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"2046" de Wong Kar Wai: era uma vez o amor

































Rodrigo Petronio

O tema do amor é um dos mais explorados em toda a história do cinema. Chega a ser quase um recurso menor por ser tão universal e, ao mesmo tempo, tão passível de ser endossado sem grandes crises de consciência do espectador em geral, que tende a se identificar de saída com a proposta, seja ela qual for. De "Casablanca" a toda sorte de terapia amorosa grupal a que os produtores de Hollywood chamam de cinema, dos mais antigos registros cinematográficos, passando pelas abordagens mais eróticas, até toda série de filmes cuja tônica recai sobre alguma relação amorosa, vai uma floresta negra de infindáveis títulos que não cabe recensear aqui. O interessante é notar (e aqui vem uma distinção essencial) que muitas vezes esses filmes não tematizam o amor, mas uma relação amorosa em específico. Alguns diretores e filmes se propuseram enfaticamente a isso: Antonioni, Truffaut, Bergman e até mesmo aquele explícito "Elogio do Amor", mais um dos tantos equívocos de Godard. Também recentemente tivemos o belo "Amor em Cinco Tempos" de François Ozon. Mas, muitas vezes, aborda-se o tema mais num nível teórico do que propriamente fílmico. Em geral, por mais abrangente que seja o enquadramento e por mais que nos identifiquemos com o que transcorre na tela, não é o amor propriamente o principal agente do espetáculo. Os atores o encarnam e o individualizam em personagens. Não nos remetem à sua causa primeira, ao seu mistério, à sua condição.

Em um sentido bastante diverso podemos entender o novo filme de Wong Kar Wai: "2046". O diretor já havia mergulhado no tema em um belo filme anterior, "Amor à Flor da Pele", do qual este seria uma espécie de continuação. Mas aqui ele o leva às raias do paroxismo. Na atual maré rala do cinema, mesmo o europeu, que oscila entre grandes produções que dizem pouco ou quase nada e os filmes competentes, o famoso (e entediante) mito tecnocrata da competência, não deixa de ser um grande frescor respirar um filme como este. Façamos um resumo sucinto de seu enredo, pois não é ele que realmente importa. Nos anos 1960, em plena tensão de conflitos políticos, Chow vive de escrever pequenos contos ficcionais para um jornal. Decepcionado por uma desilusão amorosa, sai de Cingapura e se refugia em um quarto pobre de hotel. Escolhe o número que dá título ao filme, por ali ter morado um antigo amor, que nele foi assassinada por um de seus amantes. A partir de então sua vida é a de uma completa dissolução. Aquilo que podemos chamar de uma promiscuidade regrada, sem grandes arroubos ou perversões, mas com uma alta rotatividade de parceiras. O fato é que a vida do hotel começa a se entrelaçar à sua. Passa a ser o receptáculo das cartas apócrifas endereçadas à filha do dono, apaixonada impossivelmente por um japonês. A filha mais nova, adolescente lúbrica, quer tê-lo a qualquer custo e acaba fugindo de casa. A vizinha da frente, uma espécie sutil de prostituta, reluta muito em se entregar a ele, pois sabe que acabará se apaixonando. Como de fato acontece. E uma grande série de conluios amorosos se dá, até que o protagonista parte de volta para Cingapura e passa a ganhar a vida na noite, com o jogo de cartas. É quando conhece uma mulher misteriosa que tem exatamente o nome da amante que lhe fizera perder o rumo e fugir da cidade. Mais um amor em aberto, uma possibilidade que não se concretiza, e Chow parte enfim de volta para Hong Kong. Subentende-se que o faz para retomar a sua vida de dissolução, sem qualquer perspectiva mais sólida.

Não importam os desdobramentos da história. Aliás, no grande cinema, a história é o que menos interessa. É sempre um pretexto para acionar potências, forças, intensidades, afetos, singularidades, dar-nos, enfim, a fina flor da imagem-tempo, como bem o definiu Deleuze. O que temos, na verdade, no desenrolar dessas cerca de duas horas de uma discreta obra-prima, é uma das mais contundentes encenações do amor. Porém, não de seu apogeu, mas de seu eclipse. Em mimetismo com a impossibilidade do amor num futuro de máquinas, numa hipotética era de 2046, cujas relações amorosas se desdobram em um plano de ficção científica, saído todos os dias da caneta desse escritor-personagem, Kar Wai nos dá uma antecipação da ruína futura do amor, que se faz presente. E, no nosso caso, também passado. Eis a estratégia narrativa que suspende a contingência temporal. O amor que não poderá ser já não o é. E, para nós, já não o é desde há muito tempo. Nesse sentido, ao recorrer à ficção científica, que é parodiada e desmontada para demonstrar, em um fundo artificialmente atemporal, a impossibilidade do afeto e a incomunicabilidade entre as pessoas, 2046 se filia quase que explicitamente ao Solaris de Tarkovski, provavelmente um dos maiores artistas do século XX.

