Fonte: [+] [-]

"Exílios" e "Bombón, el perro": dois novos olhares sobre os filmes de estrada

















Ana Karla Rodrigues

A estrada pode ser tanto um espaço de fuga quanto de transformações, sejam elas pessoais ou coletivas, esse espaço físico cruzado num carro, caminhão, no lombo de um camelo ou mesmo a pé. A definição clássica do filme de estrada - mais conhecido como road movie, originado do western – gênero em que as diligências deram lugar a carros ou motos possantes, hoje toma dimensões mais elásticas, poéticas, e, por que não dizer, libertárias, seja do ponto de vista da forma ou do conteúdo. Dois filmes recentemente exibidos no Brasil mostram novos caminhos para gênero: o sublime Bombón, el Perro, do argentino Carlos Sorín, e o pulsante Exílios, do franco-argelino Tony Gatlif.

Como nos trabalhos de ficção de seus antecessores Fernando Solanas e Fernando Birri, grandes criadores do cinema do Rio de la Plata, Sorín teve no neo-realismo italiano uma das suas fontes de inspiração ao construir a história de Juan "Coco" Villegas. Ele é um ex-frentista que se vê aos 52 anos sem trabalho e perspectivas, morando na casa da filha e vivendo da esparsa venda de facas com cabos artesanais e da prestação de serviços mecânicos ao longo das estradas que cruzam a inóspita província de Santa Cruz . Seu sentimento de inadequação e vazio tem tintas próximas às do protagonista de Umberto D, de Vittorio de Sica.

O protagonista Coco é representado por ele mesmo: fiel à tradição da escola realista, metade do elenco do filme é formado por não-atores, como em Histórias Mínimas, película anterior do mesmo diretor. Sua interpretação é minimalista, quase natural. Os ecos neo-realistas também estão no uso de locações que valorizam a singular paisagem patagônica, com seus skylines limpos delineando montanhas e vulcões. Os longos planos-seqüência e o uso da luz natural a seu limite máximo também são recursos dos mais explorados por Sorín.

No filme, o destino de Coco muda quando ele ajuda uma jovem, cujo carro quebra no meio de uma das rutas que o ex-frentista atravessa todos os dias. Ele reboca seu carro até o sítio onde a moça vive com a mãe, além de consertar o pequeno defeito que causara a pane. Falidas, as mulheres não têm como pagar pelos serviços. Como forma de agradecimento, lhe dão um cão de valor inestimável: um dogue argentino, que seria o primeiro de um canil nunca foi formado, com os devidos documentos comprobatórios de sua origem nobre. O homem leva o animal – bonachão, com feições muito parecidas às suas, uma espécie de seu "duplo" canino – para a casa da filha, que não permite sua permanência lá. Sem escolha, parte em sua camionete pelas rodovias do interior argentino, ao lado de Bombón.

A partir daí o cachorro promove uma revolução na desesperançada vida de Villegas. Le Chien (na verdade, o nome do cão é Bombón, mas o novo dono só descobrirá isso bem mais tarde) é logo identificado como um potencial campeão de exposições, uma fonte de renda inusitada e ao mesmo tempo, uma companhia para o homem solitário. Perdido, sem nenhuma familiaridade com o tema, o ex-frentista cruza as estradas em companhia do novo amigo, em busca de Walter Donado, treinador de cães, indicado por um gerente de banco a quem o animal chama a atenção. Donado logo se torna seu sócio e Bombón ganha sua primeira exposição.

A auto-estima de Villegas, que passa a se identificar como "criador de cães de raça" nunca esteve tão alta. Durante a viagem para a exposição vencida pelo mastim, Coco se interessa por uma cantora, que lhe retribui as gentilezas. Munido da chancela de dono de um cão campeão, ele recupera seu interesse pelo amor e pela sexualidade. O cão devolve ao homem sua gana de viver.

Em contraponto, Bombón é "contratado" para cruzar com uma fêmea de mesma raça, mas não consegue levar o feito a cabo. Diagnóstico do veterinário: falta de libido. Humilhado pelo dono da cadela, Bombón é levado por Walter para ser treinado e, quiçá, recuperado. A boa fase na vida de Coco parece chegar ao fim. O homem "do povo" e o cão "da nobreza" partilham da mesma desgraça: ambos são excluídos, marginalizados, por duas formas diferentes de impotência.

De volta à estrada, o ex-frentista retoma seus serviços de mecânico e a venda das facas, vagando sem rumo. Aqui a "ruta" reitera seu papel de agente transformador na diegese: é ela quem proporciona as mudanças na narrativa, oferecendo a Coco novas situações e possibilidades, refletidas na vastidão da paisagem argentina, situação que é uma das marcas mais recorrentes do gênero road movie. A novidade aqui é que Sorín consegue extrair da relação protagonista-paisagem um sentido de dependência sutil e de respeito que destoam do que comumente vemos no cinema hollywoodiano.

Essa sutileza se perde um pouco numa das seqüências finais, em que Coco sai em busca do cão e o encontra em pleno ato sexual com uma cadela vira-lata, em meio a um depósito de tijolos. A câmera em travelling acompanha a procura do protagonista, culminando no flagra explícito, plasticamente incômodo, ainda que necessário ao tour de force do protagonista. Afastando o fantasma da impotência diagnosticada pelo veterinário, Bombón recupera sua hombridade e dignidade, feito igualmente proporcionado ao homem, que termina o filme novamente na camionete, atravessando Santa Cruz com o cão a seu lado.

