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ARQUIVOS EM PROCESSO: FILME, FOTOGRAFIA E MEMÓRIA (ensaio)









Patrícia Francisco

ARQUIVOS EM PROCESSO: FILME, FOTOGRAFIA E MEMÓRIA (ensaio)


PATRÍCIA FRANCISCO

Resumo: Tenho como proposta uma reflexão sobre o processo de realização de um documentário, a partir de minhas reflexões como realizadora. A memória aparece na proposição de uma forma documental. Parto de conceitos literários sobre a memória subsidiada com referências fotográficas na invenção do conteúdo do documentário Eu, trilho. Assim, entre filme e texto, tenho como propósito uma reflexão na apresentação de conceitos e histórias da fotografia e do cinema.

Palavras-chave: memória, filme documentário, fotografia, identidade


Reuni arquivos de imagens fotográficas e um filme 8mm para contar a história de vida de minha avó Ana com outras pessoas, através da realização de um filme documentário (1) em vídeo. Essas pessoas foram encontradas ao acaso em estações e vagões de trem, e desses encontros, escolhi três mulheres cuja trajetória de vida tem pontos em comum com a vida de minha avó. Recolho documentos e depoimentos associados ao meu imaginário, que ora relata trechos da vida de minha avó, ora os recria. O documentário é o documento dessa memória. O título é Eu, trilho (Patrícia Francisco, 2008).

Memória e Esquecimento

A memória se constitui em situações que ficaram gravadas com um sentido ou significado. Nunca guardei uma situação inteira, porém um detalhe, algo que ficou marcado por algum motivo de uma situação vivida. Não há um controle do que eu vou recordar no sentido do encontro com esse referencial que possa suscitar a minha memória. “Um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo o que veio antes de depois” (BENJAMIN, 1987, p.37).

Os conceitos de memória involuntária e voluntária de Marcel Proust têm relações com essa memória que estou construindo e que pode estar constituída, ao mesmo tempo, da memória voluntária e involuntária de Proust. Podemos dizer que a memória voluntária, racional, é a pura fotografia, o retrato, e a memória involuntária é a infância, o afeto. Como define o próprio Proust (2006, p. 511), para mim, a memória voluntária, que é sobretudo uma memória da inteligência e dos olhos, não nos dá, do passado, mais do que faces sem realidade; mas se um cheiro, um sabor encontrados em algumas circunstâncias totalmente diferentes, despertam em nós, à nossa revelia, o passado, passamos a sentir o quanto este passado era diferente daquilo que acreditávamos lembrar, e que nossa memória voluntária pintava, como os maus pintores, com cores sem realidade .

Marcel Proust, em sua obra literária Em busca do tempo perdido, construiu uma relação entre o personagem e sua avó. O personagem narrador da história “escuta a voz de sua avó, ou o que supõe ser sua voz, já que a escuta agora pela primeira vez, em toda sua pureza e realidade” (BECKET, 2003, p. 26). Eu tento construir minha memória dos fatos vividos por minha avó. Os fatos que eu lembro e que sua filha, minha mãe, me ajuda a recordar. Ponho-me a escutar e contar a história de minha avó. E o meu “olho funciona com a precisão cruel de uma câmera e fotografa a realidade” (BECKET, 2003, p. 27), com recordações e observações que foram sendo anotadas, à medida que a memória fluiu e me mostrou os possíveis caminhos.

Walter Benjamin em seu ensaio A imagem de Proust indaga-se “a memória involuntária, de Proust, não está mais próxima do esquecimento que daquilo que em geral chamamos de reminiscência?” Ele analisa a obra de Proust, sua escrita, como um infindável tecer de ideias que se condensa numa “síntese impossível” de uma “obra autobiográfica”. Em meio a suas argumentações percebemos uma aproximação entre as ideias do escritor e do filósofo, ao ponto que, verificamos uma diferença, quando se trata da memória involuntária, das ressureições da memória.

Essas ‘ressurreições da memória’, como Proust as define, referem-se, em sua obra, ao passado individual e dependem de um acaso providencial, como aquele da Madeleine (...). Para Benjamin, essas ressurreições aludem ao passado coletivo da humanidade e não podem depender do acaso, mas devem ser produzidas pelo trabalho do historiador materialista (GAGNEBIN, 1982, p. 71 e 72).

No ensaio sobre a memória e a fotografia, Philippe Dubois (2003. p. 314) inicia o texto com uma síntese: “Em suma, é essa obsessão que faz de qualquer foto o equivalente visual exato da lembrança. Uma foto é sempre uma imagem mental. Ou, em outras palavras, nossa memória só é feita de fotografias”. Ele associa as imagens fotográficas, por estarem formuladas na mente do fotógrafo, ou seja, uma supostamente já arquivada, à capacidade de armazenamento da memória. É interessante lembrar que o cineasta Robert Bresson (2005, p. 66) associa à ideia dessa imagem mental a ideia de que o som forma imagens mentais, “o apito de uma locomotiva imprime em nós a visão de toda uma estação de trem”.

