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"Pro Dia Nascer Feliz": quadro-a-quadro













Maria Sílvia Galante

João Jardim é um cineasta bem intencionado, sem qualquer demérito nesse comentário. No seu filme anterior, “Janela da alma”, tratava delicadamente da questão da deficiência visual, sendo que agora ele enfoca as deficiências do ensino fundamental no dar conta da complexidade contemporânea. É esse o tema? Na realidade, o grande problema do documentário é abrir um leque muito grande de temas e deixá-los bastante soltos, numa abordagem muito ligeira dos inúmeros assuntos tratados.

De modo sintético, tentando inventariar o método do documentário, teremos a filmagem das instalações físicas de várias escolas públicas e de uma instituição privada; filmagem de aulas; depoimentos de alunos, professores e diretoria; acompanhamento de algumas atividades paralelas à escola e registro de um processo de seleção. Não sabemos porque o diretor escolheu as regiões e escolas retratadas, nem porque filmou somente uma escola particular, num universo de escolas públicas. Por que especificamente o Santa Cruz, e porque somente esse colégio particular?

Na realidade, é bastante difícil compreender o projeto do documentário, pois o diretor abre muito o leque de questões e as trata superficialmente ou de modo desigual, sendo impossível traçar paralelos por inexistir em algumas situações, material a ser contraposto, como por exemplo, em relação ao processo de seleção (só aparece em uma escola). Mesmo assim, o documentário tem como principal mérito suscitar o interesse de um público leigo, repleto de estudantes, pais e professores sobre o assunto, fato esse comprovado pelas semanas em cartaz na cidade. Ou seja, pensar educação interessa e tem repercussão. Esse dado é fundamental para dar seguimento a outras obras que busquem refletir essa terrível realidade.

No entanto, ficamos aqui numa discussão muito colada ao que já vem sendo tratado como os grandes problemas escolares: deficiência do ensino que não garante que os alunos saibam ler, compreender o texto e escrever, instalações precárias e pouco atraentes, falta de professores motivados, injustiças sociais, regionais, mudanças do comportamento dos jovens e seus anseios, estratificação crescente de uma sociedade na qual os mais privilegiados reforçam cada vez mais seus privilégios - demonstrado na ansiedade provocada pela avaliação no colégio Santa Cruz - e os desprivilegiados pouco crêem que a escola possa aportá-los um porvir, etc e tal.

Retornando ao documentário, iniciamos em Manari, que é caracterizada como uma das regiões mais pobres do Brasil, num Pernambuco que vem aportando os piores índices de violência nacionais. É interessante saber quanto a escola recebe e todas as deduções que lhe são imputadas (inclusiva da parte da própria prefeitura), além das dificuldades enfrentadas pelos alunos para ter que cursar níveis mais adiantados do ensino fundamental em outra cidade, tendo que enfrentar mais de 30 km num ônibus precário, que mais quebra do que anda. A parte documental de Manari é uma das mais detalhadas do documentário, as instalações são bem filmadas e o aspecto rural do entorno é explicitado no trajeto para a outra escola.

Com relação aos estudantes, teremos duas jovens em presença protagonista, sendo que uma delas, amante de literatura e poesia diz ser freqüentemente mal avaliada por seus professores, os quais não conseguem dar conta de sua capacidade e sua especificidade. Sabemos que o diretor encantou-se por ela, pois abre o filme recitando Vinícius e será sua a grande presença final, recitando uma versão própria da “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias.

Partimos então para Duque de Caxias, no Rio, aonde o diretor vai escolher um grupo desigualmente retratado, protagonizado por um aluno com problemas escolares e de comportamento. Seu desempenho será discutido pelo conselho dos professores, permitindo que vejamos a discussão da aprovação ou reprovação nessa escola e quão subjetiva é. Será a única escola na qual será filmado esse procedimento, sendo que seremos informados que no Santa Cruz isso não foi permitido. Mas e nas outras escolas, o que ocorreu, porque não foi possível filmar? Sendo assim, o que fazer com esse dado, que só aparece numa escola? Seguramente a discussão travada pelas professoras é de sumo interesse, mas não é possível fazer o contraponto com as outras escolas. Será que o diretor queria fazer esse contraponto ou acabou por filmar o que foi possível e deixar o que lhe parece relevante? Não o sabemos. O que parece é que como o diretor conseguiu essa filmagem, e que como ela suscita importantes discussões, ele optou por deixá-la.

Nesse mesmo local, veremos o trabalho de uma oficina de cultura buscando motivar os jovens e inseri-los em atividades grupais que confiram “auto-estima” e os tirem da rua, como dança, musica e teatro. O Sr.Carlinhos Brown, não citado, porém tocado (as músicas do Ilê Ayé), parece ser uma das referências no que concerne a cativar jovens para atividades grupais, assim como no abordar questões de consciência negra. Dessa vez temos então a questão racial em aberto...

