuidores independentes. E aí, devagarzinho, a gente foi tocando. Fiquei então ainda mais antenado com o que acontecia. E acho que deu certo, afinal são 13 anos. Eu adoro isso aqui. Fizemos a reforma para tentar acompanhar os novos cinemas, os moderníssimos multiplexs, com esses novos equipamentos e olha que conseguir isso é uma luta viu. Mas, nós buscamos um diferencial que é a programação.

O Cinesesc é sempre eleito como o cinema mais simpático de São Paulo. Como você explica isso?
Zakir -
É uma questão afetiva, eu não vou entrar na questão técnica, nem de programação. Mas, imagina você, antes de aparecer o Unibanco ou o Arteplex não havia um ponto de encontro onde você pudesse sentar, conversar, bate papo. O Cinesesc passou a ser o primeiro lugar que você podia ficar, conversar. Além do que sempre teve, vamos falar agora da questão técnica - disse que não ia, mas vamos falar – sempre teve uma boa projeção e um bom som, numa época que se perdia muito pela falta de uma consistência nessa área, principalmente no som. O som era muito ruim. Agora o que eu acho que é mais importante sobre esse aspecto é a questão do encontro. O Cinesesc tinha, por exemplo, uma sessão infantil, aos sábados e domingos, que passava todos os clássicos da Disney. A gente costumava dizer que era a sessão dos pais porque muitos casais separados traziam os filhos. Tinhamos também um projeto chamado escola vai ao cinema que a gente trabalhava na parte da manhã e lançávamos aqui o que havia de mais novo. Lançamos “Mahabarata”. Lembro que na ocasião, o André Sturm trouxe “Paisagem na Neblina”. Teve também o “Asas do Desejo”. E foram filmes que só foram projetados aqui, exclusivamente aqui. Aquele filme brasileiro “Fogo e Paixão” ficou muito tempo aqui também. Outra coisa é o bar, o pessoal pode fumar ali dentro. Hoje muito pouca gente fuma, mas serve para outra coisa muito importante: as pessoas podem se comunicar baixinho, assistir o filme em grupos, tem uma luzinha que acende e apaga. Esse aspecto é o mais importante. Para quem não se incomoda com um barulhinho, é muito interessante, você pode tomar um cafezinho. É isso que dá essa conotação mais gostosa, informal.

Eu queria que você falasse um pouco do episódio da reforma. Algumas pessoas foram contra a reforma, é verdade?
Zakir -
Houve, sim, uma manifestação contrária à reforma na época, mas foi pouca gente. E dá para compreender porquê. O Cinesesc, de certa forma, pertence, a essas pessoas. Por isso que as pessoas gostam do Cinesesc e por isso que reclamam. As pessoas estavam acostumadas com aquele ambiente. Isso implica na questão do olhar, no sentir-se abraçado e acolhido. Isso acontece. As poltronas, o pessoal pediu para gente não trocar e a gente manteve. E se um dia tivermos que trocar será por poltronas parecidas. A reforma melhorou o lugar, pudemos fazer aquele café. Antes era carpete, carpete no chão, no teto, em tudo que era lugar. Não dá para você fazer um café com carpete, precisávamos de um piso frio. A gente queria também clarear um pouco o ambiente. Tem gente que até hoje fala do cinema antigo, de fato, era muito acolhedor mesmo, um ambiente escuro.

E qual é a sua relação com o cinéfilo ?
Zakir -
Olha é uma relação muito boa de um lado, você conhece pessoas interessantíssimas e refletir cinema com esse pessoal é algo muito bom. Aliás, o conceito nosso da programação sempre foi esse. O cinema tem que ser um instrumento de prazer. Claro, não vamos tirar o sonho, o lúdico, o onírico. Você tem que preservar isso, mas sempre achamos que o cinema instrumentaliza; é uma ferramenta que leva a reflexão, a gente defende isso por uma característica até da nossa própria visão de mundo, da nossa formação e pela própria função do Sesc. Com tantos cinemas por ai, e bons cinemas, eu tenho que seguir uma linha de ação que é a linha do Sesc.