Porém, diferente da proposta do diretor russo, há aqui um apelo sexual. No filme de Kar Wai, a sensação de vazio e incomunicabilidade se reveste do mais transparente hedonismo e pode ser entendida de muitas maneiras. As mais diretas dizem respeito à própria gama de situações que o afeto pode nos proporcionar. Mas há uma leitura mais fina, sub-reptícia. Ela se relaciona ao próprio estado atual da sociedade e da cultura, e não se trata de um fenômeno ocidental ou oriental, mas do mundo todo. Resumindo grosseiramente aqui as idéias de Zygmunt Bauman, se a modernidade pode ser definida como a instauração da fluidez como a grande moeda do mercado de bens materiais e simbólicos, nesse contexto o ocaso do amor era não só esperado, mas inadiável. Se também as relações humanas passam a ser subsumidas à transação e à transitoriedade de um mundo líquido, não é de se espantar que a liquidez dos corpos no mercado do amor seja desde há muitas décadas um fenômeno inexorável. Para usar a expressão do sociólogo polonês, é a era do amor líquido. Estaríamos hoje vivendo o ápice desse processo de fluidez em todas as instâncias de nossa vida, da qual a mais notável e, dir-se-ia, mais polêmica e fatídica, seria a das relações amorosas.

Ora, o amor líquido, ao contrário do que possa parecer, não é um manancial inesgotável de virtualidades e possibilidades de novos vínculos e de novas formas de amor. Pelo contrário, é a suspensão, a impossibilidade de todo vínculo, tido como obsoleto, a mesma suspensão reivindicada pela tão aclamada liberdade sexual, que hoje em dia só ilude idiotas. Por outro lado, vivamos ou não em um mundo de idiotas (há boas almas que acreditam que não), as estruturas que o regem são sustentadas na impermanência, na fugacidade, na transitoriedade, em uma palavra, na liquidez. Em uma constante luta pela legitimação da paixão em uma realidade dominada pela hipocrisia das formas sociais enrijecidas pelo hábito e pelas instituições, a modernidade flexibilizou as relações e, com elas, também o amor. Agora, entrincheirada, vitimada por sua própria criação, oscila indefinidamente entre o desespero pela substituição rápida de parceiros e a hipótese cosmética de uma vida a dois perfeita, moeda das mais correntes na mídia. Entre o real descartável, porque sempre insuficiente, e o ideal fraudulento, porque totalmente estéril em sua perfeição, nunca fomos tão críticos, nunca fomos tão livres em relação ao amor. E, ao mesmo tempo, nunca fomos tão solitários. Diante dessa situação, em meio a esse hiato, essa mesma vida moderna não consegue nos oferecer nada mais do que três saídas alternativas no que lhe diz respeito: o cinismo, a farsa ou a hipoteca.

No primeiro caso, temos a opção pelo hedonismo, como faz o personagem principal de 2046. Mas mesmo nele, vive-se no inferno. E não é necessária grande abstração filosófica nem recorrer a complicadas engenhocas metafísicas para entender que se a experiência não é passível de singularização, resulta daí que ela mesma se anule como experiência, perdendo sua espessura simbólica, e até mesmo sua própria definição ontológica. Reduzida a um caos amorfo de sensações que já não se distinguem, acaba por se transformar em um conjunto de realidades puramente nominais. Vive-se em um universo onde tudo se passa, mas nada acontece. É o spleen, o tédio, a massa das sensações, a liberdade total do sujeito diante do mundo que o circunda, mas que é igualmente desencantado e desinteressante em toda a parte. Em uma palavra, é o gosto da novidade.

Mas o filme de Kar Wai é fino nesse aspecto. Diz-nos que o prazer é, a um só tempo, liberdade e túmulo, ponto de fuga do imaginário e dilapidação de todo recurso amoroso. Nesse contexto, a vida do libertino, em tempos modernos e mais especialmente pós, como o nosso, não goza nem do benefício da ampliação das práticas como recurso para potencializar o prazer diante da sua inescapável neutralização, do incontornável esvaziamento da experiência tomada em si mesma, como seria em Sade, por exemplo. Porque hoje, mesmo a transgressão já vem prevista e prescrita pelo modelo que ela tente quebrar e, ao refutá-lo, o repropõe, em chave inversa. Toda novidade já vem prevista pelo cardápio que a assimilará, para que também ela possa ser trocada, aceita, consumida. Mesmo o que tenta se fixar, acaba por se desmanchar, no fluxo líquido dos valores e práticas que não se sustentam em nada e não sustentam nada. E nada é mais gritante nesse sentido do que a impossibilidade de se lidar com o amor em liberdade, vivida justamente por todos aqueles que mais padeceram das agruras dos limites e da rigidez. Dito em outras palavras, hoje em dia o perfeito cínico é aquele que pensa que o amor será redimido pelo hedonismo. É cínico porque quer transformar uma energia diáfana em algo quantificável, na estatística dos corpos que se encontram e se cruzam, para depois se dissiparem em uma forma qualquer de desprezo ou indiferença.

