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O céu é Limite.





















Ciro Inácio Marcondes

Na quarta-feira de 17 de novembro de 2010, a história do cinema, de certa forma, fez um esforço para pagar uma dívida consigo mesma. A partir de longa restauração feita pela “World Cinema Foundation” (criada por Martin Scorsese em 2007), Limite, o lendário filme de Mário Peixoto, foi exibido comercialmente na Brooklin Academy of Music. Este evento, que é possivelmente a primeira exibição paga do filme, faz parte de uma mostra empreendida pela própria “WCF”, que se dedica a restaurar e trazer ao público obras-primas marginalizadas e desconhecidas do cinema mundial. Isso tudo leva a pensar que, realmente, cedo ou tarde, toda obra-prima se encaminha para o cânone. Limite, em passos de tartaruga, levou 80 anos para chegar ao reconhecimento mundial.
Em 1931, quando Limite foi lançado em uma única sessão para convidados (e recebido com desinteresse), o cinema americano já era sonoro, e todas as obras-primas silenciosas, de nomes como Murnau, Eisenstein, Griffith, Chaplin, Kinugasa, já faziam parte da década anterior. O cinema brasileiro era ainda claudicante, com ciclos que iam a vinham, sempre refazendo seu projeto de indústria, encontrando ainda dificuldades em enquadrar-se numa linguagem fílmica madura. O filme de Mário Peixoto, feito com financiamento próprio e com equipe de amigos (que incluía o grande diretor de fotografia Edgar Brazil) na praia de Mangaratiba (RJ), como que intuitivamente atravessou todas as muitas etapas que ainda faltavam ao cinema brasileiro e, num estranho arroubo, atingiu expressividade máxima.

Mário era um homem jovem, mas culto, e estudara na Europa. Tinha conhecimento de Murnau, King Vidor, Fritz Lang. Mesmo assim, é difícil não pensar neste grande filme como um dos mais espetaculares feitos realizados pela intuição humana. Limite é tecnicamente maduro, com seqüências e angulações absurdamente ousadas para sua época, sem se balizar num vanguardismo estéril. O filme atravessa camadas narrativas tradicionais com desprezo e parte direto para uma simbolização profunda e hipnótica, fazendo do confronto épico do homem com a natureza uma força motriz inesgotável que está presente, podemos dizer quase sem exagero, em cada fotograma da película. O aproveitamento do legado do cinema silencioso é impecável: estão lá as sombras tenebrosas do expressionismo, os desvios autistas do dadaísmo, a montagem dialética do formalismo, os planos longos e duradouros do impressionismo. E Limite traz essa influência sem ser derivativo, potencializando essas linguagens num simbolismo lírico, profundo, devastador. Praticamente sem letreiros, recurso de linguagem facilitador e largamente utilizado nos anos 20, Limite nos transporta para uma experiência filosófica e sublime, nauseante e transformadora.

Além das próprias características intrínsecas à qualidade do filme, há ainda a inacreditável trajetória de Limite. Mário escreveu seu roteiro, como num milagre, em uma noite. Seu fracasso, após o tímido lançamento em 1931, perseguiu seu diretor, como um carma, durante toda sua vida. Idiossincrático e melancólico, ele tentou realizar vários outros filmes praticamente até os anos 80, sempre sem sucesso. Este percurso é marcado por desentendimentos, exigências absurdas, vaidades e até mesmo puro e simples azar ou dessintonia. O filme passou a ser visto, então, apenas por iniciados e excêntricos em faculdades de filosofia até que efetivamente “desaparecesse” após se perceber que sua última cópia, de fragilíssimo nitrato, estava seriamente deteriorada. De 1959 a 1978, tempo da meticulosa primeira restauração, Limite ficou em estado latente, alimentando sua aura de mitologia e fantasiações.

Durante estes vinte antes de ausência muito se falou sobre o filme, sem que ninguém o tivesse visto. Chegou-se a pensar, diante da lenda, que ele nunca havia existido. Glauber Rocha criticou-o sem tê-lo assistido. Carlos Diegues publicou, em 1965, um texto altamente elogioso sobre Limite, traduzido por Mário e atribuindo-o a Sergei Eisenstein. Durante décadas, pensou-se que Eisenstein tivesse assistido e resenhado o filme. Até hoje, guias prestigiados, como o “allmovie.com”, referenciam esta informação. Comprovou-se, porém, no final dos anos 80, que o próprio Mário é quem havia escrito o texto, entorpecido por sua mitomania e maneiras exóticas. O célebre diretor Orson Welles, porém, assistiu ao filme quando veio ao Brasil. Bêbado, ao que parece, dormiu em metade da sessão, mas mesmo assim achou-o “impressionante”. Já Georges Sadoul, o grande historiador francês da era clássica, viajou ao Brasil para vê- lo, mas não conseguiu, fazendo de Limite, possivelmente, o melhor filme que ele jamais assistiu. Mário, através dos anos, dedicou-se a lapidar obsessivamente seu romance joyceano “O inútil de cada um”, cuja primeira versão data de 1933, e que foi terminado apenas nos anos 80. O romance, um leviatã megalítico e hermético de seis volumes, só viu ser publicado o primeiro deles (hoje fora de catálogo) pela “editora Record”. Os outros enormes cinco volumes continuam aguardando uma chance no “Arquivo Mário Peixoto”, no Rio de Janeiro.

Limite é uma odisseia íntima e pessoal, de indevassável lassidão, com metáforas ricas e universais, situado em um ambiente que não se encaixa numa narrativa, de implicações mitológicas e profundo conhecimento poético. Analisado hoje, distante das contingências históricas, definitivamente não é absurdo ou ufanismo equipará- lo às maiores realizações do cinema mundial, ao lado de Eisenstein, Murnau, Orson Welles, Bergman, Ozu ou Tarkovsky. As condições incomuns da produção do filme e sua inesgotável vitalidade deveriam ser motivo para Mário Peixoto ser considerado uma das maiores personalidades artísticas da cultura brasileira. No ano de 2008 uma enorme quantidade de eventos foi organizada para celebrar o centenário da morte de Machado de Assis. Neste mesmo ano, Mário Peixoto, falecido em 1992, teria completado 100 anos. Passou em branco. A restauração da “WCF” abre a possibilidade do lançamento do aguardado DVD, e nova luz para a ascensão de Limite, que precisa, agora mais do que nunca, ser visto e revisto pelos brasileiros.


*Publicado originalmente no Caderno Pensar, do Correio Braziliense de 20/11/2010



Ciro Inácio Marcondes é professor de cinema pela Universidade de Brasília e pelo IESB e é também mestre em Literatura pela UnB, tendo defendido a tese de mestrado “Limite: o poema em filme”.