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"Malena, a praga e nós"













Vera Furia

Ela caminha, atravessa a praça da cidade deslizando sobre suas longas pernas. É alta. Mediterrânea. Veste-se com recato – insuficiente para ocultar suas formas bem torneadas. As mãos alternam-se na posse da bolsa. Os cabelos negros, longos ondulam ao ritmo do andar. Suas feições delicadas fecham-se numa seriedade quase que imóvel. Os olhos vão baixos, fitando o chão ou quem sabe os próprios pés. Responde aos cumprimentos das pessoas sem que sua expressão fisionômica se altere, mero formalismo obrigatório. Impossível saber o que lhe passa na alma. Bela e distante cumpre cotidianamente sua caminhada até a agência de empregos da cidade da qual retorna sempre com uma resposta negativa. Não há emprego para ela naquele lugar.

Sua passagem – esperada por todos – é o ponto alto do dia na pequena cidade siciliana. Toca a todos, movendo diferentes emoções. Os adolescentes desejosos a seguem em suas bicicletas, encharcados de hormônios juvenis que só encontram solução na prática masturbatória. O mutismo frente sua presença é compensado, na sua ausência, por uma verborragia grosseira e vulgar que descreve sua beleza e todas as práticas sexuais fantasiadas por cada um. O falatório também versa sobre as, igualmente imaginadas, diversas aventuras sexuais da mulher. Durante as aulas de latim, cujo professor velho e surdo é o pai da mulher desejada, os adolescentes se dedicam à arte do sadismo. Ofendem o professor e sua filha com comentários desrespeitosos que sequer são ouvidos e que provocam sempre o riso daqueles que menos corajosos, de uma maneira ou de outra, são coniventes com essas atitudes.

Os homens, mais ousados que os meninos, donos de hormônios já amadurecidos, praticamente a comem com o olhar durante sua passagem pela praça pública. A concupiscência transborda por todos os poros masculinos. Não esperam que ela se afaste muito, alguns passos já garantem a impunidade necessária para dar início à algaravia masculina. Os temas são idênticos aos dos garotos – a beleza da mulher e suas aventuras – o que muda é a linguagem mais pesada e desrespeitosa. Alguns, inclusive gabam-se de já terem usufruído pretensos prazeres junto à dita senhora ou de conhecerem alguém que já se deleitou entre suas pernas.

As mulheres, invejosas, a olham com ódio e desprezo. Todas estão temerosas. As casadas temem que ela lhes roube o marido. As solteiras temem que ela lhes roube os poucos homens disponíveis para o casório. Todas se sentem agredidas por sua beleza, dedicam-se com afinco a procurar defeitos e feiúra ali, onde não há. Como todos os outros membros de tão dileta população, de suas bocas transbordam relatos de todas as infames aventuras sexuais vividas pela odiosa mulher. Algumas das mulheres gabam-se de que seus maridos afirmam que jamais tocariam num ser tão desprezível e que sequer a acham atraente.

A cidade ferve de desejo e inveja. O ódio e o medo transbordam pela maledicência que escorre das bocas e espalha-se por calçadas e ruas fazendo o ar pesar. O clamor resume-se em uma frase: Malena é uma puta! O pior tipo de puta, aquele que se disfarça sob ares de pretensa respeitabilidade! Fingindo ser uma pessoa decente. E Malena passa...

Todos os dias ela atravessa a praça em busca do emprego que nunca aparecerá. Não conversa com ninguém. Mal responde, polidamente, aos cumprimentos que lhe dirigem. Depois vai à casa de seu pai onde prepara e serve o almoço. Altiva e distante. Hierática. Com os olhos baixos, grudados no chão, atravessa a atmosfera pesada, carregada dos humores dos cidadãos. Apoiada somente em sua postura e na aliança que envolve seu anular esquerdo. À noite dança sozinha abraçada ao retrato do marido que luta em algum lugar da África.