Para Coco o cão fora não apenas um novo laço afetivo, mas principalmente um instrumento de inclusão social, um passaporte para uma forma de vida mais digna, o que não é novidade no cinema. Mas a forma com que Carlos Sorín tece essa trajetória revela-se leve e sem grandes pretensões, e, por conseguinte, extremante louvável.


Música e identidade

Se em Bombón el Perro a estrada age como um espaço de mudanças individuais, em Exílios dois jovens franceses de origem argelina buscam fragmentos que lhes permitam construir sua identidade, e, ao mesmo tempo, traçar um perfil de uma nação a qual eles, indiretamente, pertencem. Ele, Zano (Romain Duris), músico cujo avô foi um dos franceses enviados para a colonização da Argélia, quer recuperar as recordações de família. Ela, Naïma (Lubna Azabal), filha de imigrantes argelinos que privaram-na do contato com sua cultura, quer buscar suas raízes.

Além da paixão que os une, ambos trazem uma relação íntima e visceral com a música, aspecto que Gatlif, também músico e produtor musical, explora com a sensibilidade de quem compartilha com seus personagens a origem (argelino, migrou para a França na infância) e o prazer sensorial. São dele grande parte das músicas que compõe a trilha do filme, composta por uma mistura de ritmos árabes (como o marroquino e já popular raï) , flamencos e latinos, com pitadas entusiasmadas de drum´n bass. O diretor destacou um tema para cada trecho da viagem, o que dá uma cadência leve e bela à narrativa.

A música também é a metáfora para a vida dos personagens. A cena em que Zano empareda seu violino antes de partir para a Argélia é uma das mais singificativas. Sabe-se, adiante, que após a morte brutal dos pais durante a batalha de Argel ele nunca mais conseguiu tocar o instrumento. A ida para a pátria paterna representa para ele, também, a recuperação de dons perdidos.

O filme começa com um close-up das costas de Zano. A câmera vai se abrindo e mostrando o resto de seu corpo e a paisagem que ele observa de sua janela, enquanto ouve-se uma música que mescla ritmos orientais e um discurso político, que em princípio causa uma certa estranheza, pela dificuldade em perceber se é ou não elemento interdiegético. No contraplano vemos Naïma na cama, nua, comendo uma lata de leite condensado, antecipando um dos climas mais constantes durante o restante do filme. Essa primeira cena é o que vê-se sobre o cotidiano do casal, em sua Paris natal, mas na qual ainda se sentem estrangeiros.

Esse sentimento os move para essa pecualiar jornada. O casal parte a pé com pouco dinheiro e bagagem, atravessando a França e a Espanha. Durante o primeiro trecho da viagem, contam com a solidariedade de um casal de irmãos argelinos, que inclusive lhes ensinam algumas palavras em sua língua materna e lhes dão contatos em Argel.

Ao chegar à Sevilha, capital do flamenco, deixam-se seduzir pelo ritmo e sensualidade da dança e do cante hondo (o sofrido canto dos cantaores andaluzos), durante um espetáculo numa típica cuadra. Tal atmosfera envolve a sensual Naïma, que se deixa conquistar pelo dono do lugar, com que passa a noite. Ela e Zano têm seu primeiro (e único) desentendimento da viagem, logo superado. Seguem juntos numa seqüência sinestésica de sabores, odores, toques e sons. A cena em que o casal rouba e saboreia as frutas que deveriam colher enquanto trabalhadores clandestinos de uma fazenda é apenas uma das muitas em que o filme afirma sua vocação de elegia da descoberta do bom da vida.

Durante a viagem, os caminhos do casal se cruzam várias vezes com a de argelinos e marroquinos que imigraram ilegalmente para a Europa, numa busca contrária à sua. Essa disparidade de objetivos é bem ilustrada na cena em que, ao chegar a Argel, o casal caminha contra a multidão que abandona a cidade. Fica clara ali a diferença entre os que vão e os que chegam: os primeiros não têm escolha, enquanto os segundos gozam do benefício da aventura. O drama da ilegalidade é mostrado mais claramente na Espanha, onde fruticultores contratam africanos para trabalhar em suas plantações, num tipo de vida que beira a escravidão, existência que o casal compartilha por alguns dias.

Exílios se distancia do padrão tradicional de filmes de estrada por alguns motivos, como a ausência de um veículo definido (durante o trajeto o casal caminha e viaja a pé e clandestinamente num trem, num navio e num caminhão) e a falta de uma estrada fisicamente definida, mas se aproxima em outros. A estrutura do casal em fuga, consagrada em Bonnie and Clyde (Arthur Penn), saturada em Natural Born Killers (Oliver Stone), e aperfeiçoada em Profundo Carmesí (Arturo Ripstein) está ali. Naïma e Zano, como uma espécie de Bonnie e Clyde contemporâneos, mediterrâneos e hedonistas, embarcam numa viagem de descobertas e sensações, nem sempre boas, pouco constantes, mas intensas. A fuga que empreendem é interior: enquanto tantos "de seus iguais" fogem da crueza da vida miserável num país africano, o casal foge de seu vazio cultural e de seus próprios fantasmas.



Ana Karla Rodrigues é jornalista formada pela UNESP e mestranda em Multimeios pela UNICAMP onde estuda os filmes de estrada, road movies, latino americanos.