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Corpo e tecnologia: uma abordagem da relação corpo-máquina a partir dos filmes Matrix, Metrópolis e Tempos Modernos















Priscila Davanzo

Se os meios de comunicação já foram tidos como extensões do corpo humano [MCLUHAN, 1974], era previsível que o mesmo seria dito das máquinas todas que o circundam. Vilém Flusser [1979] propôs a seguinte relação: as máquinas foram e são criadas como paralelos das partes do corpo [o sistema ótico de um binóculo tenta imitar o sistema visual, as garras de uma escavadeira, a mão] e é exatamente por isso que acabam se tornando extensões dessas mesmas partes [as “lentes” dos nossos olhos não conseguem ver longe como as do binóculo, a mão não é tão forte quanto a garra da escavadeira...]. Em contato com cada nova extensão, o corpo humano fica dependente dela, como se ela sempre tivesse feito parte dele. O nosso corpo é dependente de todos os aparatos tecnológicos que o circundam, em diferentes graus de intensidade, logicamente, mas de uma maneira irreversível.

Irreversibilidade é, inclusive, a palavra que Pierre Lévy [1999] usa ao tratar da relação entre as tecnologias e a sociedade, ou a cultura [extensões do corpo humano assim como os meios de comunicação e as máquinas]. Para ele, essa relação nunca causaria um impacto, já que as técnicas são criadas por indivíduos dentro das sociedades/culturas. A influência gerada pelas técnicas parte, portando de dentro das sociedades/culturas. Ele completa:

Uma técnica não é nem boa, nem má (...), tampouco neutra (...). Não se trata de avaliar seus “impactos”, mas de situar as irreversibilidades às quais um de seus usos nos levaria, de formular os projetos que explorariam as virtualidades que ela transporta e de decidir o que fazer dela. [p. 26]

Todas as relações que o corpo tem, trazem algum tipo de marca, cicatriz a este. O corpo fica, em diferentes intensidades, modificado por essas relações. Ele ganha um novo design, novas funções, novos espaços... O corpo muda.

Nesse ponto é interessante fazer um adendo sobre o que significa aqui a palavra corpo. Corpo não representa aqui somente o corpo, matéria orgânica onde os seres humanos costumam estar durante a sua estada viva. Não se fala aqui de um corpo separado da mente e da “essência” humana. O que caracteriza o ser humano é a somatória dessas partes todas — e provavelmente de outras ainda — e nenhuma delas em separado pode ser considerada sem a outra. Não é mais viável pensar em um ser humano separado de seu corpo [KATZ, 2004], já que o corpo humano é uma das maiores características da humanidade de um ser humano. A priori, o que diferencia um ser humano de qualquer outro ser vivo é a sua composição física. Até mesmo a postura vertical [bipedismo] pode ser tomada como o início de uma visão de superioridade sobre os demais animais, cujas mãos não estão livres para realizar trabalhos de alta precisão [THE STORY OF US, 2004] — como diria o cineasta Jorge Furtado, “o polegar opositor” [ILHA DAS FLORES, 1988].

É importante perceber o raciocínio desse pensamento não dualista, onde corpo, mente e “essência” são o todo que chamamos de ser humano. Ao pensar no ser humano como sinônimo de seu corpo — e é assim que, nesse texto, a palavra corpo tem a conotação de ser humano, como todo — pode-se visualizar um todo complexo, muito mais fácil de ser compreendido e estudado. Quando cada uma das partes está separada, o ser humano vira um amontoado de artes, de problemas e de soluções que nunca se encaixam — a medicina alopática e sua tradição de especificações minuciosas costuma enxergar apenas cada uma das partes, o que dificulta encontrar a solução para o problema. Nesse caso específico, a influência das tecnologias no ser humano o afeta de inúmeras maneiras: fisicamente, psicologicamente, religiosamente, biologicamente, etc.

Provavelmente a primeira modificação do corpo humano se deu com o advento da fala. O corpo não tem um sistema específico para essa atividade e acaba-se utilizando parte do sistema respiratório e parte do sistema digestivo para realizar essa atividade. [SANTAELLA, 2004 e 2003] Falar é a perversão da utilização comum desses sistemas e a partir do momento que se falou, isso foi irreversível. Essa técnica de comunicação modificou o corpo de tal forma, que hoje é considerada uma das características essenciais da definição de ser humano — isso pode ser visto praticamente no sistema de exclusão e reabilitação de portadores de deficiências da fala e da audição.

