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Gatlif e o road movie cigano

















Daniela Zanetti

Uma viagem pelo universo da cultura cigana, com enfoque em suas tradições musicais, é o que o diretor francês Tony Gatlif (1.) – descendente de ciganos argelinos – costuma abordar em suas produções. Duas delas, o documentário Latcho Drom (1993) e a ficção Exílios (2003), apesar de gêneros distintos, mergulham no modo de vida dos gitans; um pelo viés de grupo, da coletividade, do social, outro pelo viés do indivíduo, do aspecto psicológico dos protagonistas. Em paralelo, um contexto social que revela visões de mundo, religiosidade, costumes.

Latcho Drom (algo como “Viagem Segura”) é um documentário totalmente sem palavras. Gatlif percorre sete países – Hungria, Índia, Turquia, Romênia, Egito e França – para mostrar como a identidade cigana se manifesta, principalmente por meio da música e da dança, em regiões e grupos culturais tão díspares. É, portanto, a música que delineia o filme. O diretor empreende uma viagem de fato em busca das diferentes sonoridades e melodias produzidas pelos “estrangeiros nômades” – quase sempre estigmatizados, diga-se de passagem. Talvez só por isso a produção mereça ser vista. Para além das “descobertas” de caráter geográfico ou social, as pulsantes performances musicais, cheias de vigor e emoção, tornam o filme hipnótico.

Por causa de suas origens ciganas, Gatlif possui laços estreitos com o tema de seu documentário. Embora sua câmera seja observadora, ela também é participativa. O diretor integra essa cultura e seu conhecimento acerca dela é um elemento definidor inclusive da sua forma de fazer cinema. Há, portanto, uma relação afetiva. Além disso, no que diz respeito à elaboração técnica, pode-se notar no documentário, eventos que, embora reais, dão a impressão de terem sido reconstituídos, para que o registro fosse possível. Noutras, as apresentações provavelmente foram organizadas. Não se trata, portanto, de uma produção que segue o acaso.

A narrativa é pontuada pelo deslocamento geográfico. A câmara também é nômade. Ela, literalmente, percorre caminhos, estradas, acompanhando as caravanas de trem, a pé, em carroças ou trailers puxados por cavalos. A paisagem vai mudando. Parte-se de uma região desértica da Índia até chegar à Espanha. Cada seqüência é realizada numa cidade, povoado, rua, casa, onde as pessoas cantam e dançam em grupo.

Não há indicações claras que nos digam onde estão, de onde são. É o espectador que deve supor por meio das características dos lugares e das pessoas. No entanto, nosso conhecimento acerca de outras culturas – muitas vezes limitado e pasteurizado pelos meios de comunicação – poderá não ser suficiente, dada à hibridização cultural dos grupos mostrados e também pelos “não-lugares” onde vivem ou por onde passam.

Na primeira seqüência, estamos em algum lugar da Índia. Viajando a pé por uma região desértica, um grupo nômade chega a uma espécie de oásis. Enquanto levantam acampamento, uma menina exibe seu talento como dançarina, enquanto um garoto canta. Não é simplesmente uma dança hindu. Há outros elementos ali agregados, estrangeiros, “de fora” – como quase sempre são vistos os ciganos. Há toda uma preparação antes da cantoria, de forma que tudo pareça um grande ritual. As roupas, os adereços, o embelezamento do corpo e dos animais. Não existe simplicidade. Vê-se que as roupas são desgastadas, os pés estão descalços, mas tudo é refinado. O modo como o “cantor” vai, aos poucos, arrumando o turbante vermelho na cabeça e os adereços dourados usados pelas mulheres remetem a um luxo atípico – aliás, em todas as outras seqüências é notório esse “charme cigano”, muitas vezes sedutor. À noite, em torno da fogueira, todos cantam juntos e acompanham com palmas. O “cantor” aponta para a lua cheia. No dia seguinte, seguem viagem.

Em outro momento, dezenas de pessoas festejam no interior de uma típica casa egípcia. Pode, contudo, ser apenas um encontro ordinário, um momento de descontração num dia de folga. Um casal dança efusivamente sobre a mesa. Ele, o cantor, veste azul e tem um lenço vermelho nos ombros. Performático como o indiano, ele também é figura central.