você falou do lado bom do contato com o cinéfilo, mas deve haver um outro lado também.
Zakir -
Eu diria que o lado difícil é o problema de estrutura, é muito difícil você ver uma fila enorme e não poder fazer muita coisa. Em alguns eventos, nas aberturas, você tem uma multidão, pessoas querendo entrar e não podem. Isso é muito difícil pra gente. Nós até pensamos que com o computador as coisas melhorariam, pois as pessoas poderiam comprar os ingressos com antecedência. Nossas cadeiras também foram numeradas pensando na eventualidade de vender ingressos numerados, mas se fizermos isso, vai ser o caos e a fila vai dobrar a esquina, imagine o cara escolhendo o lugar. A gente sofre muito com essa ausência de meio, por enquanto, de dar mais conforto para o usuário. Essa é sempre uma preocupação nossa. Outra dificuldade são as questões técnicas, isso é terrível. Quando a projeção, por algum motivo, não está boa, quando queima uma lâmpada, quando alguém vem reclamar que não está legal, isso ou aquilo. A gente tem que ter sempre muito cuidado com o som, com a projeção até porque os equipamentos são caros. Sabe quanto custa uma lâmpada? Quatro mil, cinco mil reais. Mas, o contato com o cinéfilo, sua pergunta foi mais nesse sentido, a não ser naqueles casos, há um ou outro sujeito que extrapolam um pouco, mas é uma exceção. O contato com o cinéfilo é sempre muito positivo pela diversidade, o cinéfilo é sempre uma pessoa muito interessante, tem muita informação, muita cultura para decupar, refletir sobre o filme, pensar nas diversas leituras sobre o filme. Tanto é que quando chega perto da Mostra todos nós ficamos animadíssimos. O contato com o cinéfilo é muito legal.

Zakir, o cinéfilo ama o Cinesesc, só tem elogios ao cinema, mas existe um problema no cinema que é o vazamento de som externo em dias de muita chuva ou quando um helicóptero sobrevoa a área. Por que isso ocorre?
Zakir -
Esse é um problema do cinema de rua quando não tem um prédio em cima. Nós fizemos um sistema muito sofisticado de vedação, moderníssimo, porque em cima do Cinesesc tem um madeirame. E na reforma, foi uma surpresa, vimos que esse madeirame era de primeiríssima. O que poderia ser feito, mas não ia resolver totalmente é uma laje. Mas, chegamos a conclusão na época - nos venderam a idéia - que um bom trabalho de vedação, resolveria o problema, que ficaria perfeito, mas não ficou perfeito. Então, quando chove, esse, aliás, é um aspecto terrível, porque quando chove a gente fica apreensivo. Uma vez, eu conto isso e ninguém acredita, eu estava sentada no cinema e ouço uns trovõezinhos. Quem estava lá dentro nem estava percebendo. Eu sabia que no filme tinha uma cena longa com chuva e eu já estava desesperado, torcendo para que a chuva chegasse na hora da chuva do filme. E veio, certinho. Coincidiu a chuva do filme com a chuva de fora, depois acabou a chuva do filme e a chuva de fora continuou um pouquinho mais, mas a turma não percebeu. Sabe que eu fiquei feliz rapaz. Mas nem sempre é assim. Teve uma vez, a gente estava lutando para terminar a reforma antes da Mostra. E tinha uma falha no projeto, botaram para absorver a água da chuva e jogar pro esgoto direto, canos espetaculares, quatro polegadas, só que botaram uns ralos em cima do cano que não eram da especificação deixada pelo engenheiro. Aí o que aconteceu? Reduziu pela metade, metade não, um terço a absorção da água. E como choveu muito, a água criou uma barriga no teto. A sala estava cheia, lotada, começou a cair uma cachoeira dentro do bar. Tivemos que suspender a sessão. Suspendi a sessão, as pessoas saíram, viram o problema, creditaram tudo isso a tempestade. Até saiu na imprensa no outro dia que o Cinesesc tinha sido mais uma vitima da tempestade. Tivemos que trabalhar 24 horas para arrumar o estrago, parecia uma guerra. Recuperamos o cinema em 24 horas. O Leon Cakoff e a Renata entraram aqui e não acreditaram, foi uma tristeza.

