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A Questão Humana











Louis Kodo

“A violência é um mercado em expansão”
Da personagem Paolini


A história não nos permite vacilar! Ela nos destina a certas paisagens, nos dá um lugar que parece acolhedor e simula que as nossas escolhas respondem às exigências mais puras. E de onde estamos, fingimos que nenhuma questão humana é mais possível, e que nossas preocupações devem se acomodar a um quilo de regras cujo princípio é a da perda de propósito... em relação ao homem. Assim, o que se escolhe constrói-se afastando estorvos, quase sempre, o que há de vida que não desejamos acolher ou pensar. E assim se vai, perdendo-se numa alegoria sem beleza, destruindo os que estão ao nosso lado e a nós mesmos.

Ninguém se afasta de qualquer história! Esse é o punctus no filme “A Questão Humana”, de Nicolas Klotz. Suas personagens deslizam aparentemente soltas numa paisagem que parece guardar somente elementos do presente. Mas não é assim! Simon Kessler, por exemplo, não desconhece nada, não é um desavisado, nem um agente estranho de uma máquina estranha. Como qualquer homem jogou-se sobre uma afazia de representações e se fez. E como psicólogo, trabalhando numa empresa alemã, do setor químico, ele se torna hábil na seleção de pessoal, movendo-se por uma soma de códigos que deliberadamente aceita. E aceita que o outro deve nascer como um corpo que se dispõe para ser usado ou impiedosamente esquecido. E usado além de seu limite, já que toda identidade deve estar associada à sua própria destrutividade. Sob esta condição, a figura de Tavera, um jovem promissor para essa engrenagem, já que ela não tem rosto e é capaz de ostentar todos que lhe exigirem. Tavera é o típico homem da burocracia, que não pergunta o que faz, mas sempre faz. Um lacaio! Lacaio de Simon, que é lacaio do Sr. Rose. Porém, a figura de Rose sabe como esconder a sua destrutividade paranóide, e como gerir o mundo como se ele fosse feito somente de metais e não de homens. E não é perturbador vê-lo regulando um pequeno pedaço do mundo, como se fosse o único mundo que existe. É sobre a soma desses lacaios, e do que se quebra de humano em cada empresa, que se chega ao desastre em que vivemos! Estamos cheios desses tipos!

Dizer que se trata de uma apatia conscienciosa? Balela! Todos sabem o que fazem. Ao próprio Simon não interessa pensar no que faz; é preferível fazer qualquer coisa, mesmo que abjeta, do que ficar à margem. E visivelmente anestesiado por seu papel, usufrui as benesses que o seu cargo lhe garante: bom apartamento, bela mulher ou mulheres, status, amizades etc. Aparentemente... nenhum gesto destrutivo em sua prática. Será necessário que ele encontre algo brutal para que enxergue o lugar que ocupa. A sua aproximação com a história do “Quarteto Farb” enfraquecerá o sentido convencional que dava à sua sobrevivência. E a distinção que conseguia estabelecer entre a sua posição de psicólogo e as exigências de uma prática de aniquilamento do outro – hoje comum -, parece perder significado. Caindo sobre a história de outros, ele enfrentará condições extremas, vivendo a ameaça de desajustamento.

Cegueira de Simon? Não! E longe de admitir, como quer Lyotard (1) para a arte, onde se “supõe que os espíritos estão angustiados por não intervirem na produção do produto”, Simon e todos os outros interferem em todas as obras. É impossível a uma única mão fazer com que uma fornalha queime! E observando as histórias dos membros do Quarteto Farb, reconhecerá que em algum momento, sabe-se lá por que culpa ou liberdade, ele também se integra a uma trama sórdida, a uma ordem venenosa. E se ele e aqueles de quem se aproximou ignoravam, cônscios, a difícil situação humana, nem toda a falsa parafernália técnica e burocrática servirá para esconder o que eles são. É assim! Basta uma simples intersecção com um fato, para que todas as desculpas sobre as quais nos assentamos cessem. E nenhum pretexto de que não sobrevivemos para o futuro, mas para o imediato, poderá nos salvar de nós mesmos.

Ah! Não são os fatos abomináveis, que levam Simon às velhas histórias de extermínio, o que lhe atormentarão. O afligirá ouvir que “o melhor é andarmos mentindo seja o que for. Não vale a pena ter alma”. Uaaau!! É ai onde ele repousa: em uma atmosfera que era melhor esquecer. Mas como esquecer do que é humano, mas é, ao mesmo tempo, o seu lado mais perverso? Como quer C. Lasch (2), tratando dos soldados que foram ao Vietnan “O tipo de experiência histórica (...) acaba por privar-nos da própria capacidade de assumir a responsabilidade por decisões que nos afetam ou de adotar qualquer postura perante a vida, exceto a de vítimas e sobreviventes”.

Participamos de um processo! Percebê-lo é, sempre, regressar sobre suas expressões, sem ousar recusá-las. Mas toda verborragia contemporânea se estrutura para nos afastar do real... de um real cru. Por isso a força da palavra “questão”. Não há mais questões! Como a personagem do filme Neumann, diz: as questões foram transformadas em problemas, e problemas são catalogados, desmembrados, e sobre ações vazias, resolvidos. Problemas todos têm! Questões dizem sobre fenômenos maiores, que abarcam a todos, envolvendo os sistemas e suas estruturas. São, continuamente, aspectos de uma dada política, que exigem ações políticas. Mas se vivemos problemas, e é essa a questão, e eles se perpetuam sob ações de gestores inumanos, pode-se facilmente alcançar velhas práticas... xenofóbicas, de exclusão etc. E o peso de qualquer responsabilidade só se dará se determinado indivíduo ainda guardar alguma feição ética. Neste filme, o grande dilema de Just. O passado lhe atormenta. Suas ações perdem o sentido. E perdem, porque como todos se deixou indolente, esforçando-se para esconder o que viveu... o que sabia.

Aqui, toda beleza dessa história: a idéia de que a catástrofe renasce com o tempo, e que, se se pensa desligado daquilo que um dia o sacudiu como vertigem, que velhos delírios não são compatíveis com o silêncio, e que ressuscitam. Não há, para alguns, como invalidar a culpa! Esse é o caso do Sr. Just. E investigando-o, Simon verá que, também, não escapou de uma velha prática - se menos violenta, nem por isso inocente – que o embarcou na autodefesa de uma máquina que ainda evoca uma forma sutil de extermínio: não deixar que alguns se integrem.

Como um belo ensaio sobre nossa época, o filme ‘A Questão Humana’ nos remete ao que nos conectamos, ao que teimamos em deixar que escape de nossas mãos... à queda inexorável de todos nós, que num dia qualquer nos dirá sobre o lugar que ocupamos e de onde e por quem operamos. E de tudo, o que mais significa, é que todos sabem.... porque continuam jogando.



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1.Lyotard, J-F. O Inumano – considerações sobre o tempo.Lisboa, Estampa, 1990. p.122.

2. Lasch, C. O Mínimo Eu – Sobrevivência psíquica em tempos difíceis. São Paulo, Brasiliense, 1986. 66-7.



Louis Kodo é é professor universitário, escritor, filósofo e autor do livro "Blefe: o gozo pós-moderno" e "Dos Homens", ambos lançados pela editora Zouk.