O tempo é o da Segunda Grande Guerra – momento bastante propício ao drama que se desenrolará. Uma única voz, silenciosa, vai contra o falatório geral. Uma voz adolescente que ainda não firmou o tom masculino e oscila na muda da voz infantil. Uma voz muda ainda na muda. Uma pequena voz de um menino ainda em calças curtas. Roberto apaixona-se por Malena com a força do primeiro e impossível amor. Indigna-se contra o falatório geral. Transforma-se no guardião oculto da honra de Malena. Cospe na bebida dos homens que a desejam e expressam, de forma chula, elogios à sua beleza. Briga com os adolescentes. Mija na bolsa das mulheres que a ofendem. Faz o que pode, mas pode pouco contra o alarido geral. Na sua impotência faz um pacto com um santo da igreja, o menos sisudo, acende-lhe velas para que ele zele pelo bem estar de Malena e não deixe que o mal da cidade a toque.

Roberto é um amante fiel e discreto, segue sua amada por todos os cantos, sem nunca ser notado, arruma pontos secretos de observação, buraquinhos de janela ou frestas de portas, arriscando-se em escaladas para poder zelar e se deleitar com a visão de Malena. Nutre as mais diversas fantasias, sempre com o mesmo enredo, ele é o herói que salva a amada de um perigo mortal e é agraciado com seu amor. A imagem de Malena é onipresente para Roberto, está nas telas dos cinemas, nas fotografias de mulheres semi-despidas com as quais inaugura sua masculinidade na solidão do quarto de dormir. Ele quer crescer rápido para poder tornar seu amor viável. Anseia pelas calças compridas, com ousadia providencia a feitura das mesmas às custas de vários bofetões e safanões do pai. Masturba-se incansavelmente – fato percebido por sua família horrorizada – sempre tendo como companhia imaginária a sua Malena.

Todo dia a mesma coisa...
Malena passa.
A cidade ferve!!!
Roberto derrete.

Se tudo assim continuasse o drama só existiria no sub-texto e a tragédia nunca teria ocorrido. Porém, a transitoriedade da vida é imperativa... Num belo dia de sol chega a notícia da morte, no front, do marido de Malena. Enquanto a temperatura das paixões aumenta, a cidade cumpre com fervor todos os rituais relativos à morte de um herói – missa, homenagem em praça pública com direito a discurso dos dignatários locais e salva de tiros. Malena comparece somente à missa estando ausente das outras cerimônias.

Viúva, a mulher perde o apoio da aliança, seu único suporte ainda é a sua postura e o seu pai, pois até o soldo que lhe garantia a subsistência lhe é tomado. Os ânimos da população ficam cada vez mais acirrados com a nova ordem das coisas. As paixões intensificadas – desejo, inveja, medo e raiva – crescem junto com a ousadia das ações. A cidade divide-se em duas facções – os homens, adultos e adolescentes, com suas esperanças renovadas e as mulheres casadas e solteiras completamente apavoradas. No início são as palavras que ficam mais e mais virulentas.Cabe aos homens, cada vez mais assanhados, tomarem as primeiras ações diretas em direção a Malena: exageram em beija-mãos que são mais um ataque ofensivo do que cumprimentos educados. Sua atitude provoca a retaliação das mulheres que, em pânico com a ameaça da grande puta à santidade de seus lares e à sua honra, começam a não cumprimentar mais Malena e a lhe vender sempre os piores víveres nas feiras e mercados. Os adolescentes desrespeitam continuamente o velho professor.

No meio, espremido e impotente entre essas duas forças que trabalham de forma complementar no sentido da destruição de sua amada, está Roberto. Ele sofre temendo por Malena. A despeito da praga emocional crescer dia a dia, ela ainda é razoavelmente contida pela respeitabilidade do velho professor, pai de Malena, a quem cotidianamente ela continua a cuidar em sua casa, após a procura, cotidiana e infrutífera, por trabalho. A existência do professor funciona como um anteparo, um dique, que contém a torrente das paixões dos cidadãos. Em sua surdez e alheamento, o velho homem não tem a menor idéia do papel fundamental de defesa que exerce em relação à sua filha.

E Malena passa...
Continua passando...
Porque?