Na segunda hipótese, temos a manutenção das formas mais tradicionais dos relacionamentos. Sem pensar em qualquer positividade, em maneiras mais ou menos corretas de se viver no interior do rio mutável da história, ela também não deixa de apresentar suas dificuldades. Não que a história se repita como farsa, como queria Marx, mas a experiência mesma engendra suas formas históricas, em todos os quadrantes de nossa vida. Como eixo de sustentação, como âncora de um mundo líquido, a melhor saída seria o casamento, revisto e repensado como forma autêntica de viver o amor em toda a sua potência. Porém, mesmo ele se tornou uma miragem. Não como defesa de causa ou impossibilidade a priori, mas como uma realidade deslocada, excêntrica dentro de uma vigência histórica que age como um rio caudaloso: transborda, nos varre e arrasta consigo tudo em seu curso. É contra esse rio que se tem que lutar. E, nesse caso, mesmo a fixidez almejada por um sujeito isolado acaba redundando em idiossincrasia, deslocamento, desajuste. Exatamente o que o personagem de Kar Wai vive em relação àquelas mulheres que ele poderia potencialmente amar. Arritmia e distopia: o amor líquido, como valor coletivo, não desfaz apenas a fixidez do amor, mas engendra a própria impossibilidade desta fixidez no âmbito individual, produzindo, à sua revelia, a excentricidade e a marginalidade dos sujeitos que a queiram.

Por fim, temos a aposta lançada por Bauman: a hipoteca. A possibilidade do vínculo amoroso lançada ao acaso, já que apenas no acaso é possível a esperança. Um futuro previamente conquistado por nossa vontade, onde possamos viver o amor como amor, a despeito da transitoriedade ou da fixidez do mesmo, e não como um entorpecimento coletivo, seja ele regido pela pura experiência ou pela pura idealização, pelo mais cru hedonismo ou pela renúncia, na mais completa fixidez ou na mais eufórica dissolução. Também onde possamos vivê-lo à revelia dos códigos morais e, mais que isso, também de princípios imorais ou amorais que existam apenas para rompê-los. Que seja sempre visto como uma potência, no que essa palavra traz de mais profundo, ou seja, uma mescla de possibilidade e força. Mas tal transformação exige uma mudança das práticas, dos valores, das crenças. Em suma, de quase tudo. Parece que mesmo aqui estamos diante de uma visão do amor como algo virtual, algo que não é acessível ainda, que se desdobra como um horizonte tão almejado quanto intangível.

Sim. E talvez seja essa, em termos, a aparente (e pessimista) resposta de Kar Wai. Porque mesmo a substância mais “espiritual” do amor, que poderia por ventura sair ilesa desse combate, hoje em dia se nos afigura confiscada pela melancólica impossibilidade de ser equacionada com a fluidez do mundo. Este, em todas as suas instâncias, sejam simbólicas ou materiais, é sempre vazado pela luz fantasmal das estatísticas, da perfeição, das performances e do desempenho mensurável. Mais que isso: da possibilidade iminente de troca, que também permeia o imaginário e todas as relações sociais. Ao introjetar a ética da troca nas relações e o valor da perfeição, que regra a dinâmica do capitalismo, na parcela mais íntima de nossas vidas, ao fazê-los se espraiar em todas as suas capilaridades, o mundo moderno retirou a potência do amor. E o fez, paradoxalmente, porque dessa forma retirou a sua pobreza, como nos diz Platão na sua famosa definição do deus no Banquete. Amor é pobreza, não perfeição, e só o recurso pode saná-la provisoriamente. Quanto mais falta há, mais pleno ele é.

Elementar. Sabendo-se que, ao contrário da falta, que lhe é constitutiva, o caráter fluido da força em questão não é algo que nasça da prática amorosa, não é algo próprio do amor, mas sim a ele agregado, por um mecanismo mais amplo de trocas materiais, não há como sequer tocar a sua natureza mais primária sem antes ter que passar por uma longa jornada noite adentro, para lembrar aqui o belíssimo A Noite de Antonioni. Não há como redimi-lo, sem se despir das muitas e muitas camadas de preconceitos criados pela liberdade. E isso evidencia por que essa jornada culmina, cada vez mais, para a maior parte das pessoas e na maioria das vezes, não no erotismo ou no apogeu do sexo, como se espera. Mas sim na solidão dividida entre dois corpos numa mesma cama, numa mesma cidade, num mesmo país, no mesmo mundo. O princípio da esterilidade compartilhada é vivido em seu esplendor, quase como um resultado previsível. Trata-se da glorificação maior da modernidade, corolário natural de seu sonho de subverter todos os tabus.

