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MARIA ANTONIETA: uma personagem além do bem e do mal































Maria Silvia Galante

Maria Antonieta, personagem gerador de grandes controvérsias, frente o qual detratores e idólatras vem tecendo versões incompatíveis entre si. A monarca que encantava Jean Genet, que desprezava o mundo burguês; que mobilizou Stephen Zweig a escrever uma biografia e a Alexandre Dumas, um romance sobre um escândalo envolvendo sua pessoa. O episódio, no caso, refere-se a um cobiçado colar de diamantes e seu desfecho demarca o ponto de ruptura entre ela, o clero,os aristocratas e a opinião pública. É nesse momento que ela retorna à condição de estrangeira, recebendo a alcunha de austríaca, passando a ser demonizada como fonte de todos os males. Sem se ater às várias celeumas suscitadas por Maria Antonieta, como que a mostrar a face humana do mito, a diretora Sophia Coppola escolheu trabalhar o personagem através de um registro fluido e sem grandes oscilações dramáticas, acompanhando seu dia-a-dia. Não temos uma busca de interioridade do personagem: ele é o que parece ser, e nós o público, iremos seguir suas reações frente aos acontecimentos que se apresentam a ele.

A jovem é escolhida para selar a aliança entre França e Áustria. Vai casar-se com o neto de Luis 15. Seu esposo desinteressa-se por ela ou pelo sexo. Ambos são jovens e despreparados não só para a vida conjugal, como também para o exercício do poder. Maria Antonieta vai flanar pela corte tentando obter o máximo de prazer possível, evitando conflitos. Em seu registro, a diretora salienta a juventude do personagem (14 anos quando se casa), seu olhar inexperiente, sua espontaneidade quase desajeitada, capaz de gestos calorosos pouco habituais à rigidez protocolar da corte francesa. O tempo todo é presente frescor e brejeirice, jovialidade que atenua recriminações. Essa versão da diretora apresenta alguns problemas: sabendo-se que a educação religiosa era algo corriqueiro nessas monarquias católicas, a idéia de pecado ou de proibição não poderia ser desconhecida à futura rainha, ou seja, Maria Antonieta não poderia ser tão inocente quanto aparece no filme. Para ela, nada parece ser interdito ou capaz de gerar um conflito interno, seus problemas estão sempre no mundo fora dela, como, por exemplo, a impossibilidade de engravidar uma vez que o coito real não é consumado. Nesse inocentamento da personagem, todo o aspecto transgressor é perdido. Maculando um pouco esse retrato bastante idealizado, pequenas ‘diabrites’ são atribuídas à jovem, como o confisco de verbas filantrópicas para as mães solteiras a fim de pagar dívidas com alfaiates, ou seu desprezo ostensivo por Madame de Barry.

Parece que Sophia Copolla resolveu dar uma resposta a muitas das acusações que têm sido feitas à rainha como, por exemplo, de que teria exposto o delfim a orgias e devassidão; de que era uma depravada absoluta; de que era tão somente fútil e frívola. No filme, ela aparece como mãe presente e amorosa, numa época em o costume entre os aristocratas era o de entregar seus filhos para serem criados por terceiros. Ela manda construir um local para retirar-se do cerimonial da corte e uma mini fazenda. Deleita-se desse modo com uma vida mais “simples”, vestindo roupas mais soltas e despojadas, dando vazão ao seu desejo de estar próxima à natureza, inspirada nos escritos de Rousseau. É retratada também como a esposa que não abandona o marido quando a chega a má hora, nem se desespera frente o horror anunciado. No registro histórico oficial, essa mulher desapareceu frente à outra, afeita aos jogos, festas, amantes e diamantes, e que recomendou brioches ao povo na falta do pão. Como que querendo absolver Maria Antonieta das muitas acusações sofridas, a rainha de Coppola concilia hedonismo e afetividade.

No filme, testemunhamos a impossibilidade de vida privada na corte num registro competente e bem humorado. Versalhes foi edificado para Luís 14, o Rei Sol, que detestava a Paris caótica e repleta de motins na época, surgindo então como um local protegido e exclusivo aos monarcas, seus sucessores e a corte. Os nobres passam a ficar confinados no palácio, seu cerimonial e suas intrigas, endividando-se progressivamente para sustentar roupas, jogos e comprar influências. Desse modo, em uma estratégia muito bem urdida, o Rei os controla de perto impedindo que seu poder seja destronado. O Reinado de Luís 14 é um marco da centralização política. O Rei Sol cria também um dos primeiros grandes palcos da vida privada, todas suas rotinas sendo presenciadas por um séqüito de nobres que competem entre si para estarem mais próximos a ele. Temos, então, o grande espetáculo da vida privada de uma monarquia que se apresenta como modelo a ser seguido em todo território europeu. Seus sucessores, Luís 15 e Luís 16, vão herdar toda essa encenação do poder político, sem a competência do Rei Sol para a vida pública. Ao fazer um retrato da vida cotidiana de Maria Antonieta, do casamento até a saída forçada de Versalhes, a diretora opta por uma nitidez tão luminosa que acaba por deixar seu personagem sem textura, volume ou sombras. É um paradoxo, fazer o retrato da vida privada de um personagem praticamente destituído de privacidade. Num dos melhores momentos, mostra Maria chorando após testemunhar um parto. Uma câmera atordoada, fragmentada, desfocada, flagra a jovem correndo até refugiar-se num local onde parece dar-se conta de quão insuportável é sua condição. Nesse breve momento, tem-se a impressão de que algo na personagem vai se descolar, quebrar, suscitar conflito, no entanto, prontamente recomposta, voltará a sua tendência de obter gratificação por todos os meios possíveis, construindo nas cercanias do palácio um local para ela e seus escolhidos.

