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Mitologias













Alfredo Luiz Suppia

Heracles, o semi-deus da mitologia grega, é o único ponto em comum entre uma superprodução americana e um modesto filme brasileiro recente. Diz a lenda que os espartanos de 300 (dir.: Zack Snyder, 2007) descendem do próprio Heracles, e é esse o nome do protagonista de Os 12 Trabalhos (2006), segundo longa de Ricardo Elias (diretor de De Passagem), vencedor do Prêmio Horizontes na 54ª edição do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián e eleito terceiro melhor filme no Festival de Havana. Daí pra frente, como é óbvio, um abismo de diferenças separa os filmes de Snyder e Elias. Como numa cena de Davi contra Golias, os dois títulos são representativos dos respectivos rumos tomados pelo cinema nacional e pela indústria cinematográfica americana em tempos de tensão.

Sob o signo de Golias, 300 é a adaptação cinematográfica da famosa graphic novel de Frank Miller, inspirada nos relatos de Heródoto de Halicarnasso sobre a Batalha das Termópilas (ocorrida no verão de 480 a.C., no contexto da II Guerra Médica), quando 300 espartanos, comandados por seu rei, Leônidas I, e acompanhados por cerca de 7 mil soldados de outras cidades-estado gregas, retardaram o avanço de “milhões” de persas (provavelmente 250 mil) sob o comando de Xerxes, filho de Dario I. Menos ousado, porém bem mais “épico” que Sin City (2005), de Robert Rodrigues, 300 é um espetáculo visual digno de um “cinema de atrações” do século XXI, turbinado pela tecnologia digital. Assisti a esse filme numa sala equipada com som Dolby Digital, o que significa que cada estalar de armas, brado de guerra ou simples movimento brusco ganhava volume de trovão. As cores de 300 são magníficas, evocativas não só do belo trabalho de Lynn Varley na graphic novel escrita e desenhada por Miller, mas também das telas de um Caravaggio e de um Rembrandt. O filme é uma reprodução bastante fiel da narrativa original, embora elida algumas passagens e acrescente outras, como aquelas envolvendo Gorgo, rainha de Esparta, que no filme tem papel bem mais relevante que na graphic novel. Mas nem tudo que funciona na HQ funciona no cinema. Algumas falas escritas por Miller soam por demais literárias no filme. Não é verdade que 300 seja linear e arrastado, diferentemente da graphic novel. O filme de Snyder também recorre a flashbacks, avança e retrocede de forma talvez ainda mais sofisticada que nos quadrinhos, e nisso reside alguma qualidade da narrativa.

Por outro lado, o que forma e técnica demonstram de virtuoso é comprometido pelo conteúdo, muitas vezes – senão totalmente - grotesco. 300 é um filme essencialmente nazista, para nenhuma Leni Riefenstahl botar defeito. Um Olympia com sangue e lágrimas. A começar pelo descarte das crianças espartanas deformadas, passando pela sociedade militarizada, pelo culto à violência e à beleza apolínea. Os espartanos lutam pela justiça e liberdade, não se cansam de repetir. Mas que justiça e, principalmente, que liberdade? Cidadãos livres que desde criança são abandonados à própria sorte, numa espécie de darwinismo laboratorial deturpado e da pior espécie. Como de costume no cinema mainstream de extração fascista, o herói é apolíneo, enquanto o vilão não escapa à deformidade física. Ephialtes (Andrew Tiernan), o sumo traidor de Esparta, é uma espécie de Quasímodo rejeitado pelo rei Leônidas (Gerard Butler). Uma vez negado seu desejo de servir no exército espartano, o vingativo Ephialtes vende sua habilidade aos invasores persas. E aqui temos outro vício de caracterização. Os persas são todos ou freaks ou efeminados. Xerxes, interpretado pelo brasileiro Rodrigo Santoro, é um andrógino cujos gestos sugerem um desejo incontido por Leônidas, quintessência da masculinidade. Nazismo e homossexualidade num encaixe nada inusitado, pelo menos desde que Susan Sontag publicou seu famoso ensaio “Fascinante Fascismo” (1972). A tropa de elite de Xerxes, Os Imortais, é composta por monstrengos importados do inferno, e todo persa que não seja um freak é covarde. Em resumo, num período de tantas tensões entre o ocidente e o oriente, entre EUA, Europa, Oriente Médio e Coréia do Norte, 300 encena de forma fantasiosa tudo de mais estereotipado no que diz respeito à intolerância que hoje testemunhamos. Como já foi dito pela crítica, “um filme para Bush ver”, uma apologia da supremacia moral, física e militar do ocidente, sob a ótica dos atuais ocupantes da Casa Branca e com todo o revival da estética totalitária que lhe cai bem. Não é à toa que o filme foi banido do Irã. 300 é um salto adiante da Disney em termos de propagação de um pensamento hegemônico, tão sutil quanto um elefante se comparado aos filmes de Mickey Mouse, Pato Donald e cia.

