Qual o melhor filme de David Cronenberg?




Fernando Oriente (Editoria)


1 - Para falar da obra.

Por mais reducionista que possa parecer, escolher aquele que achamos o melhor filme de um cineasta é algo que quase sempre nos vem à cabeça. Seja em uma conversa com outros entusiastas do diretor ou mesmo quando revemos sozinhos um de seus longas e, inevitavelmente, passamos a compará-lo com outras obras do mesmo autor. Muitas vezes nos parece absurdo escolher apenas um entre tantos filmes que admiramos. Em outros casos nos surpreendemos e acabamos por gostar de um trabalho assinado por um diretor que não tínhamos muito apreço.

Para inaugurar uma discussão em torno desse tema, escolhemos um cineasta muito admirado por quase todos no Cinequanon: David Cronenberg. Autoral ao extremo em todos os longas que assina, Cronenberg é um dos cineastas mais originais do cinema contemporâneo e embora tenha levado algum tempo para ser reconhecido pela parte mais conservadora da crítica, já atingiu um ponto de reconhecimento que faz com que a escolha de apenas um filme em meio a uma obra tão consistente seja motivo para boas reflexões. A discussão está aberta:


- “Senhores do Crime” Eastern Promises (2007)

- “Marcas da Violência” A History of Violence (2005)

- “Spider” Idem (2002)

- “eXistenZ” Idem (1999)

- “Crash – Estranhos Prazeres” Crash (1996)

- “M. Butterfly” Idem (1993)

- “Almoço Nu” Naked Lunch (1991)

- “Gêmeos – Mórbida Semelhança” Dead Ringers (1988)

- “A Mosca” The Fly (1986)

- “A Hora da Zona Morta” The Dead Zone (1983)

- “Videodrome – A síndrome do Vídeo” Videodrome (1983)

- “Scanners – Sua Mente Pode Destruir” Scanners (1981)

- “Os Filhos do Medo” The Brood (1979)

- “A Escuderia do Poder” Fast Company (1979)

- “Enraivecida na Fúria do Sexo” Rabid (1977)

- “Calafrios” Shivers (1975)



Por Gabriel Carneiro (Cinequanon)


2 - Uma discussão sobre o poder das imagens.

Ao que me parece, Cronenberg gosta de filmar as diferentes realidades, as diferentes interpretações da verdade (ou do fato). Noções distorcidas de um evento, apreendendo-se no pitoresco, no bizarro, para contar uma história e então refletir sobre a imagem criada, sobre o processo criativo. Já o fazia desde os viscerais “Calafrios” e “Enraivecida na Fúria do Sexo”. O jogo entre o real e o falso permeou os anos 80, com “Videodrome”, “Gêmeos – Mórbida Semelhança” e “A Mosca” – a criação do enigma pelo “desconjunturado”, pelo irreal, pelo fantástico.

Em 1999, ele realizou, talvez, o melhor exemplo de seu cinema, eXistenZ – que pode não ser o melhor, mas é o que melhor funciona dentro do paradigma do cinema de Cronenberg. Não à toa, a questão chave em seus filmes só encontrou vazão para se expressar a contento no final do milênio. Com a era dos computadores, a inovação tecnológica, um mundo virtual, paralelo ao real, tornou-se real, compreensível. A comunicação deixou a pessoalidade de lado, pessoas se enfurnaram em suas máquinas para viver. Em eXistenZ, Cronenberg cria um jogo, de título homônimo ao filme, de realidade virtual. As pessoas colocam os apetrechos do videogame e logo encontram-se em outro local, com outro objetivo. Dentro do jogo, há outra versão do jogo. Em determinado momento do filme, um deles indaga: “ainda estamos dentro de eXistenZ”? E aí perguntamos, o que é real? Tudo é tão plausível dentro daquele universo criado, que não sabemos ao certo o destino, o rumo a se tomar, o que é real e o que é ilusão.

A reflexão de Cronenberg vai além, e discute o poder das imagens: sabemos que os pods, a arma de ossos e os animais transmutados são ficção, porque não existe na nossa realidade, mas e daí? Vemos tanta ficção que quer ser realidade, que se confundem, que nos confundem. A verdade é passível do falso. É como se vivêssemos numa realidade paralela, ou absortos num mundo próprio.

O filme, de produção modesta, foi lançado junto com o blockbuster “Matrix”, com similaridades temáticas, mas sem o mesmo apuro estético. Fracasso de bilheteria, sequer foi lançado no Brasil. Uma pena. Cronenberg sabe mesclar toda a reflexão metafísica para entender seu próprio papel enquanto cineasta de obsessões, com o caráter fantástico da ficção científica e do terror. Seu mundo é torto, distorcido, cheio de enigmas, de bizarrices, de homens-insetos, de doenças contagiosas que necessitam de sangue, de animais radioativos, de máquinas humanas e de munição feita com dentes.

Nos últimos anos, o mundo da fantasia foi deixado de lado em projetos mais ambiciosos – sempre com a mesma discussão. É possível que o problema tenha se tornado tão grave que foi tragado para dentro de tudo isso – sem esquecer, nunca, a qualidade do produto.

Talvez, creio, seja esse o motivo de eXistenZ ser a obra máxima de David Cronenberg – por ora, pelo menos.