Registros e histórias

Dentro de uma imensidão de fotos de família que observo, tenho uma coleção de múltiplas imagens de minha avó Ana. Fui selecionando algumas imagens em que houvessem a presença dela em diversos momentos de nossa vida, mas não só isso - que a contivessem, também em vários momentos de sua vida. Escolhi fotografias que resgatam momentos no meio social que ela vivia.

Construo uma história com atividades de produção de uma época, com pessoas que trabalharam na roça, pois minha avó também trabalhou na roça. Quando entrevisto pessoas que exercem ou exerceram essa atividade, é como se restaurasse essa parte da vida dela em minha memória, como se ativasse, com esses depoimentos e imagens, pontos acessíveis a essa memória familiar e as reativasse, relacionando umas com as outras. Imagens de outras pessoas, mas que se assemelham, ou pela ordem do trabalho, quer pela dinâmica familiar, à experiência de vida dela.

O trabalho profissional de minha avó sempre foi um fato marcante, porque estamos falando do início do século vinte, tempo em que não era unanimidade mulheres trabalharem fora de casa. E por esse motivo, tenho em minha memória a constatação de uma mulher corajosa. Como esse projeto não teve uma pesquisa de personagens, o contato com as pessoas entrevistadas foi à primeira vista. O local escolhido, estações e vagões de trem em Porto Alegre e São Paulo, foi pensado segundo um dispositivo: minha avó atravessava a linha férrea e, às vezes, esperava o trem passar para voltar do trabalho para casa.

Eu capturo e converso sobre a vida de várias pessoas. Vidas representadas em depoimentos que revelam um cotidiano contado a partir de memórias reconstruídas em frente à câmera. Eduardo Coutinho, documentarista, em entrevista concedida a autora, fala que filma relação da equipe com a pessoa. “A filmagem exige da pessoa que ela se invente, que ela pense na vida dela”.

O documentarista define que memória é memória e esquecimento. E tem a mentira que é uma parte que a gente esqueceu e inventa. Para Coutinho, a atitude de uma pessoa perante a câmera é semelhante a uma autobiografia, no qual você escolhe alguns momentos de sua vida e tenta organizá-los durante sua fala. “Autobiografia é a coisa mais mentirosa que tem, não mentirosa no sentido de ser mentira, você faz uma seleção, um arranjo. Quando você fala para a câmera, você tenta dar sentido a sua vida (...) autobiografia dá um arranjo para parecer lógico, mas a vida não é lógica”.

Quando estamos representando para a câmera, construímos várias personagens. Ao ativar nossa memória em frente a ela, acabamos por preencher lacunas que supram os nossos esquecimentos. “Se tudo se inscreve na memória psíquica e ali permanece gravado intacto, nem tudo volta. O recalcamento é originário, e sempre haverá restos perdidos, parcelas inacessíveis à consciência” (DUBOIS, 2003, p. 325). Por isso

Cabe chamar a atenção para o fato de que a memória trai. Pesqusisas sobre memórias e esquecimento indicam que cada vez que uma lembrabça é trazida à consciência, torna-se instável e modifica. O processo ocorre porque ao recordar, tiramos a imagem do seu recanto e a manipulamos, agregando a ela as emoções e os pensamentos do momento. Ou seja, nosso cérebro mistura lembranças e até incorpora falsas memórias (PINTO, Revista Teorema, p. 12-13).

Escrita incessante, reunir fotografias e memória, operando em sequências que eu criei, não sei se são as sequências verdadeiras ou cronológicas, mas essa ordenação vem da busca por construir uma memória baseada em alguns fatos reais que deixaram um rastro, um índice daquilo que aconteceu. Assim, “há alguns anos, todo o discurso teórico sobre a fotografia não cessou de repetir, sob todas as espécies de formulações, que ‘a fotografia’ é o traço”. (a impressão luminosa, num determinado momento do tempo, de um objeto situado à distância” (DUBOIS, 2003, p. 247).

Eu, trilho tenta resgatar minha memória sobre minha avó, em um processo mediado por lembranças e esquecimentos, que são os depoimentos, no resgate de um filme e de fotografias, que estavam arquivados. Assim a proposta audiovisual desse documentário se constrói.

As invenções, tanto da fotografia como do cinema, vão formando as imagens do desejo de recordar, são pequenas manchas escuras, luz e sombra, preto e branco. Imagens esmaecidas, quase apagadas, mas que instigam por seu apagamento. A aparente deterioração da película, nas imagens de Lumière com movimentos mínimos, porém projetados com movimentos ligeiramente mais rápidos.