Cineastas anteriores e bem mais experientes que Snyder já haviam descoberto que o kitsch sempre espreita filmes aspirantes a monumento. De maneira que 300 não foge à regra, e o kitsch estará na trilha onipresente, no final à la “os brutos também amam” e nos campos de trigo, entre outros momentos. Como muitos já apontaram, Xerxes é um destaque de carro-alegórico, saído da Marquês de Sapucaí direto para os estúdios da Warner. O papel de Rodrigo Santoro, festejado pela mídia em geral, mas ponderado pela crítica especializada, está aquém das possibilidades desse ator. Do ponto de vista profissional, pode não ser exatamente um “gol contra” na carreira. Por outro lado, está longe de ter sido uma grande oportunidade para o ator brasileiro. Pois o papel de Xerxes, personagem incrementado artificialmente, poderia ter sido de qualquer outro corpo musculoso e com feições latinas - no entender da indústria cinematográfica americana, latinos, sudaneses, iranianos, árabes ou aborígenes são todos a mesma coisa, todos orientais. Também não é à toa que o rei Leônidas, repositório das virtudes físicas, morais e intelectuais do ocidente, seja interpretado por um ator escocês. Que a inexpressiva participação de Santoro no filme de Snyder lhe tenha sido financeiramente recompensadora, pois bem que o Rodrigo de Abril Despedaçado (dir.: Walter Salles, 2001) e Bicho de Sete Cabeças (dir.: Laís Bodanzky, 2001) merecia coisa melhor.

No hemisfério sul, sob o signo de Davi, Os 12 Trabalhos, de Ricardo Elias, transporta o épico ao cotidiano. Aqui Heracles (Sidney Santiago, premiado como Melhor Ator de 2006 no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro por esse papel) é um jovem negro e pobre, amante do desenho, morador da periferia de São Paulo e recém-saído da Febem, que conta com a ajuda do primo Jonas (Flávio Bauraqui) para reconstruir a vida. Em seu primeiro dia numa empresa de entregas (convenientemente chamada “Olimpo”) como motoboy, Heracles enfrenta doze trabalhos, doze tarefas na cidade de São Paulo. A cada desafio, uma complicação. Cada tarefa traz em si a promessa de ruína, mas que acaba por nunca acontecer de todo, ora por astúcia do jovem, ora por pura sorte. A cada incumbência mercurial, Heracles completa um estágio rumo à maturidade. Amadurecimento em 12 atos que culmina em tragédia. A São Paulo de Os 12 Trabalhos é uma Grécia sitiada e opressiva, sua topografia escarpada, arriscada e inóspita, que nada melhor que os travellings na motocicleta deixam entrever. São pelas veias e artérias dessa terra rude que circulam exércitos de espartanos motorizados, endurecidos pelo cotidiano febril das corridas contra o tempo. O motoboy é forjado na dor da fome, da pressa e do acidente a cada esquina. Um exército solidário, mas também solitário. Heracles está em seu Agogê tardio. Os desafios e vilões que enfrenta são bem menos fabulosos que o Leão da Neméia, o Cérbero ou a Hidra de Lerna, porém muito mais perigosos, porque corriqueiros e concretos. O motoboy tem de matar um leão por dia e, em sua primeira chance, Heracles tem de provar o seu valor. A dimensão épica reveste o cotidiano corriqueiro da luta pelo pão de cada dia. O elmo do espartano é o capacete do motoboy.