Fernando Oriente (Cinequanon)


3 - A obra-prima

O que me faz escolher Crash (1996) é, antes de tudo, o fato de se tratar de algo raro no cinema: uma obra-prima. Diante desse filme, lançado em 1996, podemos constatar como os principais elementos característicos na obra de David Cronenberg se co-relacionam e, juntos, são capazes de oferecer um resultado final em que forma e conteúdo se fundem em um todo estético arrebatador. Cada enquadramento, cada movimento de câmera e a maneira como Cronenberg dispões os atores e as situações no quadro são fruto de uma decupagem cirúrgica em que a significação e a simbologia das metáforas afloram no compasso das pulsões dos personagens. É um longa sobre corpos, cicatrizes, máquinas, sexo e dor. Uma visão de um apocalipse retrô em que todos esses elementos se misturam produzindo corpos e almas em constante transformação. São os característicos ‘seres mutantes’ do cineasta que aqui atingem o ápice de sua expressividade.

Cronenberg pegou o interessante romance de Ballard e transformou em um filme brilhante. A maneira virtuosa como converte em imagens as idéias que retirou do livro faz com que pensemos que o autor inglês escreveu, mais de 20 anos antes do lançamento do longa, um argumento tipicamente “cronenbergiano”. A mutação dos corpos, a fusão da carne com a máquina, o orgasmo masoquista que é potencializado e tornado pleno na dor; tudo encenado por meio das imagens assépticas e da frieza quase hospitalar com que Cronenberg registra as ações. Crash é uma obra em que tudo funciona com perfeição. No longa só existem acertos, não existem “poréns”. Os atores estão impecáveis em um dos mais competentes trabalhos de casting no cinema recente. A luz metálica da fotografia potencializa o caráter significante e os simbolismos de cada cena. O ritmo crescente de tensão, a aproximação de um clímax inatingível e a densidade imposta pelo diretor à atmosfera de cada cena envolvem totalmente o espectador, que é incapaz de ficar indiferente à força do que está assistindo. Tudo conduzido por uma montagem compassada na intensidade do que é encenado, unindo os planos dentro da proposta de uma “viagem sem volta” em que os personagens embarcam arrastando com eles as emoções do público. Até a culminância em um dos mais dolorosamente belos finais do cinema contemporâneo, que em impacto e beleza cruel pode ser comparado ao de “O Sabor da Melancia’, outra obra-prima recente, só que assinada por Tsai Ming-Liang (mas aqui já entramos em outra discussão). São por esses breves argumentos, entre tantos outros que faltaram aqui, que sou impelido a escolher Crash em detrimento a outras obras fantásticas de Cronenberg, como “Videodrome”, “eXistenZ”, “Gêmeos”, “Marcas da Violência”...



Cid Nader (Cinequanon)


4 - Divisor de águas?

No ano de 2005 aportou por aqui aquela que me bateu como a obra imprescindível de um diretor que já carregava em seu currículo obras tão inquestionáveis quanto atípicas: a saber, Marcas da Violência. Estranho, que de dentro de um “mundo estranho” pesquisado e filmado, sempre e sempre, por Cronenberg, resultando trabalhos de estilo estético e essência “aberrantes”, tenha me ficado na mente o trabalho de aparência mais “comum” do diretor – valendo dizer que, “comum”, para ele, não significa necessariamente “comum”, para o mundo. Estranho – relendo minha crítica feita à época – a comparação inusitada que fiz desse autor canadense com um dos supra-sumos da cinematografia da América do Norte, que é o “familiar” Frank Capra.

As obras citadas à exaustão por quase todos – inclusive nos dois textos anteriores aos meus: o do Gabriel e o do “propositor” da discussão, o Oriente – como componentes de uma carreira recheada de “filmes marca”, são respeitáveis demais, e, se não tivesse surgido o Marcas no meio do caminho, me fariam rebolar mais no instante da “obrigação” de eleger uma como a maior (talvez fosse “Crash” ou “eXistenZ” mesmo, talvez “Gêmeos” ou o mais recente ainda, “Senhores do Crime”). Para minha “sorte”, esse diretor estranho um dia resolveu filmar esse que é meu escolhido, a partir de uma graphic novel de John Wagner e Vince Loke, criando uma espécie de divisor de águas em sua filmografia. Da graphic novel, restam os belos arranjos de lutas e coreografias de violência que acortinam a figura do homem pai de família e trabalhador, para deixar entrever a face fria de uma verdadeira máquina humana de matar, escondida e, até certo momento, refugiada de um passado a ser esquecido.

Utilizar a figura de traços duros de Viggo Mortensen para recriar o personagem de Tom Stall, foi um achado tão grande quanto realizar um filme que – como divisor de águas, como citei acima – criou, vincou uma “face” madura no diretor, como realizador que podia ir muito mais além ainda do que já havia caminhado até então. Tal qual Almodóvar com seu “Carne Trêmula” - mais uma comparação que soa estranha, mas não é -, Cronenberg conseguiu com esse filme atingir o patamar de amadurecimento no evidenciamento narrativo, criando brechas mais “palpáveis” para a discussão dos temas de seus seres complexos (sentimentos, necessidades, neuroses), sem que em nenhum momento se percebesse arrefecimento ou recolhimento quanto às durezas (ou estranhezas, como preferem alguns) a serem discutidas.

Referindo-se como nunca tinha feito de maneira tão clara ao desejo do sonho simples e puro americano (daí a Capra...), o filme acabou sendo um achado “físico” (quase tátil em sua explanação imagética firme e bem realizada demais) para os complexos humanos que sempre compuseram seus personagens. Continuou a tocar questões “intocáveis”, filmando-as com mais rigor e sendo mais rigoroso nos cernes individuais: reafirmou, de modo mais engrenado, que tudo o a alma humana deseja é poder ir ao recôndito das bonanças, após as tempestades que nos atormentam milenarmente (daí, ao sonho americano...).