Não importando o tempo, a tecnologia sempre modificou e modificará o corpo, mas é no período posterior à Revolução Industrial que o aumento de ferramentas tecnológicas alcançou um número muito grande e que as relações dessas tecnologias com o corpo se tornaram efetivamente presentes. O boom tecnológico gerou um certo tipo de desconfiança de boa parte dos seres humanos exatamente por essa característica modificadora das tecnologias. Questões fervilhavam nas cabeças pouco acostumadas com tantas e tão rápidas mudanças. O Carlitos trapalhão, desajeitado, engolido pela máquina é sintoma dessas preocupações. Engoliriam as máquinas os seres humanos? Elas seriam capazes de fazer desses corpos obsoletos? Com a disseminação de sistemas industriais capitalistas, como o fordismo e o taylorismo, e a substituição de mão de obra humana pela maquinária, foi instaurado um primeiro grito de guerra contra as máquinas. Grito esse extremamente paradoxo: do mesmo jeito que as máquinas tiram dos trabalhadores os seus empregos — a fonte de renda é um sinônimo de sobrevivência dentro do sistema capitalista — ela lhes dá o tempo livre — reivindicado pelos movimentos grevis do início do século XX.

Se em Tempos Modernos a máquina — e a postura maquinária do ser humano, como mais uma peça do sistema fabril — é um código esquisito, ainda a ser decifrado, levando o ser humano a ser obrigado a improvisar uma relação, em Metrópolis, as máquinas têm um papel quase que escravizador — os trabalhadores humanos vivem e trabalham no subsolo, quando os níveis mais próximos à superfície são ocupados pelas máquinas e seus donos, os aristocratas — e até mesmo mau — é o robô, a falsa Maria, que tenta levar os trabalhadores à sua auto-destruição. Além da tradicional idéia de que as máquinas tirariam dos trabalhadores humanos os seus postos de trabalho — idéia até hoje extremamente discutida — ela ainda consegue traiçoeiramente disfarçar-se de ser humano e enganar a todos. Esse é, provavelmente o maior medo humano, o da perda do controle. É o mesmo medo retratado em Matrix, onde em um mundo dominado pelas máquinas — que enganam diariamente a todos os seres humanos — o ser humano seja apenas um escravo delas. A perda do controle pode ser ainda mais assustadora se associada a essa capacidade de enganar; muito pior que ser escravizado é não conseguir enxergar isso.

O corpo de Carlitos está desacostumado, destreinado para o trato com as máquinas. Portar-se como uma delas traz uma dificuldade gigantesca. Já os trabalhadores de Metrópolis são como os companheiros maquinizados de Carlitos: realizam o seu trabalho junto às máquinas eficientemente — é um futuro, portanto onde os seres humanos já tiveram muito tempo e muitas gerações no trato com as máquinas. Mas a partir da ação da falsa Maria, esses corpos todos ficam à mercê das vontades dos aristocratas — inescrupulosos, jogam, inclusive, com o formato das manifestações trabalhistas.

Em Matrix, as máquinas estão tanto na postura de inimigas — aquelas que tomaram do ser humano o seu mundo, a sua vida e, mais importante do que nunca, a sua liberdade — no papel das sentinelas, no mundo real — bestializadas, cheias de tentáculos e olhos — e do Agente Smith, na matrix — simuladores das características humanas, podem enganar a qualquer um, como a falsa Maria — quanto na postura de cooperadoras, no papel da nave — uma casa, cheia de fios expostos e reparos aparentes — e dos simuladores, ambos no mundo real — local de treino, aperfeiçoamento e aprendizagem — e, ainda, do mecanismo que possibilita a entrada e saída da matrix, o computador comandado pelos irmãos nascidos em Zion. Esse duplo papel das máquinas, traz ao corpo um tipo de relação muito mais complexa, onde não apenas as máquinas convivem com o corpo, mas estão no corpo. A escravização feita pelas máquinas coloca nos corpos uma série de plugs de conexão, que visam facilitar o tráfego de energia, e é através desses mesmos plugs que é possível a conexão dos corpos livres com os simuladores e com a matrix.