Em outra escola pública carioca, temos uma estudante que já pensou em morrer e que será também filmada um ano depois, procedimento esse que não será feito com todos os “protagonistas”. Os outros, na maioria, serão mencionados no final do filme, informando sobre seu paradeiro. Nessa escola aparecerá também uma discussão sobre homossexualidade num grupo de redação de um fanzine, que parece servir somente para mostrar a inclusão da jovem acima em questões instigantes, polêmicas, surgidas graças às atividades paralelas promovidas na escola e sua “acomodação”, segundo ela mesma, um ano depois ao deixar de estudar. Nesse caso, a escola aparecerá como um lugar estimulador, promovendo a discussão, o crescimento, a sociabilidade, vivência que hoje ela diz ter perdido.

Com relação aos professores, melhor dizendo, professoras, pois a realidade filmada é eminentemente feminina, temos o depoimento contundente e comovente de uma jovem professora de literatura e língua portuguesa. Sua voz se somará a de um grupo de professoras e diretoras retratadas no filme, bastante perplexas frente à nova realidade escolar. Ela afirma faltar nas aulas quando se encontra no limite de suas forças, diz necessitar de ajuda psicológica, e afirma que o professor perdeu sua dignidade. Rico material, que poderia ser melhor trabalhado se pudéssemos fazer um contraponto de sua fala com, por exemplo, um professor de escola de elite.

Indo para São Paulo, seguiremos primeiro para a periferia para então nos dirigirmos em direção a uma das regiões “nobres” da cidade, no jargão do mercado imobiliário. Na maioria das escolas públicas do documentário, as instalações físicas são menos tratadas, talvez porque a precariedade e o desleixo deixem tudo muito anônimo e parecido. Na escola de periferia paulista, teremos o depoimento da estudante loira artificial que foi agredida por duas colegas negras, implacáveis na sua incapacidade de suavizar o conflito, levando assim a um desfecho dramático aonde a primeira se vê impelida a largar a escola, e pouco depois engravidar, mantendo, no entanto o sonho de voltar a estudar. Nesse momento, muitas questões são levantadas, de modo bastante tosco: sexualidade, sexualização precoce, gravidez precoce, violência. Evasão escolar e gravidez são interligadas? De qual maneira. Nesse caso, a aluna engravidou depois de sair da escola. Como fica esse dado?

Em meio a tantas questões, escutaremos um relato em off, no qual ficamos sabendo, pela voz de outra jovem (uma estudante dessa escola?), que esta matou uma colega em público, para que seu ato fosse visto por todos, acrescentando também, de modos bem desapegados, que menor só pega três anos. Mais um comentário que fica quase sensacionalista na maneira como aparece no fluxo da trama, que nessa altura do filme, vai ficando mais frouxo, não só por não termos acesso à dona da voz, como também por aumentar exponencialmente o número de questões abordadas. É um dado importante por mostrar que agressividade física não é prerrogativa masculina, mas como o assunto só é enfocado nesse local, não temos como fazer uma comparação da experiência para que a questão posa ser de fato relevante. Da maneira como está posta, não sabemos se é um dado pertinente a essa comunidade, nem, caso o seja, a razão dessa especificidade. Mais uma vez, peca-se pelo excesso.

Daí seguimos para o Santa Cruz, numa filmagem aérea dessa parte da cidade, mostrando os bolsões de segregação, e o contraste entre zonas verdes e zonas totalmente desprovidas de cobertura vegetal. Numa manhã chuvosa, a câmara dentro de um carro aproxima-se da escola, e vemos uma estudante sair do carro e entrar nela, passando por barreiras de segurança. Continuando, a câmara segue registrando de modo bastante prescutador as instalações físicas da escola, assim como suas áreas verdes, que aparecem pela primeira vez, sendo que esse procedimento, como já salientado, desigualmente feito nas outras escolas. Por que a vista aérea? Por que as tomadas dentro de um carro?

Mais uma vez, não sabemos porque o diretor escolheu dar voz a um grupo eminentemente feminino? Foram os que concordaram em ser filmados? Estamos agora num grupo de jovens bem articuladas, que se definem como pertinentes a uma bolha, a partir na qual veriam o mundo, sendo essa mais turva (dos mais alienados) ou quase translúcida (daqueles que se afligem com a desigualdade, mas não sabem o que fazer com ela). Por que somente para as “elites” se perguntou sobre a desigualdade? Chama a atenção o tipo de discurso registrado, que parece muitas vezes ser o espelho de conversas ouvidas nas discussões dos adultos, pois os pais aparecem, nesse grupo de meninas, bastante presentes como referência de suas falas. Observa-se também a ansiedade frente o próprio desempenho e o sentir merecedor ou não de estar numa escola tão boa quanto essa. Ou seja, é necessário estar à altura, seja da expectativa da escola, seja a dos pais, seja a de si mesmo. Teremos o contraponto bem emocionado de duas meninas, uma com excelente desempenho escolar que se sente tendo negligenciado seu “lado mulher” e outra com desempenho afetado por questões “existenciais” resolvidas parcialmente após um encontro com uma professora de filosofia. Será que o diretor busca mostrar o sofrimento e ansiedade dessas jovens, e de certa maneira, sua solidão? Humanizar as elites?