Se por um lado, a direção de Sophia Copolla é irrepreensível, por outro, em termos de autoria, deixa a desejar em relação à própria complexidade do retrato a ser feito, sobretudo por já ter traçado em filmes anteriores instigantes retratos femininos. Nessa obra, envolta em música pop e rock, bela fotografia, cenários e figurinos deslumbrantes, temos uma linda embalagem que mais promete do que cumpre. Uma das opções autorais refere-se a trilha musical, um dos pontos fortes de seus filmes anteriores. Aqui, a opção pelo rock/pop contemporâneo vai produzir um efeito de descontextualização, descolando figura e fundo, acentuando o caráter de artifício, salientando que o que estamos vendo é representação e não registro histórico fidedigno.

A propósito desse descolamento, é interessante lembrar o comentário de Sartre no prefácio de “O estrangeiro” sobre uma reflexão feita por Albert Camus em “O mito de Sísifo. Camus relata o estranhamento provocado ante a visão de um homem que fala ao telefone por detrás de uma divisória de vidro; “não o ouvimos, mas vemos sua mímica sem alcance: perguntamos a nós próprios porque vive ele”. Sartre no seu comentário diz que o homem que telefona e que não ouvimos nos parece absurdo somente enquanto um circuito de significação estiver interrompido. Uma vez aberta a porta, o significado pode ser restabelecido. A diretora, ao aproximar passado e presente através da trilha musical, estaria na realidade efetuando uma manobra problemática, içando a barreira de vidro, falso sinal de transparência, retirando tudo aquilo que é enigmático na transposição da barreira do tempo. Por refutar o gênero filme de época, aquilo que remete ao passado histórico atem-se aos usos e costumes e ao décor, nada além disso. O passado, o momento histórico, tudo é que é enigmático, que está atrás de um vidro, passa a ser mero coadjuvante de uma dramaturgia que deseja focar somente a polêmica aristocrata. O público será convidado a ver o personagem como familiar e até mesmo próximo. Temos, então, quase que uma caricatura, na qual a deformação parece ser uma tendência a um tipo de registro naturalista. Sabemos que essa Maria Antonieta é uma versão a contento da diretora, baseada na obra literária de Antonia Fraser. Mas, que versão é essa, o que se fala, como fala e o que deixa de falar?
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Desse modo, a Maria Antonieta retratada poderia ser equiparada a um personagem atual, uma princesa pop como Lady Di ou as garotas da dinastia Grimaldi de Mônaco. Todas elas são jovens, belas, ricas e entediadas, querem se divertir e usufruir a vida no que ela tem para dar e vender. Não teria a diretora transformado a rainha numa jovem adolescente abonada americana, algo como Paris Hilton, representante de uma “dinastia”, cuja “vida privada” vive na mídia? O furor de Maria Antonieta por tecidos, vestidos, calçados e jóias, numa Paris que vem sendo símbolo de moda desde essa época, é absolutamente compreensível e defensável por um público de jovens consumidores sofisticados, acostumados a se divertir nos lançamentos de coleções regados ao champanhe, soltando os mesmos gritinhos frenéticos. O fato de o filme ganhar um Oscar de melhor figurino, comprova que moda é assunto capital e desperta muito interesse, além de fazer circular muita grana. Recentemente o insípido “O diabo veste Prada” foi fortemente divulgado e comentado e os créditos finais de ambos os filmes comprovam que, muitas vezes, efeitos especiais podem dar lugar a um enorme arrolamento de bens de consumo cobiçados, de grifes com pretensão quase nobiliárquica. A população que lê revistas de celebridades, que as persegue sofregamente pelos interiores de suas casas e suas festas, vai certamente deliciar-se com os salões, salas íntimas e jardins de Versalhes, muitos deles jamais filmados ou expostos a um grande público. Ao que parece, os responsáveis pela administração do palácio acreditaram até numa possível divulgação publicitária. Mais uma grife em jogo, uma vez que os museus franceses vêm liberando franquias no exterior.