Poderá ela ainda acreditar que um dia haverá um emprego para si?
Será que ela não sente a atmosfera cada vez mais densa?
Ela não vê as faces contorcidas de desejo, medo e raiva?
Será que crê que o pai e sua altivez serão suficientes para conter a força das paixões?
Porque Malena não busca uma proteção mais efetiva do pai, mudando-se para sua casa?
Porque não mudou de cidade?
Porque continua a passar?

Ingenuidade?
Raiva?
Desafio?
Orgulho?
Não sabe que sua mera passagem pela vila é em si um desafio ao veneno daquela gente?

A peste emocional grassa na irresponsabilidade garantida pelo anonimato sem cara. Todo mundo é igual a ninguém – ambos não tem cara. A responsabilidade é sempre um gesto pessoal. É justamente o anonimato covarde de uma carta não assinada dirigida ao velho professor que rompe o dique de proteção e libera totalmente a praga emocional e seu poder de destruição. A carta traduz em palavras o falatório geral até então inaudível para o velho e surdo pai – sua filha é uma puta, deita-se com todo mundo até com porcos e cães, sua baixeza é inenarrável.

A atitude do pai é muda e cortante, ele troca a fechadura. Fecha-se só. Não dá mais aulas. Nem uma palavra é dita. Malena fica do lado de fora. Perde sua última proteção real. Só lhe sobra a altivez da postura, totalmente ineficiente para conter a onda, já formada, das paixões dos cidadãos.
Porque o professor tomou essa atitude?
Porque não conversou com sua filha?
Porque se rendeu tão facilmente às palavras covardes e ofensivas de uma carta anônima?

Será que ele também se sentia agredido pela beleza e altivez de sua filha? Nunca ninguém soube já que o velho homem só saiu de sua casa, morto por um bombardeio das forças aliadas. A cidade, no entanto, regozijou-se com sua atitude. Ela foi como uma bandeira verde que liberou ataques cada vez mais diretos a Malena. Jovem, bela, viúva, só, orgulhosa e desvalida, Malena começa a namorar um também jovem oficial do exército – partido disputado pelas solteiras da cidade. Roberto fica enciumado, enfurecido e impotente.

Um dos homens da cidade, casado, velho e nada atraente, arranja uma briga com o oficial quando este sai, uma noite, da casa de Malena. Ataca-o acusando-o de estar assediando sua noiva. O que parece piada torna-se um caso de polícia, com direito a julgamento público, onde a ré, claro, é Malena. Culpada de estar recebendo em sua casa o jovem oficial, culpada de estar noivando com um homem casado. Culpada, desde sempre, pela cidade, por ser quem é. Frente à seriedade da situação Malena procura um advogado, este é solteiro e como todos a deseja, vendo surgir, nesse momento, a oportunidade de realizar suas fantasias e obter a mulher como pagamento, aceita defende-la.

No julgamento Malena fica sabendo que o jovem oficial foi transferido e não se encontra mais na cidade. Além de abandonada foi traída. Ao partir, ele deixa uma carta afirmando, que seu envolvimento com a mulher foi uma coisa passageira. O advogado, movido pelo desejo, capricha na verve e consegue a absolvição de Malena. Na noite do mesmo dia, dirige-se à casa de Malena para efetuar a cobrança. A mulher tenta pagá-lo com o pouco de dinheiro que possui, mas ele não aceita. A única moeda capaz de satisfazer-lhe é o corpo de Malena. Ela tenta resistir, o homem lhe é repulsivo. Acaba cedendo. Começa enfim sua tão desejada derrocada...

Roberto a tudo assiste dos seus postos de observação. Enfurecido, em prantos dirige-se à igreja e agride a estátua do santo em quem depositara suas esperanças de proteção da mulher amada. Ele foi traído por Malena e pelo santo. É capaz de perdoar a mulher que ama e vê acuada, porém jamais perdoará o santo. Assim começa o namoro de Malena e do advogado. A mulher acredita que esse homem talvez possa lhe salvar pelo casamento. Ele bem que o deseja, chega a comprar o anel. Porém, todos os planos são frustrados – a mãe do dito advogado o proíbe de casar-se com a vadia. Ele, claro, como bom filho que é, obedece a sua mãe e aos prantos revela a Malena a impossibilidade do casamento.