O cinema (2) nasce assim, aos poucos, nas mãos de dois fotógrafos preocupados em desenvolver tecnologias para capturar e projetar imagens. A fotografia (3) nasce da imagem produzida num daguerreótipo, primeiras impressões e registros da realidade, tanto do Daguerre (4) , como de Niépce (5) e Talbot, mais tarde, Nadar, até chegar na família Lumière (6) . Todos esses registros fotográficos são memórias do nascimento das imagens. Essas imagens vem carregadas de um caráter histórico e de memória ao mesmo tempo.

Os daguerreótipos eram placas de prata iodadas, postas sob a ação da luz na camera obscura: elas tinham de ser submetidas a uma série de acertos até que, sob iluminação correta, se pudesse reconhecer sobre elas uma imagem levemente acinzentada (BENJAMIN, 1994, p. 221).

Havia um certo desenvolvimento de uma série de pesquisas sobre a imagem, durante o século XIX, que culminaram no cinema. E são recorrentes em nossa memória histórica vários, podemos dizer, pesquisadores que se empenharam em desenvolver técnicas e objetos que permitissem a reprodução da nossa imagem em movimento, projetada, ou da nossa imagem fixa em uma superfície.

Os panoramas, os estudos do movimento, a fotografia, o espetáculo de feira (ou as atrações de feira) e o cinema, em resumo, foram os principais caminhos percorridos para os desdobramentos do estudo da imagem.

O panorama, na verdade, é bem mais importante na história de seu próprio dispositivo. ‘Panorama’, asseguram-nos, vem de duas raízes gregas que significam onividência; trata-se, é claro, de abraçar com o olhar uma vasta zona. (...) O panorama, gênero realista, exigente, praticamente implacável, requeria uma grande ciência dos efeitos de realidade: saber reproduzir as luzes, os reflexos, as carnes, os gestos. (...) O panorama já é espetáculo e quase cinema – sem considerar o movimento (AUMONT, 2004, p. 55 e 57).

O cinema era apresentado em feiras ou em parques de diversões, tinha uma conotação de espetáculo diferente do que é o cinema hoje. Era consumido como atração e não como documento. Os irmãos Louis e Auguste Lumière primeiramente estavam centrados na técnica fotográfica, depois é que vão a busca de uma máquina que geraria o movimento da imagem. Então, os irmãos Lumière estavam preocupados com o desenvolvimento científico. Por isso a célebre frase “o cinema é uma invenção sem futuro” se justifica, porque, a princípio, o problema já estava resolvido para eles, uma máquina foi inventada e a imagem já poderia ser vista em movimento.

Assim, a situação da cidade crescendo rapidamente, a chegada das estradas de ferro e o trem (7), o ápice do desenrolar das pesquisas sobre a imagem com a chegada do cinema começaram a se imbricar, se sobrepor e se relacionar. Essas três situações foram se desenvolvendo e uma foi subsidiando a outra. A cidade que dá o movimento do cinema, o cinema que mostra a vista da janela do trem, o trem que, por sua vez, parece materializar conceitualmente aquilo que o cinema é: uma máquina do tempo.

Olho móvel, corpo imóvel: está tudo aí, e é por aí que o trem substitui o espectador ‘ecológico’ da pintura de paisagem, o simples andarilho que descobre o mundo que rodeia (...), mas, ao mesmo tempo, dotado de ubiquidade e de onividência, que é o espectador de cinema (AUMONT, 2004, p. 54).

Com essa contextualização histórica, constato uma espécie de adoração pela primeira imagem, um desejo de ver uma imagem gravada ou impressa, é “o tema do conhecimento pelas aparências, que é o tema do século XIX, e o do cinema” (AUMONT, 2004, p. 51).

No caso dos irmãos Lumière, por exemplo, em “Saída da fábrica” (Lumiére, 1895), é filmada a saída dos operários de suas fábricas. Abrem-se as portas e muitas pessoas saem. É um movimento de inúmeras pessoas caminhando em diversas direções e é essa a imagem que temos e nos basta. É apenas a presença do movimento. “A vista Lumière é, assim, literalmente, o que se vê a partir desse ponto, o que mostra de visível o ponto escolhido, o exercício da visão (do olhar) a partir desse ponto” (AUMONT, 2004, p.42)

Os Lumière produziam filmes com duração de cerca de trinta segundos até aproximadamente um minuto, não passava muito além desse tempo. Então, existia basicamente um enquadramento, ligava-se a câmera e registrava-se o simples movimento de pessoas e/ ou coisas que passavam em frente à câmera. O filme Um olhar a cada dia (Theo Angelopoulos, 1995), trata da questão da primeira imagem, ou seja, do primeiro registro filmado na Grécia, quando o personagem vai em busca do primeiro filme feito pelos irmãos pioneiros do cinema grego, os irmãos Manakis, uma analogia aos primeiros filmes de Louis e Auguste Lumière. O filme dos irmãos Manakis é encontrado e exibido no final do filme. Vemos uma pequena fração de segundos da projeção e o cineasta conduz o espectador a ver o personagem sentado numa sala de cinema vazia, assistindo a projeção emocionado.