Na Turquia, acompanhamos uma menina cigana que vende flores na rua. Há ainda um menino que engraxa sapatos. Mostra-se a realidade dos ciganos num espaço urbano, vivendo em cortiços de periferia e tendo que encontrar formas alternativas de sobrevivência. Mas não há lamento. Aqui, a música é executada no palco de um bar, por um conjunto de homens trajando terno. A menina entra, embalada pelo som que lhe é familiar, e dança escondida no fundo do bar – freqüentado apenas pelo público masculino, como é de costume em países muçulmanos.

Numa outra seqüência, um menino é surpreendido por dois velhinhos que executam um “blues cigano”, lamentoso. Estão em uma estrada qualquer, à beira de um rio. A canção fala de liberdade e de uma “gente que vem da rua”.

Outra parte marcante é a que mostra uma reunião de ciganos à frente de uma estação de trem, do outro lado dos trilhos. Aglomerados em volta de uma fogueira, apenas fazem música: duas colheres como castanholas, um pote e muitas palmas como percussão. A mãe e o menino “brancos”, tristonhos, sentados no banco de espera da estação, se deixam enfeitiçar – e seduzir – pelo “calor” da música e da feérica presença dos ciganos. Mesmo contidos, o garoto começa a dançar, enquanto a mãe sorri. Essa é uma das seqüências em que podemos notar intervenções do diretor, já que a situação parece ser construída de forma a estabelecer uma certa atitude “transformadora”, “libertadora”, como intrínseca ao modo de vida dos ciganos.

Embora seja um documentário, as performances musicais são longas, quase ritualísticas, e são apresentadas em sua totalidade. Não é uma linguagem de videoclipe. O diretor prende-se aos detalhes, procurando registrar tudo sem pressa, como que acompanhando o próprio ritmo da cultura popular. Atém-se à apresentação de cada grupo, na disposição espacial das pessoas, na forma como se juntam para dançar e cantar, como se integram. Os enquadramentos são objetivos. A cada performance, temos tempo para notar as vestimentas e adereços, gestos e expressões, movimentos e, principalmente, os instrumentos musicais – flautas, gaitas, violinos, tambores, castanholas, alaúdes – que vão assumindo diferentes aspectos a cada região.

Num dos poucos momentos “tristes”, um grupo de ciganos foge da fome e do frio rigoroso, caminhando no meio da neve e entoando uma canção de lamento. É um espaço inóspito também por estar associado aos campos de concentração que durante a guerra também não poupou os ciganos.

Em Latcho Drom não existem protagonistas. Há personagens desconhecidos que vivem suas histórias cotidianas. Todos são essenciais em seus papéis de coadjuvantes. Mas só para o espectador, pois na intimidade de cada núcleo familiar ou comunitário, o papel de cada um é essencial para a manutenção das tradições.

Em tempos pós-modernos, essa produção é instigante por retratar um modo de vida calcado em organizações coletivas, de grupos que se afirmam e se orientam a partir de valores culturais muito distintos do que encontramos nas sociedades de consumo, por exemplo. Os integrantes de cada grupo produzem e consomem sua própria manifestação cultural, como nas tradições populares ainda preservadas. A música e a dança funcionam como elementos de integração. Não existe a relação dual artista/público. Embora pareça que os cantores e músicos sejam tratados de forma especial, todos os componentes do grupo cantam juntos, ou tocam instrumentos, ou dançam. A relação comercial não existe no que diz respeito às manifestações artísticas, que são inteiramente voltadas para o próprio do grupo.

O documentário de Gatlif é todo emotivo. Envolve-nos na cultura cigana por intermédio da combinação imagem-música, carregada de relações de intimidade e de afetividade. E, por meio de uma temporalidade não demarcada, transporta-nos para uma atmosfera mágica, que parece ter se perdido em alguma época distante.

Tradição e modernidade


Em Exílios, por outro lado, o ponto de partida – da viagem e do filme – é um apartamento no centro de uma metrópole – Paris. É a partir do turbilhão do espaço urbano que o músico Zano (Romain Duris) e sua companheira Naïma (Lubna Azabal) iniciam uma viagem – física e psicológica – de descobertas. Pela janela aberta, Zano, nu, observa a cidade, esta que é tão próxima e às vezes tão hostil. Ele se volta para o interior do quarto, vê Naïma (também nua) deitada na cama, e sugere uma viagem à Argélia, lugar de seus antepassados, que migraram para a França. Tempo e espaço, portanto, estão bem delimitados.

De carona, trem, ônibus ou a pé, o casal descendente de ciganos segue para a Argélia – passando pela França e Espanha – em busca de suas raízes, de referências e tradições familiares. Assim como em Latcho Drom, acontecem encontros ao longo do caminho e a música é elemento essencial.