Novamente abandonada e traída a situação de Malena complica-se cada vez mais. Agora ela passa fome. O soldo do marido lhe foi tomado. O pai fechou-lhe a porta na cara. O belo oficial partiu. O advogado não enfrenta a mãe para desposa-la. Não há emprego. Não há dinheiro. Não há comida. O que fazer? Continuar passando... Escorada na altivez que já começa a se desmanchar na fome...

Enquanto isso, Roberto adoece de desejo sexual frustrado e de tristeza. O padre é chamado para exorciza-lo. Levam-no a uma curandeira. As beatas rezam. A mãe chora. O pai observa. Nada funciona. Seu pai contra a vontade de sua mãe leva-o a um bordel. Lá, imaginando-se com Malena deixa sua virgindade para trás e ganha, além da cura as tão desejadas calças compridas. Agora já é um homem.

Enfim Malena sucumbe. Uma noite, sozinha, faminta, senta-se na frente do espelho. Sua fisionomia está vazia. Lentamente corta seus longos cabelos, ajeitando cuidadosamente as mechas retiradas em um papel. Terminado o corte ela faz um embrulho e guarda seus cabelos na cômoda. Guarda sua vida antiga. Sobreviver é preciso. Enfim a cidade vai tê-la como a quer.

E, no dia seguinte Malena passa novamente...
A altivez é a mesma.
Os trajes são outros.
Malena é outra.
A raiva está estampada em seu semblante.
O nariz continua em pé.
Desliza com um vestido muito decotado e justo que ressalta suas formas de maneira um tanto vulgar. Seus cabelos estão curtos e arruivados. Está muito maquiada. Passa desafiando, vencida posando de vencedora.

O choque é tal que por um longo momento todos os cidadãos ficam mudos, estupefatos. Malena senta-se sozinha na mesa do café, coisa que nunca antes fizera. Todos os olhares estão grudados nela. Cruza as pernas com ousadia, revelando um bom palmo de cochas bem feitas. Puxa um cigarro e espera olhando em volta. Passado o susto vários isqueiros acesos apresentam-se na disputa pelo privilégio de acender o seu cigarro.

O alarido começa. Os homens entusiasmam-se – enfim seus sonhos serão realizados! As mulheres confirmam sua antiga opinião de que ela era uma puta, o que antes era disfarçado agora virou público. Tanto melhor! Enfim a máscara de Malena caiu, comprovando a sábia percepção das mulheres sérias e pias do vilarejo. Nunca maledicência, mero conhecimento de causa! Toda a cidade enfim está feliz! Todos foram validados em suas paixões e opiniões. Os homens tinham todo o direito de desejarem Malena e de se dirigirem à sua pessoa de forma grosseira, afinal ela é mesmo uma puta. As mulheres estavam cobertas de razão no seu desprezo e temor, na sua inveja e no seu medo, afinal Malena é mesmo uma puta. Em nenhum momento se sentem responsáveis pelo drama que se desenrola. Nem sequer por um segundo questionam-se sobre suas atitudes. Eles são bons, pios, respeitadores das leis da sociedade, são sérios e honestos. Ela e somente ela, Malena, é a representação do mal.

A única pessoa que sofre junto com Malena é Roberto. Só ele também está triste. Ambos completamente impotentes frente à força da peste emocional. Ambos vencidos. E Malena passa... Agora da forma como sempre deveria ter sido, como cortesã! Enfim as coisas ocupam sua ordem natural. Passando por todos os homens, já não mais passando fome, um dia ruiva, outro loira, sempre muito maquiada, Malena passa também a dormir com os oficiais alemães do Reich. Afinal todos eles são ninguém. Afinal ela também já não é mais a mesma Malena.

Depois de um grande bombardeio, no qual o velho professor faleceu trancado em sua casa, os aliados chegam à cidade. É um dia de festa. A guerra acabou. Acabou mesmo? Será que um dia a guerra do homem contra o homem acaba? Vá lá, a segunda grande guerra acabou. Todos comemoram. Tanques e ianques desfilam pelas ruas. Bandeiras, chicletes e barras de chocolate se misturam com sorrisos e acenos.

