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“Love conquers all”: um filme de amor.













Liciane Mamede

“Love conquers all” é o filme que ganhou o grande prêmio no Festival de Roterda em 2007 - além de ter colhido diversos outros troféus em festivais espalhados por Europa e Ásia principalmente. Como este evento cinematográfico é o principal e mais tradicional da Holanda, nada mais óbvio que seus premiados percorram o país nos meses que se seguem a ele e sejam exibidos em suas principais cidades. Sem dúvida, trata-se de uma bela forma de retribuir a grande projeção que o festival dá a Holanda no cenário internacional de cinema. Mas é também uma necessária maneira de dar aos holandeses acesso ao que de importante nesse cenário acontece no país.

“Love conquers all”, longa de estréia da diretora malaia Tan Chui Mui, é uma pequena preciosidade e, não a toa, já é considerado um fenômeno na historia recente do cinema de seu país pela projeção internacional que conseguiu e pelos prêmios que arrecadou. Infelizmente, ele não esteve na programação do Festival do Rio e também não figura na lista de filmes divulgada pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. De qualquer forma, como a lista definitiva ainda não foi fechada, ainda há chances.

Segundo a Wikipedia, são produzidos na Malásia aproximadamente 15 filmes por ano, o que, de certa forma, explica o restrito acesso que o público brasileiro tem a essa cinematografia. Nesse sentido, a importância de filmes como “Love conquers all” é estratégica, pois a projeção que o filme vem conseguindo não deixa de jogar luz sobre um cenário ate então relegado à obscuridade e, mesmo que de forma tímida, acaba expandindo as fronteiras cinematográficas do continente asiático para nos.



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“Love conquers all” não frustra em nada as expectativas geradas pelo seu titulo. Sim, este é um filme de amor. Indo um pouco mais longe, podemos dizer que não qualquer amor, mas o amor em sua face mais pura e singela, que não só conquista tudo, mas que redime e redimensiona a vida, os seres e sua relação com o mundo.

Ah Peng, uma jovem com seus 20 anos, partiu de uma pequena cidade no interior da Malásia para morar e trabalhar em Kuala Lampur com uma tia. Esta é dona de uma pequena loja de comida e o trabalho de Ah Peng consiste em ajudá-la na cozinha e no atendimento aos clientes. Na casa da tia, ela divide o quarto com a prima Mei, uma garotinha de 10 anos. Resta dizer que Kuala Lampur é uma grande cidade de um pais subdesenvolvido. Como tal, é um centro de imersão, um buraco negro que suga os indivíduos para dentro de suas entranhas e se projeta neles, um lugar onde pessoas como Ah Peng, como sua tia, como John (rapaz que ela virá a conhecer) levam uma vida absolutamente anônima, centrada no trabalho e em singelos momentos de prazer (falar ao telefone com o namorado distante, assistir a um programa de tv em família, andar de motocicleta). Um dos grandes méritos de “Love conquers all” esta justamente em dar aos pequenos momentos de seus personagens a grandiosidade que eles ocupam em suas vidas – por mais banais que possam parecer num primeiro momento.

Assim, logo que chega a Kuala Lampur, não há momento mais efusivo para Ah Peng do que conversar pelo telefone com o namorado que deixou em sua cidade natal. A jovem gasta todas as suas moedas nisso, mas, estranhamente, quando a conversa atinge seu ápice, a suposta razão de seu ser; quando, ao telefone, ele pergunta se ela o ama, a resposta é sempre mesma: não.

Assim que conhece John, numa dessas vezes em que vai telefonar, e este começa a cortejá-la, a princípio, há uma resistência por parte dela, não o bastante diante da insistência dele, não o bastante diante da inclinação dela por ele. O orgulho ingênuo de Ah Peng, querendo esconder o que parece tão óbvio a qualquer sensibilidade atenta indicia também uma das grandes ênfases contidas no filme: o amor que a tudo conquista não pode florescer sem que uma certa dose de ingenuidade consiga vir à tona. E é, talvez, essa crença irrestrita na ingenuidade que faz com “Love conquers all” acabe por colocar o amor de Ah Peng e John numa redoma de ternura capaz de transcender qualquer rispidez presente no mundo que habitam. Assim, o filme se transveste de uma ingenuidade que não pode ser tomada como boba ou simplória, mas antes como um ponto de vista sobre o mundo, quiçá a única condição para manter-se lúcido e realista em relação ele. O amor não é um corpo estranho à realidade áspera dos personagens, mas é parte dela, é a força que impulsiona as subjetividades que o contexto parece massacrar. Assim, Ah Peng e John “existem” porque são seres capazes de amar. É essa emergência ao mundo, esse nascimento, que Tan Chui Mui registra. Em um dos belos momentos em que John esta com Ah Peng, ele lhe diz: “nenhum amor é original, pois muita gente se apaixonou e se separou antes de nós”. Ha nessa frase, uma certa dose de resignação, que também não deixa de estar presente na constação empírica das imagens, nem por isso, menos ternas. Mais uma vez o filme nos situa: o amor é a parte sublime de um mundo de pessoas comuns.

A simplicidade aparentemente lacônica dos planos de “Love conquers all” são potencializados ainda mais pelo suporte - o filme foi captado e finalizado em vídeo. A textura suja das imagens, cujos contornos em certos momentos parecem prestes a se desfazer; os enquadramentos secos, soltos, não menos errantes que os rumos dos personagens, parecem querer apenas acompanhar, presenciar. Assim, “Love conquers all” nos dá a sensação de que, para além de suas histórias de vida, para além da posição central que ocupam no filme, aqueles são personagens que poderiam, na verdade, estar situados em algum ponto da vida real.

Quando John chega de uma briga com a mão ferida, Ah Peng não agüenta e chora. Esta é apenas uma das singelas cenas pelas quais o filme - e o amor dos dois jovens - conquista também a nós, espectadores. Outra, talvez mais emblemática, é a cena posterior a que eles fazem sexo pela primeira vez. Aquela era a primeira vez de Ah Peng também. Depois de ter se entregado a John, a jovem, sentada, olha para cima, a luz que entra pela janela banha seu rosto. Ela fica um tempo nessa posição, pensativa ou, talvez, apenas sensitiva. Pode este ser um daqueles imediatos momentos posteriores a um grande acontecimento em que, em um segundo, conseguimos ter a exata dimensão de nossas vidas? Ah Peng estaria a experimentar, num fluxo caótico, sentimentos de pertencimento ao mundo (e, nesse sentido, talvez, ela não estaria parada, como sugere sua posição na cena, mas em frenético movimento)? Inúmeras inferências existem para essa desolada imagem (que lembra o quadro “Eleven A.M.” de Edward Hopper) e difícil é não se projetar nela de alguma forma, tão anônima, tão particular. De qualquer forma, o que “Love conquers all” parece dizer claramente é que todos estão fadados a um encontro (com o amor, com o mundo), não há escolha, a não ser que - como sugere John a Ah Peng, quando ela ameaça querer escapar dele - pulemos de um carro em movimento.

Para quem se interessar, é possível ler o roteiro do filme, em versão em inglês, no site http://www.dahuangpictures.com/blogs/index.php?blog=5.



Liciane Mamede é estudante de Filosofia da USP, redatora do site Cinequanon.art desde 2005 e está morando temporariamente na Holanda.