Nesse filme, visualmente impecável, ágil, bem encadeado, deslumbramo-nos frente uma concepção cênica primorosa e absolutamente sedutora. É importante lembrar que um modo de se reverenciar celebridades e ter acesso a elas é através de revistas como a brasileira “Caras” que tiveram como origem a “Ola”, que se ocupava predominantemente dos assuntos da monarquia espanhola. Os tablóides ingleses já o faziam, mas sem fotos. Pois é, a monarquia nunca sai de moda e a América mesmo tendo suas estrelas, não produziu jamais uma Maria Antonieta. A América ama a França e seus castelos, seus modismos e sua atribulada sofisticação.

Sophia Copolla ao optar por efetuar seu retrato da monarca baseando-se em sua compreensão do que é o privado, deixa de lado a singularidade do momento histórico no qual encontra-se seu personagem. Temos um registro de vida privada que praticamente nada revela do mundo externo. De posse de sua escolha, a diretora parece perguntar-se porque essa aristocrata deveria modificar seu comportamento, porque deveria manifestar qualquer consideração para com os outros, uma vez que foi lançada tão precocemente como instrumento para selar uma união entre estados. No entanto, a permanência de Maria Antonieta no imaginário coletivo não se deve somente a suas particularidades estéticas e seu estilo de vida, mas, sobretudo, por simbolizar o fim de uma era, por estar vinculada a uma das reviravoltas de poder mais espetaculares da história.

É possível que o próprio caráter espetacular assumido pela Revolução Francesa, com julgamentos e enforcamentos públicos, além dos seguidos pronunciamentos da Convenção e do Diretório, tenha levado a diretora a decidir-se por não representá-la. Dando continuidade ao foco na vida privada, optou por mostrar a rebelião não pelos seus atores, mas por sua ação devastadora em um dos salões do palácio. Essa decisão mostra a coerência da obra, o que sendo um ponto para a diretora não deixa de trazer à baila a questão do político, e da relação intrínseca entre o público e o privado. É como se os monarcas pudessem permanecer completamente alheios ao mundo que os cerca, fato esse inverossímil em se considerando todos os militares, políticos, diplomatas, membros do clero e hóspedes que aparecem no filme. Ou seja, por mais insulada que estivesse a monarquia francesa, a própria freqüência de pessoas do além-muro estaria exercendo influência, trazendo notícias e vice-versa. Temos assim, mais uma vez, o inocentamento dos monarcas. Numa breve passagem, o rei aparece governando, isso é, sendo aconselhado por seus conselheiros a continuar a guerra na América, medida essa que não somente não impedirá a crescente supremacia inglesa no continente como também contribuirá para piorar o endividamento francês. Ironicamente, a independência americana fornecerá material incandescente para nutrir as centelhas revolucionárias que acabarão por destronar a monarquia. Faz-se assim mais uma ponte entre o novo e o velho mundo, entre os Estados Unidos e a França, entre a diretora e sua personagem.
“Maria Antonieta” é um filme no qual a diretora apresenta em muitos momentos grande preocupação nas reconstituições históricas, em outros a abandona totalmente, numa seleção absolutamente pessoal do que escolhe como fato e narrativa ficcional. No âmbito do ficcional, temos uma Maria Antonieta com trejeitos e comportamentos absolutamente contemporâneos, reforçados pela ação da música. Mesmo sabendo que sobre a verdade histórica só podemos capturar versões, aproximações e suposições, quero chamar atenção para a condução narrativa de Sophia Coppola, seja no absolver a personagem das acusações de seus detratores, seja no trazê-la para perto de nós, equiparando-a a uma “celebridade” contemporânea, seja ao colocar o foco exclusivamente no privado, mostrando tão somente uma parte de sua persona pública, aquela que vemos. Para a diretora,o histórico parece ater-se ao décor. É bom lembrar que o diretor inglês Ken Russel também fez vários filmes sobre obras e personagens históricos usando trilhas musicais contemporâneas. No entanto, sua obra sempre transitou pelo pastiche e pelo kitsch,e o produto final fica um tanto quanto “datado”. Para ele, o histórico é sempre versão.

Não parece ser intenção da diretora chegar ao político através do privado. A não ser que o político seja visto como a hipérbole do privado, nesse caso, o privado de uma classe que leva seus interesses pessoais, seu deleite, às últimas conseqüências, vertiginosamente retornando a si mesma. É a rainha um personagem decadentista? Não, absolutamente contemporâneo, consumista e voraz, cujo esvaziamento impele ao novo preenchimento, numa marcha incessante.

No fim do filme, no momento em que a fúria revolucionária ao atingir o palácio, desabriga os monarcas e os faz retornar a Paris, tanto a rainha quanto o público desavisado que nada sabe sobre a revolução Francesa serão surpreendidos. Nesse fim de filme, testemunharemos o término de um mundo belo, leve, divertido, protegido e seleto. E absolutamente consumista e elitista, tal como o nosso. Fim do filme ou fim de um sonho?

Finalizando, não será dessa vez que a controvertida rainha vai ser objeto de uma obra que dê conta de sua complexidade. Ela deve ainda esperar por um retrato melhor, menos edulcorado, que recupere sua potência, seus conflitos e, sobretudo, sua virulência.


Maria Silvia Galante é psicóloga e cinéfila.