Os atores estão muito bem em Os 12 Trabalhos, a começar pelo jovem Sidney Santiago como o protagonista. Vera Mancini, como Roseli, a gerente dos motoboys, confere um misto de doçura e resignação à sua personagem. Paulo Américo, como Catatau, e Eduardo Mancini, o Mano Véio, entre outros, colorem o realismo do filme com interpretações divertidas e espontâneas. Em suma, Os 12 Trabalhos busca um resgate ou re-exame da figura do motoboy, sendo francamente favorável, embora sem muita pieguice, a esse personagem típico do cenário paulistano.

O filme de Elias traz citações vigorosas como a de Taxi Driver (1976), de Martin Scorcese, quando Heracles encena desafios defronte ao espelho. O final, previsível, é o mesmo de Os Incompreendidos (1959), de François Truffaut, outro filme sobre inocência e forja da vida adulta. Até o olhar para a câmera de Antoine Doinel (interpretado por Jean-Pierre Léaud ainda criança) está no fim de Os 12 Trabalhos, na fuga de Heracles para a praia que só confirma a tese de utopia de Lúcia Nagib (A Utopia no Cinema Brasileiro, São Paulo: Cosac & Naify, 2006), fazendo eco a toda uma filmografia nacional, de Deus e o Diabo na Terra do Sol (dir.: Glauber Rocha, 1964) a Abril Despedaçado (dir.: Walter Salles, 2001): “o sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão”. Mesmo um mito moderno, como a abdução por disco-voador, está presente de maneira transversa no filme de Elias. A propósito, pouco antes da aparição do OVNI, quando o registro semi-documentário começa a ceder à fábula invocada pelos desenhos de Heracles, temos uma das cenas mais magnéticas, espontâneas e divertidas do filme: a da conversa das crianças no terraço da periferia, válvula de escape do mundo cinza de concreto e privação. Os 12 Trabalhos não pode ser comparado à obra-prima de Truffaut, embora pareça também uma tentativa de releitura de Os Incompreendidos. Até a trilha sonora, de André Abujamra, lembra alguns tons da trilha de Os Incompreendidos em determinadas passagens (sampler?), apesar da recorrência ao rap ou hip-hop, como de costume em filmes sobre a periferia. Como disse, o épico está inscrito em Os 12 Trabalhos, mas de forma micro-histórica, humanizada, diferente do épico faraônico de 300, o épico escancarado dos mitos clássicos apropriados por Hollywood. A odisséia de Heracles tem um dia só, e diz respeito à sua sobrevivência enquanto simples mortal.

Os 12 Trabalhos é representativo de um cinema brasileiro com vocação documentária, voltado para a realidade nacional dos grandes centros urbanos. Em filmes como esse, o naturalismo ganha relevo e a dramatização de microconflitos ganha matizes épicas, por vezes transcendentes, mas sem abandonar a simplicidade, a singeleza. Para entender o mito, mergulha-se na realidade. Por sua vez, filmes como 300 operam a estetização de ideais desgastados e duvidosos, uma fuga da realidade rumo ao terreno de valores dominantes ornados por efeitos especiais. Para entender a realidade, mergulha-se no mito. Essa fantasia exacerbada, colorida e monumental, com freqüência degenera em escapismo e reafirmação da intolerância. Quando menos se espera, se aceita o fascismo como valor e virtude, a violência como a resposta mais nobre, a feiúra como vilania. Enquanto o cinema brasileiro tenta uma microscopia da identidade nacional, Hollywood pinta simulacros modernos da Capela Sistina como 300, numa exaltação de fantasia fascista modelar, principalmente após o famigerado 11/9. Simplicidade x opulência. Caminhos diversos reunidos pelo mito em diferentes níveis de manifestação. Não é novidade: “Fale-me de sua aldeia e me falará sobre o mundo”. Porque todas as dores e deleites da vida escondem-se atrás de qualquer esquina. É nisso que dá assistir consecutivamente a dois filmes tão díspares, tentando enreda-los num fio de Ariadne improvisado.




Alfredo Luiz Suppia é é jornalista, pós-graduado em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira pelas Faculdades Padre Anchieta, doutorando em Multimeios, Unicamp.