Vamos falar agora de coisas boas. Qual o filme que fez mais sucesso aqui no Cinesesc? Que filme ficou mais tempo em cartaz?
Zakir -
Nós tivemos sucessos incríveis aqui. Eu acredito que esteja entre “Asas do Desejo” e “Mahabarata”. “Arquitetura da Destruição” foi uma coisa espantosa, “No Coração da Montanha” do Herzog, “Fogo e Paixão”. Outro grande sucesso foi “Daunbailó” do Jamursch. “Daunbailó”, na época que veio, foi uma coisa e nós conseguimos uma cópia agora, questão de dois, três meses atrás e exibimos na sessão cineclube Cinesesc, teve até briga. Era uma sessão, mas tivemos que fazer quatro. Muito público.

E “Jules et Jim” ?
Zakir -
Ah! Esse é um capítulo à parte, teve a Mostra Truffaut e depois de um tempo trouxemos uma cópia restaurada do “Jules et Jim”. Os filmes restaurados são um capítulo à parte. Começamos isso com o André Sturm. Eu disse para ele que queria muito ver “Queimada”. Na época, ele me disse que o “Queimada” estava difícil. De fato, só conseguimos o “Queimada” muitos anos depois e foi um grande sucesso. O primeiro filme foi “O Leopardo” do Visconti estreou numa sexta-feira de carnaval. Outro clássico restaurado foi “Nós que nos amávamos tanto” do Scola, outro grande sucesso de público. Mas, “Jules et Jim” foi mesmo uma coisa de louco. Um sucesso espetacular, cerca de 15 mil pessoas e o filme foi exibido só aqui. O filme ficou acho que dois meses em cartaz, como é uma sala só a gente não fica muito tempo com o filme e o André depois roda esse filme pelo Brasil. Fomos pioneiros nessa história de passar filmes restaurados. O Adhemar e o Marcelo dizem que o primeiro foi o “Um dia um gato”, talvez até seja. Mas parou naquele, nós não, para nós virou algo sistemático. Teve também, “Bonequinha de luxo” que virou um cult. Mas desses, inegavelmente o maior sucesso foi “Jules et Jim”, o filme gerou muitas matérias na imprensa. Foram falar até com o Milton Nascimento porque o filme era emblemático para ele, mudou a vida dele. Passamos depois vários filmes do Truffaut que o pessoal do Estação restaurou, o Godard também. Essa fase dos filmes restaurados foi espetacular, a gente continua isso e agora temos os ciclos que ocorrem uma vez por mês na sessão cineclube. Outro sucesso esplendoroso foi o “La Doce Vita”. Outro foi o “Morte em Veneza”. Os últimos que passamos foi o “Teorema” e mais recentemente, o “Corações e Mentes”.

Zakir, o Cinesesc tem também uma participação ativa em outros eventos, caso da Mostra, Festival de Curtas, de documentários. Queria que você falasse um pouco sobre isso.
Zakir -
Essa é uma tradição do Cinesesc, a Mostra do Cakoff sempre esteve aqui, desde o seu nascimento. Acolhemos depois os Curtas, os Documentários, já tivemos aqui a Mostra de Cinema Judaico. Fazemos a Mostra dos Melhores do Ano, fazemos também a Retrospectiva do Cinema Brasileiro, essas são as regulares. Fora isso, existem mostras que nós criamos, caso da “Um só pecado” com diretores que fizeram um único filme; fizemos uma mostra Bressane com a curadoria do pessoal da Contracampo. Quanto às mostras são viáveis do ponto de vista de realização e financeiro, ou seja, quanto o custo não é muito elevado, aí vale a pena. Propuseram uma retrospectiva do Glauber para nós, mas ia custar R$ 400 mil, aí não dá. Esse é quase o orçamento do cinema o ano inteiro.