O filme Santiago (João Moreira Salles, 2007), trata da história do mordomo da residência de seus pais. O filme é pautado pelas memórias do personagem Santiago. Ao mesmo tempo em que estamos diante de uma realidade, vão sendo exibidas as fantasias, os sonhos íntimos, as realizações guardadas em segredo, como as inúmeras páginas de romances escritos por ele. Justamente por suas ligações com o diretor João Salles, pois Santiago era o mordomo da casa da família Salles (como já foi mencionado), o personagem conhecia o diretor há muitos anos e vice-versa e durante o filme percebemos, em algumas falas dos dois, essa intimidade.

Assim, o filme mostra um retrato de uma realidade singela e delicada, esteticamente fotografada com uma composição de imagem que nos mostra “todo” o universo do personagem. São panelas, geladeira, partes de estantes e Santiago distante, em algum ponto da composição do quadro, “perdido” em meio aos seus objetos pessoais.

O espectador tem diante de si fantasias alheias e o que lhes cabe julgar são os procedimentos do metteur en scène. Descortinar suas contradições, seus artifícios, sua engenhosidade, pode dar mais prazer do que se envolver com a memória de personagens reais (PINTO, Revista Teorema, p.13).

Em Lumière, o filme é o registro; no filme de Angelopoulos estamos atrás do registro; já em Salles, o registro está dentro do filme.

Afora os “registros” dos cineastas já citados há uma memória peculiar em um filme de Jean-Luc Godard. Nesse filme, uma profunda questão se faz presente: “como a memória pode nos ajudar a reencontrar nossas vidas?” (GUIMARÃES, Revista Cinemais, 2004. p.83) O filme intitulado Elogio ao Amor (Jean-Luc Godard, 2001) trata de uma associação de diversos temas (história, política, poesia e amor) por intermédio da história de três casais que nos é mostrada por uma ordem narrativa descontínua, “através de gestos ora ensaísticos, ora líricos, realizados de maneira dispersiva e fragmentária, distribuídos entre as vozes que se desgarram do enredo e se transformam em atos de fala autônomos” (GUIMARÃES, Revista Cinemais, 2004. p. 82).

Esses procedimentos antigos de registro de imagem, de captura de algo que podemos apreender e guardar são as operações que me interessam. Roubamos imagens do nosso real. “Assim a câmera obscura propõe uma dimensão de recursividade à realidade, que está completamente fora do alcance da fotografia corrente: um objeto da vida cotidiana pode olhar para outro” (DIETRICH, p.64). Ou seja, qualquer coisa pode se transformar em uma câmera e capturar imagens.

A ideia da imagem de Daguerre, de que cada imagem é uma imagem única é relacionada a ideia dos retratos que guardo de minha avó, sem negativos, não posso mais fazer uma reprodução analógica, o negativo não existe mais. O maior desafio é essa imagem única perdurar, “reviver o princípio da câmera de daguerreótipo: cada cópia é um objeto único” (SONTAG, 204, p. 142).

Essas antigas placas formadoras de imagens únicas que impulsionaram e deram início ao registro de imagens, antes, possível de ver nas câmeras escuras, mas não de tocar. “No instante em que Daguerre conseguiu fixar as imagens da câmera obscura, neste momento, os pintores haviam sido despedidos pelo técnico” (BENJAMIN, 1987, p. 224). A partir de 1839, é possível ter uma imagem impressa e podemos vê-la várias vezes, enriquecendo nosso repertório imagético. Temos as pinturas, as gravuras e temos a fotografia.

Walter Benjamin (1987, p. 223) cita o fotógrafo Karl Dauthendey numa interessante observação sobre as imagens produzidas no daguerreótipo, comentário que parece perdurar ainda nas minhas contemplações de imagens de minha avó. Vejo as fotografias assim, como

No começo, não se ousava olhar as primeiras imagens que ela produzia. Ficava-se intimidado pela nitidez dos seres humanos e se acreditava que esses pequenos, esses diminutos rostos das pessoas fixados na placa eram capazes de olhar para nós mesmos, tão espantosa era para todos a extraordinária nitidez e fidelidade dos primeiros daguerreótipos.

As pessoas fotografadas naquele momento ficavam expostas a um longo período. A pose que hoje observamos foi vivida por um momento mais extenso do que o que vivenciamos hoje ao ser fotografados, exercendo “sobre o espectador uma impressão mais penetrante e mais duradoura do que fotografias mais recentes (...) é que as primeiras fotografias, tão belas e tão intangíveis, brotam da obscuridade dos dias de nossos avós” (ORLIK apud BENJAMIN, 1987, p. 223 e 240).