O relacionamento dos corpos com as tecnologias e com as máquinas de seus tempos geram um fator de hibridização desses corpos com as máquinas. Os trabalhadores, companheiros de Carlitos, já estão hibridizados, e comunicam-se livremente com as máquinas da fábrica; a compreendem. Uma parte deles já está misturada com essa tecnologia. São fruto de uma latente ciborguização irreversível. Os trabalhadores do subsolo da grande Metrópolis também. As máquinas com quem trabalham, lhe são tão familiares quanto seus serviços. O trato com a falsa Maria, andróide, lhes torna meio homens, meio máquina, já que o disfarce da moça robótica não é percebido. Se ela é uma deles, eles também são como ela. É em Matrix que as relações ficam mais complexas. Além das relações usuais com as máquinas — a nave, os simuladores, a “usina de força humana”, as sentinelas e a própria matrix — aqui é onde os corpos são fisicamente híbridos com as máquinas. Os plugs são uma parte máquina dentro do corpo, e aparentemente podem ser utilizados em várias funções — das usinas de energia, que por eles sugam a energia humana, às conexões com os simuladores e com a matrix. Os corpos em Matrix não são mais humanos, mas híbridos dos humanos com as máquinas, ciborgues reais.

Junto desses diferentes corpos ciborguizados, em cada um dos filmes há ao menos um corpo resistente à ciborguização. O próprio Carlitos não consegue se relacionar adequadamente com as máquinas, e o jovem moço enamorado da verdadeira Maria — e a própria Maria — não se engana com o truque da andróide programada. Provavelmente os nascidos em Zion são os menos hibridizados, mantendo apenas relações com as máquinas circadianas, nascidos sem plugs — impossibilitados do contato com os simuladores e com a matrix.

Um outro ponto importante é a relação robô - servidão. O termo robô foi usado pela primeira vez pelo escritor tcheco Karel Capek em 1917, nascido do termo tcheco robota, que significa servitude, escravidão. O próprio Capek, posteriormente, definiu robô como “uma máquina humanóide artificial criada em grande número como fonte de trabalho barato” [WILSON, 2002, p.370]. O conceito de robô está diretamente ligado ao de escravidão. Então, não é gratuito o corrente medo de que as máquinas — principalmente as inteligentes — venham a nos escravizar.

Desde a interferência da Revolução Industrial, à da Revolução Eletrônica — de cujo refluxo ainda fazemos parte —, a relação corpo - máquina tem sido bastante discutida, tanto nos meios teóricos, como nas artes. O fato de artistas trazerem as discussões de seu tempo à tona em sua produção, adiantando muitas vezes o processo histórico — o próprio Tempos Modernos é citado como exemplo de uma situação onde o discurso artístico se tornou discurso histórico [SANTAELLA, 1997, p. 36] — faz com que esses assuntos sejam infinitos — ao menos à nossa era mecânico-eletrônica — e sejam re-discutidos com enfoques atualizados. A arte sempre acompanha o seu tempo.


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NOTAS

[1] grifo meu.

[2] essa noção de “essência” visa englobar o que, em alguns casos é chamado de “alma”. Em uma cultura marcadamente católica, como a brasileira, a separação é muito comum, e esse tipo de pensamento dualista tem dominado boa parte dos territórios de discussão.

[3] a questão da obsolescência está relacionada ao sistema capitalista, onde o novo passa por cima do ultrapassado, substituindo-o.

[4] para esclarecer os termos aqui utilizados: ciborgue é um ser humano, híbrido com máquina; andróide é um robô que simula o corpo humano; e robô é uma máquina inteligente e pode ter qualquer forma, mesmo que a tradição seja a de simular a forma de um ser vivo.

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FONTES CONSULTADAS

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Priscila Davanzo é artista plástica, seu trabalho pode ser conferido nas seguintes paginas:

http://www.arteria8.net

http://iam.bmezine.com/?priscilladavanzo%2Fkassiagarcia

http://www.myspace.com/priscilladavanzo

http://www.vaca.s5.com

http://www.neoarte.net/mods/transdermal.htm

http://www1.uol.com.br/bparquivo/integra/priscilla_20020522.htm

http://paginas.terra.com.br/servicos/foxfx/abertura.html

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=4284803