Chegou a hora da vingança final das mulheres! Todas juntas em seus vestidos escuros, como um batalhão bem treinado, dirigem-se à casa de Malena. Arrastam-na para a rua. Espancam-na, rasgam suas roupas, cospem no seu rosto e juntas terminam o serviço que há tempos atrás Malena começou, cortando seus cabelo bem junto ao couro cabeludo.

Roberto assiste a tudo do selim de sua bicicleta, cujos manetes aperta até que os nós de seus dedos fiquem sem cor. As lágrimas correm pelo seu rosto e pelo rosto de Malena. Só os dois choram nesse dia de festa e retaliação feminina. Tudo feito com a maior justiça, pelo bem e pela moral!
No dia seguinte, Roberto vê sua amada partir da cidade, disfarçada, com o rosto machucado coberto por um lenço grosseiro, ainda mancando devido às pancadas do dia anterior. Mesmo assim bela. Mais uma vez o menino chora. É o único a dizer adeus.
A vida na cidade continua, na sua respeitabilidade usual. Os que eram facistas viraram americanófilos...

Um dia o marido de Malena retorna. Afinal ele não estava morto. Chega gasto da guerra, sem um braço, magro. Encontra sua casa ocupada por refugiados. Procura por Malena. As pessoas que ocupam a casa não sabem de nada. Dirige-se à cidade procurando conhecidos que possam lhe informar do paradeiro da mulher e da ocupação de sua casa. Na cidade instala-se um mal estar quando as pessoas o reconhecem. Todos fingem não saber quem ele é. Afirmam descaradamente que não o conhecem e nem mesmo à sua esposa. Alguns mais ousados ofendem-no por ter ido lutar uma guerra perdida. Afinal os burocratas já haviam mudado de lado. O episódio de Malena já fora esquecido e enterrado com sua saída da cidade. O que esse homem, fantasma do passado quer com sua incômoda aparição? Incomodar de novo os pacatos e respeitosos cidadãos de tão honrada sociedade? Já não bastava o que eles haviam passado com a guerra e tudo o mais? Ele que tomasse o mesmo destino de sua infeliz mulher e sumisse! O marido vaga atarantado pela cidade. Ao anoitecer vai dormir com os refugiados na sua antiga casa.

Roberto assiste a tudo. Não tendo coragem de dirigir-se pessoalmente ao homem escreve uma carta que no escuro da noite, de um dos seus esconderijos, joga sobre o homem ainda acordado e foge antes de ser visto. Na carta, Roberto diz ao homem para não acreditar nas coisas ruins que por ventura venham a lhe falar sobre sua mulher. Diz que sabe que ela sempre o amou. Informa-lhe qual foi o trem que Malena tomou no dia de sua partida da cidade. Desculpa-se por sua covardia e deseja-lhe sorte na busca da esposa.

O homem parte no dia seguinte.
O tempo passa.
A vida continua...
Até que um belo dia, Roberto caminhando de mãos dadas com a primeira namorada, quase tropeça ao avistar Malena de braço dado ao marido atravessando a praça da cidade.

Mais uma vez Malena passa.
A cidade emudece. O silêncio pesa. Os olhos arregalam-se.
Malena passa. Passa apoiada no marido. Está pálida. Tropeça. Continua andando estimulada pelo homem de um braço só que tão bem a ampara. A travessia é um suplício, para Malena e para a cidade. Cada vez que ela baixa os olhos o marido aperta sua mão estimulando-a a olhar em frente, a passar de cabeça erguida. E agora?
Eles voltaram. Ocuparam sua casa e...?
Ora, a vida continua...

Malena vai às compras pela primeira vez. O medo está estampado em seu rosto. Caminha meio titubeante. Insegura. As mulheres a olham. As mesmas que a espancaram tempos atrás. O impasse perdura por algum tempo, suspenso no ar. Até que uma das mulheres cumprimenta Malena, chamando-a de senhora, oferecendo-lhe alguns dos melhores legumes de sua banca. Esse primeiro cumprimento é o sinal. Todas as outras também cumprimentam a mulher, agora senhora, alegremente. Ofertam-lhe pechinchas – imagina, não é preciso pagar agora, a senhora pode levar o que quiser e depois pagar. Timidamente e de forma distanciada, Malena responde aos cumprimentos e aceita as regalias que lhe são oferecidas. Termina suas compras e carregada com diversas sacolas dirige-se à sua casa.