Transformo um parente em personagem. Segundo Ivonete Pinto não há “nenhuma objeção a diretores que buscam na própria vida o tema de seus filmes” (ORLIK apud BENJAMIN, 1987, p. 223 e 240), e eu faço essa busca.

“O lituano Jonas Mekas passou 50 anos rodando ‘diários’ da sua rotina, onde no lugar do narcisismo prevalece o contexto do universo dos imigrantes nos Estados Unidos. Kiko Goifman, em 33 (2003), tentando encontrar a mãe biológica, tem momentos de iluminação para além do próprio umbigo. Jonathan Caouette em Tarnation (2004) é visceral e redefine vários conceitos em torno do documentário autobiográfico (ou autofágico)” ( PINTO, Revista Teorema, p.14).

Nas minhas memórias, as imagens do trabalho feminino, são as mais fortes e recorrentes, como o trabalho de uma mulher no início do século XX e sua persistência de se desenvolver profissionalmente para sustentar sua família, da roça para a fábrica, da fábrica para a sua pequena empresa comercial, uma loja de calçados, e dela para sua costura, por fim, minha avó se tornou costureira.

Criamos pontos de aproximação de fragmentos de sua trajetória na sua vida profissional e afetiva. Com retalhos de tecidos, pequenos ou grandes pedaços de tecidos, ela costura pequenas trilhas que formam quadrados, várias linhas construídas em unidades, cores justapostas a outras cores vão formando vários quadrados. Ao finalizar essa etapa do trabalho, ela costura novamente um quadro ao lado do outro, para formar um quadrado ainda maior que formava uma colcha. Nessa colcha, dezenas de quadrados multicoloridos formam uma rede de possibilidades efetivadas no pensamento de Ana e dos observadores da colcha, que tentam reconstruir seu pensamento ao observar o produto feito por suas mãos com o auxílio da máquina de costura.

O que ficou, o que está na memória é esse momento da costura. O som da máquina de costura, uma máquina antiga, preta, com sua base de madeira e, abaixo, um grande pedal. Uma pequena almofada cravada de alfinetes e agulhas, sacos de retalhos guardados em um armário com portas de vidro esverdeada. É isso que a minha memória traz à tona. O resto são fotografias. Imagens que eu tento justapor e montar, os momentos esvaziados de esquecimento e lembranças.

Morte nas imagens .

A fotografia é presença e ausência ao mesmo tempo. Você olha para uma foto e fala: o passado está aqui, nas minhas mãos ou na minha caixa, no meu álbum ou no meu porta-retrato. E é apenas isso que ela pode nos dar, a fixação e a distância de um passado registrado, a presentificação da morte.

“Não há quem tenha se dedicado ao estudo da fotografia sem mencionar, mais ou menos enfaticamente, seu poder mortífero, sem notar sua afinidade com a morte. De fato, ambas estão ligadas de vários modos” (SANTAELLA, 2005, p. 133). A recusa e a aceitação do luto também são experiências que passam pelos fotografados e pelo fotógrafo. Não existe fotografia que não fale da morte, segundo Roland Barthes. “O Fotógrafo sabe isso muito bem e ele próprio receia (...) essa morte na qual o seu gesto me vai embalsamar” (BARTHES, 2006, p. 22). A partir do momento que interrompemos o curso do tempo, paralisando dada situação fotografada, “congelamos” aquele momento e a presença da imagem fotográfica se fortifica, representando a morte.

A morte da fotografia é uma espécie de especulação do cotidiano, de coisas, pessoas, que passaram por nós. Um segundo atrás, fotografo, e não é mais presente. Está morto. A morte é assim, fugaz, ligeiramente grava suas impressões. O que está representado está morto, aquele momento não existe mais.

Contemplamos algo pacato, uma imagem imóvel, ao mesmo tempo, uma espécie de devaneio vem à mente, porque a fisicalidade da foto não nos deixa devanear por completo. A morte traz um pouco essa situação de que algo muito importante deixou de existir para sempre.

Para mim, a fotografia tem em seu conceito a idéia da morte. É o principal mote da fotografia. Conceitualmente a fotografia é a morte. Então, quando pensamos no gesto fotográfico, na imagem-ato como conceitua Dubois, posso afirmar que essa ação é o disparador para matar a presença humana ou qualquer situação fotografada.

Para os autores que mencionei e apóio os meus argumentos sobre a conceituação da fotografia, reafirmo que na fotografia há uma ligação entre o passado e o presente. A ideia da morte está presente no referente, naquilo que foi registrado. A fotografia é indicial e a noção aurática instaurada por Benjamin vem somar à ideia de morte proposta por Barthes (2006, p. 23 e 24), “assim que descubro no produto desta operação, aquilo que vejo é que me tornei Todo-Imagem, ou seja, a Morte em pessoa”.