E o cinema hoje, você falou sobre o cinema engajado da década de 60 e 70, o que você espera do cinema hoje?
Zakir -
Olha, eu continuo vendo o cinema a partir de um ponto de vista geopolítico e com uma grande pitada existencial. Você pega um filme como “Whiski”, por exemplo, o filme, além de tratar de uma questão existencial, dá uma possibilidade muito grande de você refletir. Ele é um retrato da conjuntura do Uruguai, conjuntura política e econômica. Eu vejo cinema para conhecer essas realidades, essas circunstâncias e tudo isso de uma maneira poética. Tem outro filme que passou na última Mostra, chamado “Punto e Raia”, filme venezuelano, uma beleza. A Rosário também adora esse filme. Ele sai do enfoque particular e consegue ser universal. Trata da questão da fronteira e o mais importante, o ponto central do filme, é a perplexidade de dois rapazes, de origem totalmente diferente, frente a uma circunstância que é uma guerra de fronteira. Um é um vagabundo malandro e o outro vai lutar por amor à pátria. E ali você vê toda uma descrição muito bem feita, rica, sobre a questão das fronteiras e sobre como esses dois meninos se colocam frente a realidade envolvendo essa questão de fronteira entre Venezuela e Colômbia. E eu estou citando os sul-americanos e não poderia deixar de falar dos argentinos. Filmes maravilhosos. Os filmes argentinos, todos, refletem a conjuntura da Argentina hoje. O cinema nos traz isso e de uma maneira muito rápida. O cinema continua sendo, para mim, um estímulo à reflexão, ao pensamento, diferente do meu tempo quando era, sobretudo, um estímulo à participação política.

E o cinema brasileiro segue essa linha sul-americana que você citou?
Zakir -
Infelizmente, não. Mas parece que vem aí uma safra nova nessa direção. Espero ansiosamente que apareça um "Pântano" ou um "Los Muertos" ou até mesmo, um "Wiski" por aqui. Isto sem falar nos mexicanos "Batalha en el Cielo" e "Sangre" que, provavelmente, poderemos ver na próxima Mostra.

Qual filme que você programou aqui e que você teve medo da reação do público?
Zakir -
Teve um filme belga “Aconteceu perto da sua casa”, um filme violentíssimo. Quando estreou, eu ficava na porta vendo a reação do público. Umas velhinhas iam entrar para a sessão e eu fui conversar com elas, fui falar que o filme era violento, mas que era ficção, quase pedi para elas não assistirem o filme. Outro foi o “Rádio Auriverde”, mas esse porque era panfletário. A idéia era boa, mas o linguajar era irônico e uma ironia meia velha. Não era uma coisa ácida, crítica, mas uma ironia meio banal.

E qual o teu momento mais marcante aqui no Cinesesc? O momento que você ficou mais emocionado?
Zakir -
Foram tantos. Um momento marcante foi a exibição do “Gente da Sicília”, um filme espetacular. O livro também é sensacional. O “Gente da Sicília”, eu assisti sentado lá no bar com a Cristininha Amaral, montadora, de um lado e com o Eduardo Coutinho, do outro. Quando terminou o filme, olhei pro Eduardo Coutinho e vi que ele também estava muito emocionado. E olha a vivencia dele, ele conhece muito cinema. Mas, aquele filme é divino. O rigor dos Straub. O filme é tão profundo, vai ao íntimo do ser humano. A reação que aquele filme provocou em todos foi muito marcante. Uma coisa que me emociona é ver o público saindo emocionado, tocado com um filme e saber que a gente proporcionou isso. E isso acontece muito aqui. Fico muito contente quando vejo a garotada vendo os filmes que a gente programou, saindo e discutindo os filmes. Isso não tem preço. “Daunbailó” foi um pouco isso, foi um momento marcante. A estréia do “Leopardo” também, ainda mais por ter sido o primeiro restaurado. Outro momento marcante foi quando reencontrei o pessoal da minha época quando passava aqui o “Nós que nos amávamos tanto”. Eu assisti uma dez vezes, foi um reencontro maravilhoso.