Roberto, sempre vigilante, assiste tudo de sua bicicleta. Malena mal dá alguns passos e uma das sacolas abre-se derramando pela rua laranjas e cebolas. Roberto adianta-se e silenciosamente ajuda Malena a recolher suas compras. Malena agradece a sua ajuda. Quando ela começa a distanciar-se Roberto a chama e deseja-lhe boa sorte. Ela vira-se. Eles se olham. Cada um toma o seu caminho.

Terá ela percebido que essa é a mesma frase com que Roberto termina a carta que endereçou a seu marido e, portanto, que ele foi seu benfeitor?
Será que isso é realmente importante?
... talvez seja mais produtivo refletir um pouco sobre o que essa bela estória, magnificamente filmada por Giuseppe Tornattore, nos conta sobre nós.

Muito mais do que a estória do primeiro e impossível amor de um adolescente, o que ela também é, essa é uma estória sobre todos nós e nossas paixões. Nela encontramos o mais belo de nós e o mais feio. O joio e o trigo. O luxo e o lixo. O lirismo e a brutalidade.

O lirismo, o luxo, o trigo, que todos nós somos é trazido à luz por Roberto, seus sentimentos, fantasias e atitudes em relação a Malena e ao drama que se desenrola. Esse menino que ao longo da estória vai se tornando homem reuni em si belas qualidades. Sua ingenuidade nunca chega a ser boba ou suicida, ele não se expõe frente às pessoas da cidade, nem tampouco deixa de tomar uma posição em relação a tudo que ocorre. Ele faz o que pode e de alguma forma sabe que pode pouco, é só um menino. No entanto, é justamente a sua atitude que por fim permite ao marido de Malena encontra-la.

Apesar de desejar ardentemente Malena, dela ser sua musa, sua heroína, seu amor, nem por isso Roberto deixa de ser capaz de enfim realizar sua nascente masculinidade com a mulher possível que lhe chega através das mãos do pai. O mesmo pai que ele é capaz de enfrentar, a despeito dos sopapos, indo atrás de suas almejadas calças compridas e também de obedecer, curvando-se aos castigos, cumprindo a inevitabilidade do seu lugar de filho e criança.

Roberto nunca esmorece, mesmo frente ao poderio da fé da igreja católica, quase hegemônica naquela época e naquela cultura, ele é capaz de posicionar-se – rompe com santo que lhe falhou na proteção da amada. É capaz de perdoar a mulher, que é humana e motivação de seu amor, mas não consegue fazer o mesmo com santo representante também das crenças que lhe foram passadas.

Claro que Roberto não é perfeito, nem tão pouco um herói. Por mais que sofra em função das palavras de seus pares adolescentes, ele não consegue posicionar-se de forma clara frente a eles. Uma única vez troca uns tabefes com os moleques, porém, o motivo não é Malena e sim o tamanho do seu pinto – aliás, assunto importantíssimo para um menino nessa fase de crescimento. Ele presencia o espancamento de sua amada sem conseguir fazer nada além de chorar. No entanto está lá, presente, no dia de sua partida, o que mais tarde permitiu-lhe direcionar a busca do marido de Malena. Nem impotente nem onipotente – Roberto exercita de maneira exemplar a potencia real, aquela que lhe é possível, do seu tamanho, nem mais nem menos. Ele dá os passos do tamanho de suas pernas.
E a brutalidade, o lixo, o joio?

O nosso lado escuro está mais do que evidenciado pelas atitudes dos homens e mulheres desse pequeno vilarejo da Sicília. A luxúria, a maledicência, o ciúme, a inveja, o ódio, a falsidade, a covardia o sadismo – todas essas características tão humanas gritam através dos gestos e atos das pessoas.