Portanto, se no próprio conceito de fotografia está imbricada a ideia da morte é porque “a fotografia é indiferente a qualquer escala: não inventa, é a própria autenticação, jamais mente, ou melhor, pode mentir sobre o sentido da coisa, sendo tendenciosa por natureza, mas nunca sobre sua existência” (BARTHES, 2006, p. 23 e 24). Roland Barthes fala em um noema da imagem fotográfica, que é justamente o essencial de alguma coisa, segundo Platão. A fotografia de Barthes é “isto foi”, está atestado. Barthes ( 2006, p. 24) trata a fotografia como “princípio de designação que informa que o referente esteve ali, presente, no momento da fotografia”. Para Philippe Dubois (2003, p. 79) podemos pensar “a imagem fotográfica como impensável fora do próprio ato que a faz ser (...) espécie de imagem-ato absoluta, inseparável de sua situação referencial”. O passado está impresso no presente. Ele foi, mas a fotografia sempre está.

Revelação da representação do referente em um tempo e em um lugar qualquer, a fotografia consola o observador pela substituição da ausência do que se foi, pela presença do que foi no passado, fixo no presente. Imortalizado, o instantâneo fotográfico vira eterna presença (KOURY, 1998, p.73).

“A imagem deve existir na mente do fotógrafo” (SONTAG, 2004, p.133). A fotografia já está presente antes de apertarmos o disparador, para que o diafragma, na abertura correta, deixe fluir a passagem da luz.

“Se fotos são mensagens, a mensagem é, a um só tempo, transparente e misteriosa. ‘Uma foto é um segredo sobre um segredo’. Apesar da ilusão de oferecer compreensão, ver por meio de fotos desperta em nós, na verdade, uma relação aquisitiva com o mundo, que alimenta a consciência estética e fomenta o distanciamento emocional” (SONTAG, 2004, p.127).

Podemos ainda complementar esses conceitos sobre a fotografia com outro argumento de Dubois que diz que a distância é inerente ao dispositivo fotográfico, podendo funcionar muito bem no espaço como no tempo. “No espaço: ao mesmo tempo que é, por sua gênese, um signo unido às coisas, a imagem fotográfica tampouco deixa de estar, como signo, separada espacialmente do que representa (...) Em nenhum momento no índice fotográfico, o signo é a coisa” (DUBOIS, 2003, p. 88 e 89).

“O que é realmente a aura? Uma peculiar fantasia de espaço e tempo: a aparição única de algo distante, por mais próximo que possa estar” (BENJAMIN, 1987, p. 228). A definição de aura criada por Benjamin nos textos “Pequena história da fotografia” e “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” afirma o efeito de aproximação e distância que o conteúdo da imagem fotográfica representa, a presença inefável do conteúdo da imagem-foto. Dubois (2003, p. 311) afirma que a “principal qualidade de uma imagem que serve ao culto é ser inacessível”. “O culto do futuro (de uma visão cada vez mais rápida) alterna com o desejo de voltar a um passado mais puro e mais artesanal – quando as imagens ainda tinham um atributo de manufatura, uma aura” (SONTAG, 2004, p.141). O que Benjamin (1987, p. 226) também completa em seu texto: “o mesmo vale para o condicionamento técnico do fenômeno aurático. Especialmente certas fotografias de grupos humanos conservam ainda essa maneira etérea de estar junto, tal como ela aparece por um breve instante sobre a placa antes de desaparecer no ‘flagrante original’ ”.

A placa, como afirma Walter Benjamin, são as placas do daguerreótipo, que nos projetam a uma ação bem anterior do processo fotográfico. O tempo da imagem única, e que aos poucos começaria a se reproduzir incessantemente. E esse mesmo tempo que dá o tom diferenciado entre a aura de uma fotografia e de uma pintura como descreve Susan Sontag.

A verdadeira diferença entre a aura que pode ter uma foto e a aura de uma pintura repousa na relação diferente com o tempo. A devastação do tempo tende a agir contra as pinturas. Mas parte do interesse incorporado às fotos, e uma fonte importante de seu valor estético são precisamente as transformações que o tempo opera sobre elas, o modo como as fotos escapam das intenções de seus criadores. Após o tempo necessário, as fotos adquirem de fato uma aura (...) todas as fotos são interessantes, além de comoventes, se forem velhas o bastante” (BENJAMIN, 1987, p. 226).

Reinvenção da mesma fotografia, apenas uma foto é geradora de outras fotos. No filme Carta para Jane (8) (Jean-Luc Godard e Jean-Pierre Gorin, 1972), em um contexto completamente diferente, um contexto político, os diretores fizeram o filme apenas com uma foto que é reenquadrada diversas vezes ao som de um texto em “off” que resiginifica a fotografia, na verdade, dando praticamente outro siginificado a ela.

