Fonte: [+] [-]
 

Na semana de estreia de "As Melhores Coisas do Mundo", uma conversa com Laís Bodanzky.











Por Gabriel Carneiro

A cineasta Laís Bodanzky chega a seu terceiro longa-metragem, depois de fazer os bem sucedidos "Bicho de Sete Cabeças" (2001) e "Chega de Saudade" (2007). As Melhores Coisas do Mundo (estreia no dia próximo 16/04), baseado na série de livros "Mano - Cidadão Aprendiz", de Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto, é um belíssimo filme sobre o universo juvenil.

O longa-metragem conta a história de Mano (Francisco Miguez), um adolescente de classe média, que vê sua vida passar por turbulentas transformações. O filme está sendo lançado junto com um projeto educativo, coordenado pela Casa Redonda, propondo a reflexão sobre o lugar do jovem no país.

Laís Bodanzky conversou rapidamente com o Cinequanon no sábado dia 10/04, após uma sessão realizada para educadores, no Frei Caneca Unibanco Arteplex (São Paulo), e falou um pouco sobre As Melhores Coisas do Mundo.



Como surgiu o longa? Quais foram as dificuldades?

Recebi o convite para dirigi-lo há uns 3 anos. Estava fazendo o "Chega de Saudade", mas é que cinema demora mesmo. A dificuldade era em como a alma dos livros - que são sobre um garoto que está o tempo inteiro no cotidiano enfrentando desafios e se transformando com esses problemas que aparecem - em um filme, sem ser didático, porque aí não chega no objetivo final. E tem a questão de ser um filme voltado ao público adolescente - por que, se tem um público que não deixa passar nada, é o público adolescente. Para se inteirar desse universo, fomos falar com vários alunos de várias escolas particulares de São Paulo. Foi um ano e meio de pré-produção e pesquisa, e 8 semanas de filmagens. Há exatamente um ano atrás estávamos filmando.

Percebe-se no cinema brasileiro uma ausência do filme feito para o jovem, sobre ele. Por que ir para essa área, esse nicho?

É verdade. Não surgiu de uma forma tão mercadológica assim. Mas de fato não tinha. Eu nem tinha isso tão claro, e o adolescente vai muito ao cinema e é o que mais devora o audiovisual, e, de certa forma, não tinha o brasileiro retratado nesse espaço sagrado e glamourizado que é a tela de cinema. Um dos motivos também foi esse. Puxa, essa é uma questão tão importante, né? O jovem não se via na tela. Quando a gente conversava com os alunos, eles falavam isso: 'a gente vê os filmes americanos, se diverte, gosta e tal, mas se é para falar da gente, tem que ser de outra forma, somos completamente diferentes'.

Outro aspceto que se percebe é o retrato da classe média, outro fator ausente no cinema brasileiro.

O que eu acho que acontece com a classe média é que muita gente pensa que ela não tem problemas, que é tudo resolvido. Não é assim. Você pode parar qualquer pessoa na rua e vai descobrir que na vida dela está acontecendo algum drama, ou alguma questão. O preconceito também pode ser ao contrário. E aí, a gente não vai falar sobre a classe média porque, a princípio, eles não têm problema? Mentira. Somos seres humanos, com sentimentos, nossos dramas, importantes, porque isso afeta a sociedade como um todo.

Seu cinema varia bastante tematicamente. Seu filme anterior, "Chega de Saudade", aborda a terceira idade, e esse agora fala sobre o jovem. Como se dá essa transição?

Na verdade, o "Chega de Saudade" mostra uma velhice um pouco peculiar, meio diferente, porque na verdade são pessoas que envelheceram mas estão tentando manter uma chama viva, um desejo de estar vivo. Uma pessoa que vai ao salão de baile, com uma idade mais avançada, é porque está disposta a sair para o jogo. Pode dar certo como pode dar errado também, que eu acho que é o espírito do adolescente. Ele quer viver tudo intensamente. Por mais que aparente serem temas distantes, não são. Já para fazer o "Chega de Saudade" eu mergulhei bastante na adolescência (risos).

A cena da piscina é bem bonita, mas não é ligada intimamente à narrativa. Por que ela existe?

Estava preocupada se essa cena ia dar certo ou não. Mas é uma cena puramente poética mesmo, simbólica. Esse filme conta a história de dois irmãos, que estão um do lado do outro, para o que der e vier, um ajudando o outro na estrada da vida. Ali é um útero mesmo, aqueles dois meninos se ajudando, e buscando um ar. É um pouco explícito, mas é isso. Cinema também pode ser isso.

Você vê algum paralelo entre seu filme e "Os Famosos e os Duendes da Morte", do Esmir Filho?

Eu não vi ainda, mas eu acho que tem. Pelo tudo que ouvi dos "Duendes", ele fala dos adolescentes com muito respeito e é muito atual. Algum paralelo existe sim.

Como que funciona o processo educativo de reflexão do filme?

Eu acho que é da natureza do cinema ser provocador. Quando ele vem, de uma forma irreverente, e estampa uma nova realidade, uma maneira de ver o mundo, ele tem esse poder de provocar reflexões nas pessoas. O lugar ideal para a reflexão acontecer é a escola e dentro de casa, que é justamente onde temos a oportunidade de avançarmos nessas reflexões. Claro que na mesa do bar, com os amigos, também vale. Fizemos esse filme pensando em dar espaço para que ele avançasse na casa das pessoas, com os pais, com os filhos, e que também avançasse no território da escola. Como um provocador de reflexões e de temas para se debater, não como uma verdade absoluta, de forma alguma.


Gabriel Carneiro é jornalista e colaborador do Cinequanon. Edita, também, a revista da internet, "Zingu!".