A covardia e o sadismo explícito dos adolescentes com o velho professor é feroz. Escudando-se covardemente na surdez do velho homem, esses seres imberbes, permitem-se todo tipo de desrespeito. Os homens aliviam a pressão do seu desejo frustrado e da raiva correspondente na maledicência e jactando-se sobre pretensas aventuras já realizadas com a dita senhora, ou seja, mentindo. As mulheres aliviam seu ciúme, inveja e medo também através de mentiras, tanto mentem sobre a honra de Malena, como mentem sobre os sentimentos de aversão que seus homens nutrem pela mulher.

Essas pessoas perdem a sua individualidade e se transformam numa horda, uma turba, onde a pessoalidade e a responsabilidade diluem-se num nós que é sempre ninguém e todo o mundo, portanto, não há um alguém a quem a responsabilidade possa ser imputada. Essa é peste emocional, como bem a descreveu Reich. Todo o mal é projetado para fora, para um outro qualquer, no caso Malena. Porém, bem de acordo com a época, também podem ser os judeus, ou os negros, ou os homens, ou as mulheres. No atual momento político, para muitos são os árabes, e para outros os americanos. O mal que sempre fica fora, que nunca é meu, que é sempre do outro, quando se esparrama e alastra, escudado no anonimato e na irresponsabilidade da massa, reverbera no falatório geral e vira peste, praga emocional. A peste do homem, a nossa peste. Esse drama humano desenrola-se tanto de forma miúda como no caso de Malena, como de forma mais ampla desenhando os holocaustos históricos. Manifesta-se também de forma muito mais branda no cotidiano de todos nós.

É a vizinha bonita que atrai as farpas das mulheres ao redor. São as nossas palavras duras movidas pela inveja do novo carro de um conhecido. É a língua que eu quero falar e outro domina tão bem. É a mulher ou o homem que eu queria namorar e quem namora é outro. É tudo que eu desejo e o outro tem ou é. Tudo isso dá raiva, inveja e ciúme. Como se não bastasse ainda temos o diferente, o não eu, aquilo com que não estou familiarizada que sempre dá medo. O caldeirão das nossas paixões. Tão humanas. Tão cotidianas. Tão vãs frente a finitude e fragilidade da vida. Tão inexoravelmente presentes – sempre. É o lixo de todos nós, traço inescapável da nossa humanidade.

Então não tem saída? Estamos fadados a viver mergulhados na peste?

Sim e não. Como dizia o velho Professor Freud, ninguém é culpado por sentir qualquer coisa que seja, faz parte da humanidade, porém, todos somos responsáveis por nossos atos, pelo que fazemos. No caso do nosso lixo só há uma saída – apropriar-se dele. Só através desse ato podemos ficar com o que é nosso e escolher o que fazer com isso. Seja qual for a escolha, ela sempre poderá ser questionada, no entanto será responsável, não se escudará na culpa do outro, não será projetada, tão pouco cairá no anonimato do falatório geral, ela será um gesto pessoal. Se cada qual puder ficar com a parte que lhe cabe no latifúndio das paixões talvez a praga que grassa cotidianamente possa ser diminuída.

E Malena? Como fica nessa estória? Será ela a grande vítima da praga do outro? Tão simples assim? Se assim fosse, estaríamos fadados ao mesmo maniqueísmo emocional simplista através do qual a praga grassa. Já que todos somos luxo e lixo fica quase impossível a permanência dos estereótipos da vítima e do algoz.