O curta-metragem (...) redunda em uma espécie de contralegenda para uma foto – uma crítica mordaz a uma foto de Jane Fonda, tirada durante uma visita ao Vietnã do Norte. O filme é também uma lição exemplar de como ler qualquer foto, como decifrar a natureza não inocente do enquadramento, do ângulo, do foco de uma foto” (SONTAG, 2004, p. 124).

Nas fotos que retratam a minha avó, há uma que sempre chamou muita atenção. É uma fotografia à moda de uma época, em que as pessoas encomendavam um retrato pessoal ou da família para um fotógrafo. É uma espécie de junção de uma fotografia com a pintura, retrato pintado, de forma oval, pintado à mão por algum fotógrafo. A imagem sempre me atraiu pela estranheza e mistério que ela proporciona, a aura da foto, um pouco pelos olhares das pessoas na imagem e um pouco pela técnica da imagem.

Ainda Philippe Dubois (2003, p. 248), “daí, desse desaparecimento pela distância, o caráter ‘aurífico’ (espectral, de fantasma) de certas fotografias, e particularmente do tipo de fotografias chamado retratos”.

E a fotografia remonta histórias na minha memória voluntária, a qual contesta o que passou, o que ficou gravado. Ela se faz presente como registro de uma dada realidade, “pois é da natureza de uma foto não poder nunca transcender completamente seu tema, como pode uma pintura” (SONTAG, 2004, p. 111). A proximidade do real que contém numa fotografia, sob qualquer tema, no caso dessa pesquisa, de registros sociais de uma família, só acrescenta uma parte da história que não lembro ou que desperta algum momento marcante, pois “a fotografia é vista habitualmente como um instrumento para conhecer as coisas” (SONTAG, 2004, p. 109).

Mas a fotografia pode ser muito mais do que uma mera lembrança de um ponto de vista do real. Marcel Proust afirma que a fotografia revela um dado da realidade e nada mais. Ele “entende de forma errada o que são fotos: não tanto um instrumento da memória como uma invenção dela, ou um substituto. (...) Não é a realidade que as fotos tornam imediatamente acessível, mas sim as imagens” (SONTAG, 2004, p. 181). É a “tríade” argumentada por Dubois de que não podemos pensar a foto no simples registro, pensamos a foto como o ato da tomada, da recepção e da contemplação da imagem. O ato de fotografar e o registro da imagem estão juntos. E a nossa reflexão se torna mais complexa, pois não podemos separar o ato fotográfico da fotografia.

Existe um tempo morto revelado em algumas imagens fotográficas que eu faço, habitualmente, quando filmo. É como se eu tentasse construir a minha memória nesse tempo morto, numa imagem fixa, parada, com pouco movimento ou um movimento mínimo. É a presença do nada e da negociação do movimento. Objetos e pessoas passam pela imagem e o enquadramento é fixo. Essa imagem fixa tem origem na fotografia, mas não é fotografia, porque está presente um movimento, como um tableau vivant, tudo o que passa por esse enquadramento quer ser apreendido.

É um olhar perdido, tentando apreender imagens para recriar em cima delas outras imagens. Mas é também a busca de uma imagem para ser contemplada, não no sentido de admiração, mas no sentido de apreensão. É um desejo de guardar ou se apropriar de imagens.



Notas

(1) Cabe salientar que o trabalho que apresento junto ao texto, o documentário Eu, trilho (2008), foi, durante sua realização, ao mesmo tempo, a busca de uma forma documental para a minha memória e o delimitar de diferentes temas que sempre associei ao projeto, tais como, o trem, a roça, as imagens fotográficas e minha memória. O documentário pode ser visualizado em: http://www.patriciafrancisco.com.br/filter/Feminino#1647127/Eu-Trilho

(2) Em 28 de dezembro de 1895 foi inventado o cinematógrafo pelos irmãos Auguste e Louis Luimière. Esta data se refere a primeira sessão paga e pública, no qual aproximadamente 30 pessoas assistiram a primeira projeção de filmes em uma grande tela. Entre os filmes projetados nessa primeira sessão estão: Sortie d’usine Lumière / Saída da fábrica Lumière (p&b/ 46seg/ 1895), Le repas de bébé / O almoço do bebê (p&b/ 41seg /1895) e L’arroseur arrosé/ O regador regado (p&b/ 49 seg/ 1895)

(3) “Embora criadas simultaneamente em fins da década de 1830, não foi a invenção de Fox Talbot do processo negativo-positivo, mas sim a invenção de Daguerre, apoiada pelo governo e anunciada em 1839 com grande publicidade, que se tornou o primeiro processo fotográfico de uso geral” (SONTAG, 2004, p.142). “A história da fotografia é considerada ainda mais estranha que a do cinema, o “atraso na invenção” é ainda mais flagrante,e com freqüência se ficou maravilhado com o fato de a ação da luz sobre certas substâncias – conhecida desde a alta Antigüidade, no Egito – só ter dado lugar à descoberta de um procedimento técnico passível de ser explorado trinta ou quarenta séculos mais tarde” (AUMONT, 2004, p.48.).

