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As lembranças eternas de um brilho que não mente











Wilson Oliveira

“Benditos os esquecidos, pois desfrutam até dos próprios erros”. É com essa citação de Nietzsche que a personagem Mary, vivida por Kirsten Dunst, refere-se à memória que vai sendo apagada dos personagens centrais de Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Esse texto é um erro talvez.

Em um filme onde uma história de amor, técnica, psique e criatividade se confundem, lembrá-lo uma vez mais é necessário. A relação do filme com autores como Nietzsche, Freud e Bergson é não só a tônica desse artigo sem muitas memórias, mas caminho para não esquecê-lo. Não é devido a quantidade de livros recentes relacionando a filosofia ao cinema que tentamos aqui compreender a eternidade de ‘Brilho’. Talvez a reboque da questão de um outro filósofo - esse com os dois pés fincados sobre o cinema - possamos dar entrada no que propomos. Um dia a pergunta o que é o cinema será reformulada, advertia Gilles Deleuze nas considerações finais de sua segunda obra sobre a arte cinematográfica, ‘A imagem-tempo’. Em suma perguntar o que é o cinema será perguntar o que é o pensamento, percebe Gilles Deleuze.

Deleuze nos liga ao filósofo citado no filme. Friedrich Nietzsche é um dos primeiros pensadores a perguntar sobre outros mecanismos para se pensar o pensamento. De Nietzsche, que pouco ouviu falar do cinema, ficamos aqui com um breve recorte da memória em tom sempre aforismático. “Fui eu que fiz, diz minha memória. Não posso ter feito isso, diz o meu orgulho, e mantém-se irredutível. No final é a memória que cede” (NIETSZCHE, 2002). Essa observação nos facilita na compreensão de um todo que paira sobre o filme. No mesmo sentido da citação que aparece abrindo esse texto (e que constitui uma da mais belas seqüências do filme), a memória é um fantasma entre o tolo e o orgulho. Essa observação do filósofo do Eterno Retorno é crucial nessa análise sobre a memória no filme. Como diz Waly, realmente, “a memória é uma ilha de edição”. Frase a qual o cinema deve agradecer todos os dias. Todas as horas em que o pensamento é cortado pelas imagens em movimento, pelo movimento das imagens-memória.

Por esse viés da memória e com a retomada de Henri Bergson nos estudos da Comunicação, ‘Brilho eterno’ é mais que atual. O entendimento que propõe Bergson acerca da imagem em ‘Matéria e memória’ reduz a um “entre” o destino manifesto da imagem cinematográfica. Coloca o autor:

A matéria, para nós, é um conjunto de “imagens”. E por “imagem” entendemos uma certa existência que á mais do que aquilo que o idealista chama uma representação, porém menos do que aquilo que o realista chama coisa – uma existência situada entre a “coisa” e a “representação” (BERGSON, 1999).

O ‘entre-roteiro’ de Charlie Kaufman (“Quero ser John Malkovich”, “Adaptação”, “Confissões de uma mente perigosa”, “A natureza quase humana”) é um dos melhores dos últimos tempos, não por sua narrativa não-linear, não por sua poesia, mas por sua preocupação amorosa de fazer dos relacionamentos humanos uma ponte entre esse conjunto de imagens. Não à toa, as imagens remetem a escombros como o amor. A memória no filme é algo que desmorona. Matéria que solapa a idéia e a representação. Por que Clementine Kruczynski (Kate Winslet) resolve tirar o companheiro Joel Barish (Jim Carey) de sua memória é uma importante questão que fica adormecida com a entrada em cena de sua resposta: “Bem aventurados os esquecidos”.... Errar é acertar. É assim que ao receber um cartão dizendo que foi apagado da memória, Joel decide fazer o mesmo e esquecer para sempre Clementine. Matéria e memória são elementos centrais desse apagamento. Fotos e desenhos dividem com canecas e coleiras de cachorro espaço para trucidar a memória. A narrativa do filme transpõe uma ordem puramente semiótica da vida. Ordem a qual o cinema sempre quis ser devedor.

Como propõe Freud: “Bastar-nos-á, pois, saber o lugar no qual encontrar a recordação assim fixada para podê-la reproduzir”, o filme tenta encarar esse fantasma chamado memória. Comparando-a com o chamado “bloco maravilhoso” – um brinquedo antigo que retinha o desenho e depois com um simples movimento da folha que o protegia apagava o que tinha sido desenhado – Freud não fazia idéia do que a criatividade de um roteirista e a sensatez da direção de Michel Gondry podem fazer à mente e ao coração de quem assiste a esse belo filme. Mas fazia, e muito, idéia de que a memória tem algo de fantasmagórico. As personagens do filme transpõem uma visão psicanalítica de mundo. Visão esta a qual o cinema sempre quis ser devedor.

Entre erros, fantasmas e gênios Brilho eterno de uma mente sem lembranças nos coloca em um labirinto das memórias. Mas de nossas memórias. Dela, vem a referência a um autor despercebido. Benoist nos ajuda:

Em suma, nada pode ser por nós compreendido que não evoque uma de nossas recordações. Nada podemos reconhecer sem antes conseguirmos aproximá-lo de um precedente conservado na memória. Os pensadores de todos os tempos repetiram-no incessantemente (BENOIST, 1975)

O trem saiu da estação de Ciotat para a estação de Montauk...A Cine-Memória do mundo é uma vida de trens, recordações e pensadores.


REFERÊNCIAS

BENOIST, Luc. Signos, símbolos e mitos. Lisboa: Edições 70, 1975.

BERGSON, Henri. Matéria e memória. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1995.

NIETZSCHE, Friedrich. Para além do bem e do mal. São Paulo: Martin Claret, 2002.

FREUD, Sigmund. O bloco mágico. Buenos Aires: Amorrortu, 1925.





Wilson Oliveira. Jornalista. Especialista em Filosofia Contemporânea. Mestre em Comunicação e Cultura ECO/UFRJ. Organizador do Livro Copas do Mundo de 1930 a 2002. Professor dos Cursos de Graduação em Comunicação Social e Cinema e da Pós-Graduação em Jornalismo cultural da Universidade Estácio de Sá. Aprovado no processo de seleção para o doutorado em Comunicação e Cultura na ECO- UFRJ, 2007.