É bem verdade que Malena não tem nenhuma atitude francamente maldosa no desenrolar de seu próprio drama, porém ela ficou lá naquele lugar. O que a impulsionou a permanecer e acabar amparando todo o veneno que grassava? Porque teve que passar por tudo o que passou? Ingenuidade? Talvez... É possível que ela acreditasse que já que não estava fazendo nada errado nada de mal iria acontecer. Onipotência? Está claro que Malena se orgulhava de sua aparência e de suas vestes diferenciadas, talvez até gostasse da inveja que provocava. É bem possível que percebendo o veneno das pessoas usasse sua caminhada diária em busca de trabalho como uma forma de retaliação – é sou bonita, e daí? Sou honesta, o mal de vocês não conseguirá me tocar, estou acima dele. Soberba? Cegueira? Devido a que? À impossibilidade emocional de ver o mal em si e no outro ou por obtusidade? Onipotência? Quem sabe ela percebia e estava tirando um braço de ferro com a cidade? Se foi assim ela avaliou muito mal o inimigo e pagou um preço caro por isso. Porque não pediu ajuda ao pai, não foi morar com ele? Talvez Malena tenha falhado na sua própria defesa também em virtude das convenções sociais, afinal ela poderia ter mudado de cidade, mas naquela época as mulheres decentes não faziam isso e ainda existia a guerra. No final das contas sempre há uma boa justificativa, mesmo que não seja a guerra, para as nossas ações, o que de fato não muda nada.

Mesmo que Malena não tenha tido, como parece, um papel ativo no desencadeamento da peste – afinal, deveria ela enfeiar-se, esconder-se para aplacar a luxúria dos homens ou a inveja e o medo das mulheres? – ela é co-responsável no seu drama. De fato ela não tomou nenhuma atitude eficaz de auto-proteção. Ela manteve sua pose e ferrou-se. Claro que ela sentia raiva – aliás, justificada – da cidade, isso fica evidente na audácia provocativa com que puxa o cigarro e espera que os isqueiros se apresentem para disputar o privilégio de acende-lo, no dia da sua primeira caminhada oficial como puta.

Pobre Malena, até esse gosto ela perdeu no dia da ocupação americana... Surrada em público, com a cabeça raspada, acabou tendo que fazer aquilo que se houvesse feito antes teria lhe livrado de poucas e boas – partido. No final das contas, de uma forma diferente, Malena acabou sendo tão irresponsável como os seus concidadãos. Só que pagou um preço mais caro. Para que haja um carrasco é preciso que exista também alguém muito a fim de se tornar vítima. Se Malena fosse embora lá no início, ela teria se salvado da praga, teria sido impecável consigo mesma através da sua ausência, ela simplesmente não estaria lá, disponível para ser a vítima. O filme de Tornattore seria outro. Nós não teríamos a chance de aprender um pouco sobre a Malena que vive em todos nós, sobre a dileta população que também nos habita e tão pouco sobre o nosso Roberto interno. Estaríamos todos mais pobres em beleza e aprendizado.

Não é possível encerrar sem falar do marido. Entre todas as possibilidades que se apresentam ele não só vai em busca da esposa como de fato a encontra e a traz de volta.

Porque retornam? Talvez a melhor pergunta seja para que retornam? Eles possuem uma casa na cidade, só isso nos é dado saber. Mas o apego às posses materiais seria motivação suficiente para trazer Malena de volta ao lugar onde tanto penou? Seria a motivação o orgulho? Ganhar a última queda de braço com a população?

Talvez não... A volta de Malena não é bombástica, seu nariz não está mais em pé. A travessia da praça é difícil, doída, intento que só é conseguido graças ao apoio do braço do marido, ela está evidentemente assustada. Malena continua bela, mas não é a mesma... Longe de estar alquebrada, seu porte ainda é gracioso, mas não possui a mesma altivez. Malena não passa mais acima da cidade. Ela atravessa duramente a cidade. Corajosamente, com medo, vencendo esse medo com a ajuda do marido. É quase um exorcismo do medo, um exorcismo da peste. Eles voltam porque precisam voltar, para se libertar do passado. Eles voltam porque podem voltar – têm uma propriedade, eles se têm. Essa volta é um castigo para o orgulho da cidade, eles vão ter de engoli-los, mas é também uma redenção, a possibilidade de aplacar a culpa é tão bem vinda que as mulheres tratam a senhora muito bem na feira.

E a vida continua...


Vera Furia
é Mestra em Psicologia na área de Práticas Clínicas pela PUC-SP, docente do Curso de Especialização em Medicina Psicossomática da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática, docente do Curso de Formação do Instituto Brasileiro de Psicologia Biodinâmica e autora do livro “Mulher Arquivo Confidencial”, publicado pela Ed. Arx.