(4) Jacques Daguerre (1787-1851), no ano de 1837, inventa o daguerreótipo, que fixa as imagens numa placa de cobre prateada.

(5) Nicéphore Niépce (1765-1833), em 1826, realiza a primeira fotografia com uma câmera escura.

(6) Os irmãos Auguste e Louis Lumière produziram cerca de 1.400 filmes. Treinaram 30 cinegrafistas que se espalharam pelo mundo a partir de 1895, divulgando a nova invenção, o cinematógrafo..

(7) O trem representava a máquina e o crescimento da industrialização. Dentro de um trem, poderiam ter a vista panorâmica de uma cidade pelo deslocamento do olhar. É famosa a aliança entre o trem e o cinema, para exemplificar temos os filmes Arrivée d’un train en gare à La Ciotat/ A chegada do trem à estação de Ciotat (1895) de Louis Lumière, The General/ A General (1926) de Buster Keaton e La roue/ A Roda (1922) de Abel Gance.

(8) Letter to Jane (An investigation about a still) / Carta para Jane, direção Jean-Luc Godard e Jean- Pierre Gorin (cor/ 16mm/ 52 min/ 1972). Jean-Luc Godard e Jean-Pierre Gorin fazem comentários em voz over analisando a fotografia de John Kraft que apareceu na revista L’Express (31 de julho – 6 de agosto de 1972) mostrando Jane Fonda em sua viagem ao Vietnã do Norte. O filme reflete sobre o status da imagem e o papel do intelectual de forma minimalista e critica ironicamente a iconografia e o star system hollywoodiano (...) soa mesmo como um alerta ao que o sistema estaria fazendo aos movimentos revolucionários, simplificando e “fagocitando” as idéias em nome de si mesmo.(...)Trata-se de uma reflexão sobre a representação na mídia contemporânea (ALMEIDA, 2005. p.114 e 115).



Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Jane (org). Grupo Dziga Vertov. São Paulo: witz edições, 2005.

AUMONT, Jacques. O olho interminável [cinema e pintura]. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

BARTHES, Roland. A Câmara Clara. Lisboa: Edições 70, 2006.



BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política – ensaios sobre literatura e história da cultura – obras escolhidas v.1. São Paulo: Brasiliense, 1987.

BECKET, Samuel. Proust. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

BRESSON, Robert. Notas sobre o cinematógrafo. São Paulo: Iluminuras, 2005.

DUBOIS, Philippe. O Ato Fotográfico. Campinas-SP: Papirus, 2003.

FRANCISCO, Patrícia. Um outro cinema – cinema documentário e memória. Dissertação de Mestrado em Artes – Universidade de São Paulo. Escola de Comunicação e Artes. São Paulo, 2008.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Walter Benjamin – os cacos da história. São Paulo: Brasiliense, 1982.

GUIMARÃES, César. Elogio do amor: entre o romanesco e o ensaio in Memória, história, identidade. Cinemais 37 – Revista de Cinema e outras questões audiovisuais, Rio de janeiro: Aeroplano editora, outubro/ dezembro 2004.

KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro. Relações Imaginárias: a fotografia e o real in ACHUTTI, Luis Eduardo R. (org) Ensaios sobre o fotográfico – série escrita fotográfica. Porto Alegre: Aleph Editorial, 1998.

PINTO, Ivonete. Um filme delicado in Revista Teorema, n.11, setembro 2007, Porto Alegre.p.12-13.

PROUST, Marcel. Trad. Mário Quintana. Em busca do tempo perdido – no caminho de Swann. São Paulo: Globo, 2006.

SANTAELLA, Lucia & NÖTH, Winfriedp. Imagem – cognição, semiótica, mídia. São Paulo: Iluminuras, 2005.

SONTAG, Susan. Sobre Fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.



*Patrícia Francisco é natural de Porto Alegre/RS. Vive e trabalha em São Paulo/SP. É Diretora, Montadora e Artista Plástica. Mestre em Artes pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) com a tese: Um outro cinema – cinema documentário e memória. Trabalha entre as artes plásticas e o cinema, realizando filmes, instalações, fotografias e livros. Seus filmes curta-metragem, Retratos da Vó Ana (2008), Eu, trilho (2008) e A Inventariante (2010), foram selecionados para vários festivais e mostras nacionais e internacionais. E-mail: francisco.patricia@gmail.com; Site: www.patriciafrancisco.com.br