E os professores, e a diretoria, porque é que não aparecem nessa escola?

No filme como um todo, a única situação aonde será possível traçar um paralelo entre a grande maioria das escolas abordadas refere-se ao registro em sala de aula. Inicialmente teremos as aulas “engajadas” da professora pernambucana sobre o Frei Caneca, que segundo ela, teria sido morto por querer coisas boas para seu povo; a seguir passamos por uma aula noturna no estado do Rio sobre a política do café-com-leite, aonde assusta a indiferença da classe e o ceticismo da professora, cansada de lidar com o desinteresse e sua própria falta de motivação frente a esses alunos. Passamos pela sala de aula da professora carioca já mencionada, sobre o romantismo, aulas dinâmicas, participativas, alegres, aonde o conhecimento aparece em construção. E acabamos então no Santa Cruz, em outra aula de literatura, oportunamente tratando da obra “O cortiço” de Aluisio de Azevedo, e a descrição determinista no texto naturalista É uma aula tradicional, aonde o mestre, metódico e bem articulado, vai demonstrar sua tese. É a única situação do filme que permite a realização de um painel para efetuarmos contrapontos.

Voltando ao Santa Cruz, após ficarmos sabendo que as duas estudantes supracitadas passaram de ano, escutaremos a seguir, novamente em off. Outra garota comentar que sente falta de ter pais que sejam mais presentes, que a toquem mais, que conversem com ela, pois os seus estão muito preocupados com suas vidas, com a pressão profissional e de ganhar dinheiro, que pouco sabem sobre sua filha. Suas carências, segundo ela, são canalizadas para o namorado e as amigas. Por que o diretor mais uma vez opta por utilizar a voz em off, porque inserir comentários anônimos quando está trabalhando com depoimentos personalizados? Será que para dar entrada a mais um tema? Agora, a câmara segue para as escolas públicas, nas quais outras vozes em off falam sobre a ausência de pai, acabando por acompanhar uma menina, em Manari, que fala sentir falta de pai, até acabar por se conformar com isso. Mais um tema, dentre os muitos arrolados no curso do filme.

Sendo assim, estamos frente um painel importante, muitas vezes bastante emocionado, mas que apresenta como principal problema à falta de um projeto de filmar e de como selecionar e abordar os achados documentais. A impressão que fica é que o diretor achou tudo relevante e decidiu deixar. Ele tem um método, já descrito acima, dos aspectos que pretende tratar, mas esse é desigualmente percorrido. Ao decidir dar voz a certos protagonistas, por exemplo, desfoca o entorno e singulariza a discussão. Isso por si só não constitui um problema, mas impossibilita fazer um contraponto desses jovens, pois não são abordados de mesmo modo, nem com a mesma duração.

O aspecto melhor trabalhado é o registro dos professores, embora sem voz no Santa Cruz. Em algumas escolas temos também o depoimento de diretores, noutras não.Impressionante a onipresença feminina no ensino, outro assunto relevante, ainda mais num documentário que nas cenas finais vai flutuar em cima do tema da ausência da figura paterna. O que quis o diretor insinuar com isso? Nos parece um tanto quanto displicente fazer esse tipo de comentário en passant.

A música aparece principalmente nos momentos finais conferindo um tom emocional que denuncia um certo desalento ou perplexidade matizada de tristeza, talvez uma consternação grave, preocupada. Pro dia nascer feliz muita coisa tem que mudar parece dizer enfim...

O final do documentário tem um interesse todo próprio, que poderia dar origem a outra obra. Adolescentes, de diversas procedências, classes, cores, são convidados a serem filmados olhando para a câmera durante alguns segundos. É impressionante o olhar desafiador de alguns, mais pobres, em relação ao olhar envergonhado de guris do Santa Cruz, como se os primeiros soubessem que são vistos por um outro que é percebido como diferente dele, podendo julgá-los; enquanto os segundos, inseridos tão confortavelmente na vida, nem imaginam que possam despertar algum interesse. Para os primeiros, a realidade já é algo colado em sua pele, estampado; para os segundos, imersos em tecido protegido, o outro é tão somente mais um olhar adulto frente a outros mais. Em outro registro, duplas de amigos sérios, encabulados, risonhos, pensativos, o painel final é instigante por si só, como se esses adolescentes ao se mostrarem para as câmeras, aparecessem ao mesmo tempo para si próprios e para nós, sendo a eles conferido, por breve instante, importância e relevância. “Pro dia nascer feliz” tinha que ser sempre assim...

PS: Em tempo, é importante salientar que a cidade de Manari ganhou uma escola para o ensino médio, inexistente anteriormente.



Maria Silvia Galante é psicóloga.