Não espanta que o tema do amor, ele mesmo, não o da desilusão pequeno-burguesa de pequenos casais amuados em seu desespero e gigantes em sua insignificância, tenha ficado tanto tempo em suspenso. E principalmente passado à larga de boa parte da produção cinematográfica. Também é deveras compreensível que a era do amor líquido, a era do maior e mais efetivo liberalismo econômico, sexual, político, religioso e adjacentes, seja também a era do imaginário mais domesticado e a dos artistas mais covardes de que se tem notícia. Por seu turno, em sua forma histórica, as instituições mais tradicionais, como o casamento, têm dificuldade de dar conta do amor em sua nascente líquida. Estão contra a parede e muitas vezes ainda continuam sendo maneiras que a Igreja encontrou de se desintoxicar do amor, como queria Nietzsche. Já a realidade desse afeto potente, em nosso tempo, se transformou a ponto de ser identificada a práticas, meios, modos, usos, formas, gêneros, opções, fetiches, grupos, preferências, panfletos e toda uma sonolenta, insuportável lista que diz respeito apenas e exclusivamente às modalidades amorosas, mas que cala, estrategicamente, no que concerne à natureza do amor, ao seu mistério, ao seu enigma, ao seu milagre. Coisa tão previsível como o encontro físico de dois corpos. Porque os corpos querem apenas queimar e nós, consumir. Não há espaço aqui para reflexão, porque ela obsta a troca; muito menos para uma experiência que vise a essência, pois ela será, com toda certeza, contraproducente para a economia amorosa.

Pode-se objetar que o filme às vezes resvala no kitsch, sobretudo nas cenas de ficção científica, que mesclam alta passionalidade a um ambiente futurista de robôs. Mas tal transbordamento perde o aspecto negativo se o entendermos como um recurso mesmo que Kar Wai encontrou para mostrar o amor em sua pulsão mais primária, em seu grau passional mais elevado, e que por isso mesmo não pode (e não deve) evitar o excesso. Outra crítica seria à aparente fraqueza do universo feminino que é encenada na tela. Porém, aos poucos, ela se dilui nos contornos mais especificamente humanos dos personagens. E sentimos que todos estão na mesma sintonia, se equivalem na distância, na mesma arritmia que promove o encontro, mas impossibilita a união.

À guisa de parêntese, em um dado momento do filme somos informados que um andróide é incapaz do amor. Coisa a princípio óbvia. Mas que deixa de ser no momento seguinte, com a explicação do motivo, que é elucidativa. É incapaz, não por uma característica de seu sistema técnico, posto que já amara antes. Mas por uma impossibilidade ontológica do próprio afeto. Nossa miséria não é fruto da perda da sensibilidade por conta da tecnologia ou de uma perda de nossa humanidade diante da modernização, mas de uma perda da potência mesma da entrega, uma atrofia do próprio mecanismo sensível e de doação, seja ela vivida em um paraíso de máquinas ou no inferno solitário de um quarto escuro. Essa condição só nos evidencia uma coisa: somos reféns daquilo que nos liberta. E esperamos indefinidamente viver em plenitude aquilo que nos libertará. Quem sabe, um dia?

O amor absoluto de que falavam os surrealistas, entendido como o princípio mesmo da revolução, deixou de ser uma utopia e se transformou em uma miragem, em um completo fantasma. Se a anomia amorosa já nem se ocupa mais dos afetos, quem dirá de seu sentido político mais amplo. Porém, uma coisa é certa. Essa tão propalada revolução não virá pela economia, pela política, pela ideologia, nem por quaisquer dessas grandes abstrações com a qual o Ocidente vem se entorpecendo há séculos. Mas de algo bem mais diáfano e pouco palpável, algo tanto mais impossível quanto provável. Por ora, resta-nos o consolo dessa mulher fumando ao lado de uma grande placa de néon do Oriental Hotel, contra um céu simultaneamente absurdo e real. Ao fundo, a voz alienígena de Connie Francis cantando Siboney. Em 2046, o diretor chinês Wong Kar Wai fez algo muito mais insólito do que uma ficção científica e, a um só tempo, algo mais real que a própria realidade. Ele filmou o que efetivamente não existe: o amor.


Rodrigo Petronio é escritor. Autor dos livros História Natural (poemas - 2000), Transversal do Tempo (ensaios - 2002) e Assinatura do Sol (poemas - 2005), publicado em Portugal. Lançou recentemente pela editora A Girafa o livro de poemas Pedra de Luz, que está entre os finalistas do Prêmio Jabuti 2006. Contato: rodrigopetronio@uol.com.br