É também nesse contexto que se dá o encontro da modernidade com a tradição, sendo a música o elemento aglutinador. É representativa a atitude de Zano antes de partir. Ele literalmente enterra seu violino – símbolo das raízes musicais de seu povo. A música é constante. De início, sai das caixas do aparelho de som do apartamento e do walkman que eles levam na mochila. Zano e Maïna estão sempre ouvindo música. Boa parte da trilha sonora (as músicas originais são de autoria do diretor e de Dalphine Mantoulet) é composta por ritmos eletrônicos incorporados à sonoridade da música cigana tradicional (2.), em estado primário – esta que é central em Latcho Drom –, resultando numa forma musical coerente com as personalidades dos protagonistas: jovens urbanos filhos de imigrantes, absorvidos pela cultura “dominante”, mas não totalmente desarraigados, pois carregam marcas da tradição no corpo e nas feições, na forma como se vestem, dançam, conversam, se relacionam.

Na medida em que o casal se aproxima de seu destino, se deparam com uma música cada vez mais enraizada, destituída das remodelagens eletrônicas. Por isso deixam-se enfeitiçar pelo som da região da Andaluzia, onde passam um tempo antes de atravessarem o mediterrâneo, rumo à Argélia. Mesmo assim, não se distanciam de suas “raízes” urbanas. Não ocorre uma rejeição de seus estilos de vida. Não há uma negação do que é “novo” em detrimento da tradição. Pelo contrário, é o passado mesmo que poderá fortalecer suas identidades híbridas.

Numa passagem do filme, muito delicada, esse passado nos é apresentado por meio de rico material iconográfico. Já na Argélia, Zano vê fotografias em preto e branco de seus antepassados, que fizeram o trajeto contrário ao terem que se exilar na França.

Enquanto Zano busca esse passado de forma decidida, Maïna é relutante. Ao se deparar com outros hábitos, estranhos ao seu – como ter que se vestir como uma mulçumana – ela resiste. Não é fácil, de fato, ter que se deparar com o “espelho” e encontrar ali aspectos da formação de seu ser. É uma resistência psicológica, que só é superada quando os dois vivenciam um ritual milenar, numa cena, aliás, já bem descrita pelo crítico Rodrigo de Oliveira: “É este seu passaporte para o grande momento de ‘Exílios’ (e, sem exageros, um dos grandes momentos do cinema recente), um plano-seqüência de mais de 10 minutos em que Naïma e Zano participam de um ritual que mistura cantos muçulmanos à batidas das religiões africanas e que leva os dois personagens a um transe de proporções épicas” (3.) .

Em termos musicais, além da cena do ritual, há outra bela passagem que traz um grupo de músicos, em performance instrumental que segue um estilo semelhante ao de Latcho Drom. A câmera passeia pelos instrumentos de corda, tambores, flautas, enquanto o espectador deleita-se com a sonoridade exótica daquele povo.

Exílios é uma produção que retrata bem um aspecto da modernidade: o deslocamento de massas de imigrantes por todo o mundo, resultando na formação de novas identidades. Na França real, esta é uma realidade que veio à tona recentemente por meio da mídia, que noticiou rebeliões de jovens descendentes de imigrantes, estes que formam boa parte da população francesa.

Gatlif pode não ter pretendido nada disso, mas seu filme ressalta o que Stuart Hall propõe sobre as conseqüências da integração global das últimas décadas: “as identidades nacionais estariam em declínio, mas novas identidades – híbridas – estão tomando seu lugar”. E a música, como manifestação cultural intrínseca a qualquer grupo social ou étnico, assume, pelo menos nesses dois filmes de Gatlif, o papel principal.



(1.) Para saber mais sobre este diretor e suas produções, acesse o site http://tonygatlif.free.fr

(2.) Embora a trilha sonora de Exílios seja criada a partir de um trabalho mais elaborado, e até “engajado”, vale ressaltar que a incorporação de tradições musicais por parte da música eletrônica tornou-se comum nos últimos anos. Bossa nova, samba, tango, ritmos caribenhos, africanos e orientais, por exemplo, já ganharam versões eletrônicas, resultando muitas vezes no gênero lounge. Mantém-se algumas características essenciais e identificadoras do ritmo tradicional e agrega-se a ele batidas e efeitos eletrônicos.

(3.) Trecho retirado de crítica escrita por Rodrigo de Oliveira para o site Século Diário (www.seculodiraio.com), no dia 15 de fevereiro de 2006.



Daniela Zanetti é jornalista.